Os processos religiosos praticados pelos nativos na invocação e culto aos antepassados, o qual está na base do seu sistema de relação com o sobrenatural, usam em larga escala a implantação de troncos verdes, seja de troncos vivos de árvores religiosas ou veneráveis (1).
O simples facto, por nós algumas vezes observado, do tronco a transplantar ser conduzido processionalmente aos ombros dos veneráveis da povoação, envolto em panos de qualidade ou num manto de soba, já por si adverte o etnógrafo da existência dum significado transcendente, que se traduz em atribuir ao tronco uma categoria de elemento espiritual. Mas o significado vai até ao grau de o considerar como ser vivo, conceito bem firmado na prestação de homenagens e etiquetas privativas da realeza africana.
Também, depois de plantado no local religioso a que se destina, em regra um recinto reservado a invocações e preces, recesso sagrado portanto, o tronco não pode sofrer contusão ou ferida, sem que sofra dor, conforme o presume o rito, e daí o toque ser, acto contínuo, acusado pelo soba ou pelo zelador do lugar de culto, que imediatamente se queixa, no próprio corpo, se acaso presenciar o acidente.
Quer isto dizer que o zelador ou ministro do culto está em plena comunhão espiritual e também física com o tronco anímico. Que sente, em uníssono, com o ser espiritual e material que ele representa. O madeiro e o homem. A seiva e o sangue são elementos dum mundo humano e psíquico uno e comum.
Inversamente se compreende que o tronco está em ligação e comunhão com o homem, seu próximo afim, parente ou zelador.
Que é coisa viva, sensível, por definição humana. Daí tomarmos por significação antropomorfa uma pinha ou cabeçote que usualmente talham no topo superior do tronco evocativo ou consagrado, seja portanto a cabeça do ser espiritual alojado em corpo vivo, que é o próprio madeira implantado no solo, nos termos duma curiosa teologia. Na ponta aguçada do remate cefálico do tronco verde, são imolados animais de sacrifício, para que se renda, receptivo e generoso, o espírito protector que o anima.
Daí, a designação de "poste anímico de significação antropomorfa" que demos a este capítulo e aos esquemas que o instruem, e são conformes aos originais observados entre tribos quimbundas, lunda-quiocas, ganguelas, bundas e outras (figs. 1 e 2).
Figs. 1 e 2 - Poste Anímico de Significação Antropomorfa.
(1) Os chamados Ficus religiosos de que as Mulembas são as espécies mais divulgadas. O Mucumbi e outras árvores são usadas para o mesmo fim.