Entrar domingo, 20 de Maio de 2012
 Canto IX

CANTO IX

A Influência Brasileira

 

Para Vieira chegara a ocasião
De assumir o comando desejado
Tendo tido outra boa governação
Em terras do Brasil com muito agrado.
Aos jesuítas não alegra a nomeação
Pelo que logo fora excomungado;
Julgando-se em Angola superiores
Manobravam sem ter opositores.

 

Massangano recebeu benefícios
Passando a vila por merecimento,
Depois de tanto azar e sacrifícios
Da população em fácil crescimento.
Os ingleses cometem artifícios
Numa grave traição sem fundamento,
Quando Chichorro, calmo, regressava
E em Paraíba porém preso ficava!

 

Doente e com fome tinha falecido
Nem lhe valendo o farto e bom marisco
Pois, pelo mesmo, foi depois comido
Sendo assim muito pior que um outro risco!
Ao sobrado esqueleto, ali esquecido,
De nada servia já o poder ou o fisco
E, nem mesmo o salvando, o Salvador,
Só restando entregar a alma ao Criador!

 

Chegado à capital, Bartolomeu,
Com muitos outros civis e oficiais,
P'lo interior doutras terras irrompeu
Para punir Acayata e outros que tais.
Com forças que o governo forneceu
Mas estando, entre as quais, uns naturais
Guardados pelos próprios servidores
Com suas antigas armas e tambores.

 

Airi logo decide aproveitar
No combate ao difícil adversário
Que surge com vontade p'ra esmagar
O seu inimigo bem mais temerário.
Mas teve de se pôr logo a cavar
Tudo destruindo, num triste cenário!
Numas ilhas se vão então esconder
Perseguidos porém, sempre a correr.

 

Tovar, capitão-mor, fora nomeado
Para salvar o Reino de Benguela
Onde Araújo também era forçado
A expulsar os ingleses e a mistela
Com quem andavam por diverso lado
Traficando os negreiros de Castela;
Alguns foram até logo detidos
Por tantos crimes graves, repetidos.

 

Civis e religiosos decidiram
Atacar locais sem qualquer piedade
Porque os Dembos ali se repartiram
Como sempre fizeram noutra idade.
Azevedo e mais outros prosseguiram
Derrotando alguns chefes numa herdade;
Muitos estavam fracos, quase mortos,
Sem nada de comer, magros e tortos.

 

Tovar, passava a ser governador
Naquele mesmo sítio, sem mudança,
Deixando o seu lugar a outro senhor
Que sempre merecera boa confiança.
Caconda pedia ajuda com temor
Doutros sobas, maldosa vizinhança,
Preferindo a melhor alternativa
Que lhe garantia tanta gente viva.

 

O governador rápido, valente,
Avança p'ra Quicombo derrotando
Tudo quanto lhe surgia pela frente,
Limpando mesmo, sem nada restando!
Mas para sustentar a melhor gente
Logo foram o válido guardando
E assim ficaram com as provisões
Resolvendo suas próprias situações.

 

Porém uns chefes tinham falecido,
O mesmo acontecendo aos seus contrários,
Porque foi muito crime cometido
E sendo ambos amigos e adversários;
Outros com Bengo e Dange mais vencido
Prosseguem o combate em locais vários;
A coberto da noite se acoitavam
E, voltando às suas bases, comerciavam.

 

Alguns, fartos da guerra, protestaram
Dirigindo-se então à nobre Regente
Para, daquelas lutas em que andaram,
Serem logo afastados com sua gente.
O capitão Delgado e outros voltaram
Por Embaca, embora, na sua frente
Encontrasse a prisão para sua ofensa
Mas que ele a retomava em recompensa.

 

Protegidos p'la rainha vêm "descalços"
Instalando-se logo num convento
Para lançarem santos, belos laços,
Que melhorassem tão duro momento.
Mas alguns logo criaram embaraços
Sem mostrarem qualquer constrangimento,
Evitando que abrissem uma Casa
Antes que outro inimigo lhe corte a asa.

 

O Reino do Bailundo foi atacado
Sendo há muito bastante conhecido
Quando Forjaz houvera governado
E pelos lusos fora percorrido;
Para Ambaca Barreto havia chegado
Sendo a capitão-mor bem promovido.
Noutro Reino Kapango comandava
Tropas suas e de Ginga, que o ajudava.

 

No Libolo intervinha "Sapatão"
Contra alguns que assaltavam caravanas,
Mas, com os Sumbes, pior foi essa questão
Porque o limparam em poucas semanas!
Morta a montada, foi parar ao chão,
E virando-se logo de pantanas
Por ser muito pesado, corpulento,
Tornando-se fatal esse momento.

 

Em diversas naus chegam holandeses
Ao conhecido Reino de Benguela,
De repente mudados em ingleses,
Trajando aqueles, pérfida farpela.
Levaram roubos como doutras vezes
Mas incluindo alguns bens de Catumbela.
A fortaleza foi vandalisada
Estando antes bastante degradada.

 

Ginga, tinha mandado como ofertas
Alguns ossos dos seus antepassados
Numas caixas prateadas, logo abertas,
Sendo os metais na igreja aproveitados
E dando-lhe outras luzes, santas, certas,
Em diferentes fins foram usados;
Suas "milungas" também foram mandadas
E as peças com fedor sendo queimadas!

 

Obras novas ali em Vila Vitória
Foram logo iniciadas com fervor
Tornando em inegável a sua glória
Depois de muitos anos com labor.
Carmelitas de válida memória
Aceitam bens do seu governador
Para melhor servirem seu convento,
Desejo principal nesse momento.

 

O Conselho resolve finalmente
Isentar doutras guerras moradores
Porque mantinham tropa suficiente
Para conseguir serem vencedores.
Havendo em Massangano pouca gente
Fazia jeito descansar os senhores,
Cumprindo velho e sábio Regimento
Que acabava com tanto sofrimento.

 

Angola solicita apoio da rainha
Para conceder rápida atenção,
Com a vinda de tropas que não tinha
Resolveria essa triste situação.
Mas há muito que, lá, ainda se mantinha
A nefasta presença da nação,
Que sempre desejara benefícios
Ficando os outros com mais sacrifícios.

Garcia Segundo, rei daquele Congo,
Deixa Nevita Nkanga no lugar
Ao terminar seu tempo, pouco longo,
Não conseguindo a todos agradar.
Mais liberto ficava Ngola Ndongo
Enquanto Dom António ia governar;
Tratou de limpar seu irmão, Dom Afonso,
Com outros mais, pois era muito sonso.

 

O controlo das "moedas" pretendia
Prescindindo a presença de Sequeira
Por não ser branco como gostaria
E agindo, assim, de pérfida maneira.
Prestando vassalagem, mordomia,
Ganhava posição bem mais cimeira
Agradando a Curado, novo deão,
Embora assim ficando na sua mão.

 

Mas a Misericórdia de Massangano
Nem a todos estava a compensar
Devendo ser fechada naquele ano
Pelo que continuava a suscitar.
Logo o governador, feito tirano,
A nova vila tinha de acabar,
Mantendo-se ali apenas militares
E os outros que mudassem p'ra bons ares!

 

P'ro Reino de Benguela colocado
Seguira Jorge Góes, governador,
Enquanto Sotomaior era tirado
De Cambambe com grande dissabor,
Nada valendo o régio poder dado,
Considerado nulo e sem valor;
Soares, havia chegado em sucessão,
Tomando o novo cargo, sem reacção.

 

O Cabido e o governo, com questões,
Não se entediam em vários disparates
Mantendo-se em estranhas situações
Sem nenhuma cedência das suas partes.
Os Barbados também tinham missões
Buscando melhorar suas missas e artes:
Satisfaziam o antigo rei conguês
E o da Matamba, duma única vez.

 

Para tudo faltava algum dinheiro
Que nos impostos podia ser colhido
Estando a venda dos servos primeiro
Pelas tantas cabeças que haviam saído
A favor do negócio brasileiro,
Já de todos bastante conhecido;
Os africanos já não bastariam
Restando Índios, que nem satisfaziam.

 

Afonso Sexto sobe ao luso trono
Muito antes ocupado p'la regência;
Vasconcelos prefere o seu real dono
Achando necessária certa urgência
Com receio de surgir outro abandono
Ou nova indesejável ingerência;
Ficava assim Castelo bem melhor
Com o poder em mãos do seu senhor!

 

Para Lisboa seguira Salvador
Onde seria sujeito a julgamento;
Depois de ter vivido com amor
Só restava da glória o pensamento.
O Congo reclamava p'ro Ouvidor,
Antes que caísse em novo esquecimento,
A posse da Ilha com a sua colheita
Dos nzimbos que ninguém ali rejeita.

 

Nova provisão régia concedera
Direito citadino aos residentes
Em S. Paulo, que rápido crescera,
Com os apoios de muitos novos crentes.
Em Lisboa Salvador emudecera
Sendo sujeito a males diferentes:
Fora para um degredo condenado
Nas terras onde tanto tinha amado!

 

Uma outra armada, forte, poderosa,
De Espanha avança rápida, temente,
Sobre Angola, danada, desastrosa,
Nada surgindo para fazer frente.
Um capitão porém, com fé manhosa,
Reunira sua melhor e forte gente
Preparando-a com válida instrução
Ao ponto de lhe deitar a sua mão.

 

Desaparecem logo os atacantes
Preferindo os escravos doutro lado;
Já não seria um negócio como dantes
Quando tivera tudo controlado
O inimigo (da terra de Cervantes).
Voltam outros ao ataque renovado
Pretendendo tomar principais portos
Donde depressa saíram quase mortos.

 

Cahenda apela por melhor ajuda
Contra o soba Francisco e uns revoltados
Que o pretendiam limpar de forma muda,
Com outros tenebrosos coligados
Depois de, por velhice ou doença aguda,
Se finar a rainha Ginga, noutros lados,
Em companhia de vários capuchinhos
Que a acompanharam em santos caminhos.

 

Minas de cobre em Canda reencontradas
Entraram nessa altura em conversão
Protegidas p'lo forte, bem guardadas,
Não agradando aos do Congo a solução.
Com numerosas tropas preparadas
Atacam sem qualquer hesitação,
Mas o Reino de Angola combatiam
Pelas muitas discórdias que cresciam.

 

33) (104)
Luís Sequeira subia a capitão-mor
De todo território conturbado
Enquanto falecia o chefe maior
Que no Ndongo tivera superado.
Sucedera Dom João, filho menor,
Tendo uma desleal guerra declarado,
Sem respeitar o acordo que fizera
Com o governo, que isso pretendera.

 

34) (105)
Morales e Macedo apoiam Cahenda
Com bastantes homens, armas, munições,
Constituindo uma força bem tremenda,
Resolveram findar essas questões.
Canzele foi a primeira e melhor tenda
Seguindo por Cambambe e outras regiões
Onde recebem mais equipamentos
Com homens, bois-cavalos e jumentos!

 

35) (106)
E, noutro Reino, Bárbara foi eleita
Sendo Amona marido bem violento
Capaz de aplicar uma boa maleita
A Dom Zobbotes sem restringimento,
Ficando de cabeça bem desfeita
Em companhia do seu outro regimento.
Amona, por Carrasco foi sabido,

Tantos os crimes em que havia interferido!

 

36) (107)
Trocara damas por armas, bebidas,
Para compensar gastos funerários
Da rainha e doutras servas falecidas,
Pagos pelos seus próprios honorários.
Tentara pelas formas conhecidas
Eliminar Cavazzi e funcionários
Usando os sumos bentos e outros tais
Sendo apenas pecados naturais.

 

37) (108)
Morales atravessara alguns rios

Arrasando cubatas despovoadas
Contra vontade e sem seus compadrios
Enquanto os sobas com grandes manadas
Se concertavam nuns tantos desvarios
Deixando as tropas muito baralhadas;
Alguns outros se foram afogando
E em eterno esquecimento ficando!

 

38) (109)
Dom António, olvidando suas promessas,
Preferia conservar minas de prata;
Ataca o seu vassalo com as peças
Logo fugindo a caminho duma mata
Em busca de socorro, em muitas pressas
E escolhe o luso nessa negociata.
Segue Sequeira p'ra sua protecção
Recebendo por troca um bom quinhão.

 

39) (110)
No entanto o rei de Ambuíla reclamava
Pedindo vassalagem apressado,
Contra o do Congo pelo que o maçava
Estando com alguns outros aliado.
Uma entidade régia publicava
Disposições que o povo havia sonhado
Podendo atingir cargos proibitivos
Quer p'los europeus quer pelos nativos.

 

40) (111)
Rosa, capitão, fora em nova viagem
P'ra terras do Cunene misterioso,
Tentando descobrir a sua paragem
Escondida por vezes no arenoso
Solo do Namib, terra de miragem,
Tormento do viajante mais sequioso,
Desafiando diversos caminhantes
Em antigas jornadas escaldantes!

 

41) (112)
E outros rios pretendiam encaminhar,
Enviando dali p'ra sua capital,
Pois o antigo não estava a resultar
Nem sendo achado como o principal.
O Senado outra acção havia de tomar
Proibindo ao comerciante o habitual
E nefasto negócio com escravos
Como se tratando uns animais bravos!

 

42) (113)
A ermida Nazaré, ali sem demanda,
Completava a promessa antes tomada
Com coragem de quem dirige e manda,
Em vez duma anterior, fortificada,
Ficando com melhor segura banda.
Colbert forma uma nova, forte armada,
Mais alargando o tráfico e a ousadia
Baseada numa falsa Companhia.

 

43) (114)
Rosa regressa ao sul tentando achar
O que diversos há tanto buscavam:
Onde se iriam tais águas repousar
Escondidas em areias que escaldavam?!
Continuava um mistério a decifrar
Entre miragens que os maravilhavam
Chegando ao Negro Cabo, num caminho,
Quando buscavam outro melhor ninho.

 

44) (115)
Ali descobrem velhas inscrições
Que Menezes da Cunha então deixara,
Lidas por Cadornega em suas lições,
O que mesmo alguns sábios espantara!
Talvez tivessem outras ligações
Ou um destino que a muitos intrigara,
Podendo mesmo serem a passagem
Que ligasse ao Zambeze em curta viagem!

 

45) (116)
Decidira a reunião dos militares
Luta do rei d' Angola com o Congo
Saída duma questão entre familiares;
Sem esquecer o cobre, sonho longo,
Turvara logo seus límpidos ares
Atingindo ainda terras desse Songo.
Neste modo prolongam a disputa
Que os mantinha em constante e triste luta.

 

46) (117)
Regressa Sotomaior inocentado
Com o capitão-mor, Fiel Pagador,
Nas terras de Cambambe colocado
Para quando vagasse tal labor.
Sequeira, pouco cobre havia encontrado
Em vez da prata, grande dissabor;
Prossegue, com desgosto dos reinantes,
Solicitando o acesso dos funantes.

 

47) (118)
Dom António, juntava tropas leais,
Declarando sua guerra no Calvário
Enquanto um capitão com os demais
Continuaram para Oando, qual santuário,
Sem completar as acções nesses locais;
Terminava assim seu triste fadário
Enquanto Luís Sequeira ressurgia
Pleno das forças que precisaria:

 

48) (119)
Subindo o Cuanza chega a Massangano
Onde colheram muitas das desgraças;
Em Quicequili então, sem tanto dano,
Recebem " guerra preta ", santas graças,
Com sobas, reforçando o anterior plano
Enquanto o poder régio, sem ameaças,
Tentava alcançar paz entre reinantes
E restaurar o ambiente que havia dantes.

 

49) (120)
Para um novo governo, Tristão Cunha
Fora o nomeado como solução
E o Senado da Câmara propunha
Melhorias p'ra S.Paulo de Assunção:
- Ver reduzido o encargo que se opunha
Ao cumprimento duma obrigação
Que dum custoso dote resultara
Sendo a Holanda quem mais beneficiara!

 

50) (121)
Sequeira, sobe o Zenza, cauteloso,
Sendo informado quanto aos adversários
Reunidos num exército grandioso,
Composto de inimigos temerários
E ocupa as minas dum metal valioso
Cortando as pretensões dalguns e vários,
Conforme um combinado noutra altura
Sem possuir a devida compostura.

 

51) (122)
Atravessam os rios ali vizinhos
Observando no Loge os movimentos
E tomam posições e os bons caminhos
Contra os inevitáveis elementos!
E nas terras de Ambuíla, bem sozinhos,
Travam lutas danadas, sempre atentos
Às manobras das partes em conflito
Sem saber qual seria o mais expedito.

 

52) (123)
Dum alto, Dom António, sobranceiro,
Menosprezava os poucos oponentes,
Enviando fracas forças em primeiro
Cuidando serem mais que suficientes.
Não resultando tal plano altaneiro
Avança destemido com mais gentes
Com cortadeira em punho, corajoso,
Sem evitar ser o alvo apetitoso!

 

53) (124)
Foi uma luta tremenda, temerária,
Não obstante os efectivos em confronto,
Mudando o resultado em forma vária
Sem se adivinhar quem ficaria pronto .
Mas, um quilamba em forma bem primária,
Com u'a forte golpada, como um tonto,
Esse valioso chefe havia abatido
Ficando o corpo real no chão estendido!

 

54) (125)
Todavia foi a seguir recuperado
Por diversos soldados cuidadosos,
Apesar de se achar decapitado,
Que essas eram as ordens dos idosos.
Sua cabeça tratada com cuidado
E a coroa de diamantes mui valiosos,
Foram, como troféus, bem protegidos
E enviados com veludos envolvidos.

 

55) (126)
Recebidos com pompa, honras e banda
Foram p'ra Nazaré na procissão

Com o governador, que em tudo manda,
Por estar ali entre a fé e em adoração
Com a gente serena e veneranda,
Como sendo pertença da nação;
Ficava ainda lembrado um papa antigo
Pela coroa que usou sempre consigo.

 

56) (127)
Não fora nenhum santo em toda a vida
Eliminando a própria mulher, rainha,
Sendo pelo rio abaixo remetida
Numa arca bem fechada como pinha!
Na batalha a família foi detida
Ou eliminada como mais convinha,
O mesmo aconteceu com seus ministros
Uns com nomes pomposos ou sinistros.

 

57) (128)
Sucedeu Álvaro Sétimo, guerreiro,
Entrando logo nessa actividade
Onde antes Dom António foi o primeiro
Sem o apoio do Sonho a essa mortandade.
Botelho reprime um acto traiçoeiro,
Contra alguns fugitivos sem piedade,
Que Aquigengo tivera cometido
E do que recebera esse castigo!

 

58 (129)
Kibinda, rei primeiro, chega à Lunda,
Uma terra antes muito abandonada;
Naquela zona inóspita, profunda,
Sua nova geração surgia do nada,
Mas sendo a actividade mais fecunda
O abate de portentosa manada.
Cazembe era o seu chefe, imperador
Do imenso Reino e o único senhor!

 

59) (130)
A rainha Dona Bárbara morrera
Deixando Ginga Amona no poder,
Sendo Carrasco, tudo estremecera,
Com receio doutro mal acontecer!
A uns falantes depressa emudecera
Mas o mesmo lhe podia suceder.
Deseja todo o Reino a velha paz
Que a tanta guerra só desgraças faz!

 

60) (131)
Para Benguela chega Gomes Raia
Com Almeida, capitão-mor de Angola;
Funda a vila de Dande, junto à praia,
Onde Santa Ana teria a justa escola.
Couto, mestiço, doente, perde a saia
Na marcha funesta e em trágica padiola.
Superior no Colégio foi sagrado
E o Cabido também mais respeitado.

 

61) (132)
Na altura de Tristão vir governar,
Passara por Benguela constrangido,
Ali encontrando o chão desolador
Por um ataque que havia acontecido.
Tinha planos a cumprir com rigor
Terminando com o abuso conhecido
De utilizar trabalho obrigatório
Sem respeitar costume migratório.

 

62) (133)
Nem esquecendo os fortes degradados
Mandou construir uns outros, resistentes,
Guarnecidos de válidos soldados,
Sem ter com que os pagar nem a outras gentes.
Amotinam-se vários revoltados
Contra o governador, mais descontentes
Pela falta dos soldos e outros males
Sem direitos a créditos por vales.

 

63) (134)
Recolheram os tropas, concentrados
Com a população na fortaleza,
Seguindo depois bem mais apressados
P'ra Santo Amaro, tendo ali a certeza
De escaparem da fúria dos danados,
Ganhando uma melhor acção e firmeza
Entre os mais altos cargos escondidos
E estando seus lugares bem tremidos.

 

64) (135)
Mas Tristão, com diversos responsáveis,
Mudam para uma nau que os aguardava
Com rumo a outras paragens agradáveis,
Que de tristezas tinham que bastava!
Sotomaior, com perdão dalguns notáveis,
O cobiçado cargo retomava
Até que do Senado decidissem
E por outro, porém, o substituíssem.

 

65) (136)
Os soldados então ditam a sorte
Pensando ser a que melhor julgavam:
Decidem não lhes dar sofrida morte
Desembarcando os que menos pecavam.
Assim seus Pares tomam outro norte,
Todos aguardando entre os que ficavam,
Com oficiais e civis se juntando
Por acharem mais forte o seu comando:

66) (137)
Capitão - general se designara,
Que nunca sucedeu noutra ocasião,
E assim esse Senado governara
Enquanto amotinados em evasão
Escapavam da tropa que os cercara.
Mas no Brasil tiveram pouca acção
Sendo todos detidos de imediato
Para não perturbarem outro facto.

 

67) (138)
Decidem negociar com holandeses
Os encargos da paz e o dote real
Por ser muito difícil certas vezes
Satisfazer ao dito cabedal.
Com uns "baculamentos" portugueses
Se reunia o necessário capital
Para manter a tropa a funcionar,
Como alguns faziam antes sem custar.

 

68) (139)
No Congo deu-se grande divisão
Surgindo novos reinos concorrentes,
Complicando ainda mais a confusão
Entre os diversos chefes oponentes,
Aos quais Álvaro Oitavo dava a mão
Com o acesso de minas suficientes
Aos diversos fidalgos instalados
Com suas cortes em vários dos povoados.

 

69) (140)
O capitão-mor Soares, avançava
Contra Ambaca, sobado rebelado,
Com Cabanga, fugido, que o aguardava
Preferindo ficar daquele lado!
Macedo, embaixador, ali chegava
Sendo acolhido com bastante agrado,
Numa solene sala decorada
Com sedas, ouro e bem alcatifada .

 

70) (141)
Távora, recebera sua patente
Prometendo em Angola governar
Quando não tivesse algum na sua frente;
Mas Furtado tomava outro lugar
No Reino de Benguela, diferente,
E sem ter tido tempo p'ra aguardar.
O Senado da Câmara mudava
E um novo chefe já ali governava.

 

71) (142)
Na Matamba Gutteres sucedera
A Amona, por Carrasco conhecido,
E que, depois do que lhe acontecera,
P'ra salvadora mata havia fugido .
O outro capitão-mor permanecera
Com uns oficiais, tendo preferido
Manterem a ordem entre os comerciantes
E os que ali residiam todos muito antes!

 

72) (143)
Mas, no Congo, o Colégio foi assaltado
Sendo depois daí logo transferido
Deixado p'lo jesuíta abandonado
Terminando o seu tempo ali perdido.
Com tanto assunto assim mal orientado
Fugira todo o povo espavorido.
Rafael chegara ao trono em abandono
De que o do Sonho queria ser o dono!

(....)


    
Canto I Canto II Canto III Canto IV Canto V Canto VI Canto VII Canto VIII Canto IX Canto XI
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