CANTO PRIMEIRO (65 Estâncias)
Não pretendo cantar lutas gloriosas
Desses antigos reis e outros senhores,
Já gabadas em versos e altas prosas
Por alguns de mais rápidos louvores,
Mas sim aquelas duras, perigosas,
As mais negras, sem fim e sem favores,
Desses aventureiros de espantar
Que venceram as terras e o alto mar!
Olhos ténues do céu azul e distante
Que sois luzes de estranhos universos,
Eis, bem erguida, minha lira sonante
P’ra relatar por estes pobres versos
Quanto labutou o luso navegante
Nestes ocidentais rincões imersos,
Bem longe, nas lonjuras tão profanas
Das seculares costas africanas!
Apenas pra os de triunfos merecidos
E que, de pó, seus feitos silenciosos
Estavam já cobertos ou sumidos
P’la pata de inimigos temerosos,
A eles, de tantas lutas esquecidos,
Louvo a Calíope, para que animosos
Vibrem os seus, em som alto e mais forte
Contrariando os caprichos d’outra sorte!