Os exemplos gráficos e descritivos que apresentamos podiam multiplicar-se consideravelmente, se não nos tivéssemos inscrito no âmbito dum simples esboço, conforme ficou dito, no título destas notas.
Em algumas passagens, deixámos apontada a ideia muito provável de que a genealogia da escultura antropomorfa angolana e doutras zonas africanas a que os exemplos são extensivos - provenha de velhas civilizações florestais.
Realmente, a difusão da cultura paleo-negrítica silvestre, ou da grande floresta alastrou a grandes domínios do território africano, Angola incluída, e aos paleo-negríticos ou paleotropicais são inclusive atribuídos alguns postes de culto de feição antropomorfa.
Não há dúvidas de que o esquema que bordámos apresenta sob vários aspectos fortes reminiscências de estilo florestal, difundido, aliás, até longas distâncias das planuras savânicas.
Admitimos essa origem. Factos há que dir-se-ia serem menos visíveis, exactamente por serem extremamente grandes, escapando, pelas dimensões, ao ângulo de observação comum.
O primeiro deles é o da madeira ser a matéria prima por excelência, na quase totalidade do domínio da escultura africana. E porque não havia de ser outro o material escolhido?
O segundo é o da grande zona da escultura africana se desenvolver em torno da grande mancha da floresta central ou floresta equatorial. Poderia ter-se desenvolvido em qualquer outro ponto do continente.
É também no terreno da Grande Floresta que residem algumas das maiores escolas de arte da madeira.
Estes factos são, sem dúvida, propícios à tese duma origem de cultura florestal na base da arte da escultura de madeira africana, angolana, no caso presente, e de que vim tratando nestas linhas.
Acontece mais, que a floresta e a árvore foram elementos religiosos e de cultos diversos, por toda a parte e desde remotos tempos.
Porém, independentemente desta divagação breve e a propósito, e recolhendo-a, para terminar, às proporções mais modestas do meio em que instruímos os elementos de estudo aqui expostos, temos como suficientes os exemplos apresentados para assegurarmos, pelo menos, à escultura antropomorfa angolana, uma origem religiosa, a partir do culto do poste verde ou vivo, anímico, préfigurativo, plantado e venerado por muitas tribos de Angola.