CANTO VIII
A Restauração dos Reinos
Para esse mesmo Reino de Benguela
Foi então nomeado Gomes de Gouveia
Enquanto outros de sua douta tutela
Fugiram da terrível alcateia.
Muita gente, com boa e melhor farpela
Seguia a santa, de flores toda cheia,
Sendo o colégio antigo recompensado
Porque junto ao palácio era situado.
Assim caminham para a fortaleza
Com uns santos e santas resguardados,
Sendo sua fé mostrada com firmeza
Entre tantos fiéis e alguns soldados.
Não causara nenhuma outra estranheza
O que logo surgira noutros lados
Já festejando com muita alegria
O fim do sofrimento e vilania.
Outros, enviados à Vila Vitória,
Informavam da nova situação,
Retirando da lusa e boa memória
Tanta desgraça e total desolação.
Mandara recolher, sem mais história,
Todos que se mantinham p'lo sertão
Sendo bem mais segura a capital
Antes que lhes surgisse novo mal.
Novas bases tomaria o Salvador,
Já nos seus altos cargos empossado,
Enquanto Vasconcelos , o anterior,
De regresso seria logo embarcado
Sem ter havido qualquer dissabor
E estando sempre o povo ali assustado.
Assim, dois navios seguem p'ra Benguela
Onde muitos andavam sem a trela!
E ainda o tentaram noutra velha posse
Onde antes havia bom entendimento
Carecendo de um novo e mais precoce
Para completar o seu Regimento.
A grande rainha sem qualquer endosse
Não deveria ficar no esquecimento,
Sendo valiosos seus povos e terras
Desejadas em muitas dessas guerras.
Segue lesto Pegado da Ponte
Com carta e muitos, bons, caros presentes,
Porque era sempre sábia a melhor fronte
Que adoçava mais bocas de suas gentes.
Regressando os que andavam pelo monte,
Reforçaram as velhas, fracas frentes,
Cuidando de possíveis investidas
Com origens quiçá desconhecidas.
P'ra Benguela seguira Frei Barriga
E para o Reino do Uando os capuchinhos;
Inocêncio compensa essa fadiga
Aos religiosos dos santos caminhos
E, nem havendo queixa nem intriga,
Concede-lhes medalhas, pergaminhos,
Sempre bem recebidos na labuta
Tanto em calma paz ou depois da luta.
Bulhão passa a dirigir o castelo
Recuperado aos saídos luteranos;
De Benguela resolveram mantê-lo
Enviando dois ilustres lusitanos
Para combater malvado flagelo
Duns tantos, sempre pérfidos fulanos;
Os naturais ajudam essa gente
Porque parecia ser o mais prudente!
Diversos sobas foram perseguidos
Fugindo p'ra umas ilhas protectoras
Onde julgam estar bem protegidos
Por entre umas espécies flutuadoras;
O artifício não salvou esses vencidos
Atacados durante algumas horas;
Estavam só com junco alimentados
Sem mais nenhuns produtos ali nados.
Novo capitão-mor chega à Muxima
Na intenção da defesa do povoado
Sendo elemento duma grande estima
E dessas causas já muito habituado.
O de S. Tomé igualmente se anima
E logo o Salvador o havia salvado,
Fazendo o mesmo ao Reino de Benguela,
Protegido p'lo rio de Catumbela.
Falecera ali Dom Manuel Pereira,
Depressa substituído por Gouveia
Já antes nomeado para aquela feira
Sempre dita de baía, bem farta e cheia;
Parecia ser a sólida maneira
De impedir o regresso da alcateia
Sendo seus frutos tanto desejados
Por quem não quer trabalhos redobrados.
São Paulo, o município, em sua cimeira,
Altera a moeda fácil e corrente
Esquecendo a razão real e primeira
De manter a que estava ainda vigente;
Assim continua a folha de palmeira,
Ou de " palha ", para a sua pobre gente
Como outra dos libongos, sendo ditos,
Mais as "macutas" p’ros mais pequenitos.
Em Cahenha surge uma outra missão,
Que Salvador mandara reinstalar
Cuidando da rival navegação
Mas, que pelo Cuanza havia de passar.
Do Congo veio pomposa comissão
Para uma nova paz entabular,
Sendo mesmo obrigado a conceder
O ouro das minas que havia de perder.
Para ali segue Paiva Severim
Com uma aparatosa, alta embaixada,
Não sendo capitão-mor até ao fim
Porque sua vida caíra destroçada;
Gutterres seria o novo alvo, o delfim,
P'ra comandar aquela sua empreitada,
Mas nem sempre o desejo vence e alcança
O que parece ter mais segurança!
Salvador nomeia um certo familiar
Para lugar de toda a sua certeza
Pois mais vale antes bem acautelar
Do que remediar tarde, sem firmeza;
Mas o governo apresta-se p'ra enviar
Alguma gente, de alta e boa presteza,
Chefiada por um sábio, almirante,
Com a figura e o nome bem sonante!
Salvador desejava uma mudança
(a Sé do velho Congo sem demanda)
No entanto não foi aceite a dita andança
Por quem muito mais pode e melhor manda!
Os Índios alcançavam segurança
Mais se livrando por sagrada banda
Da feia e triste, pesada servidão,
Que ainda afectava os de tanta região.
E Gomes Gouveia fora substituído
Por Nandim no governo de Benguela,
Nem o dito lugar havia aquecido
Nessa tão desejada cidadela.
Regressa o povo, no interior fugido,
Vendo ao lume uma válida panela,
Amparada por tantos militares
Que tornavam pacíficos seus ares.
A sua mudança fora então proposta
P'ra Catumbela, com melhor aguada,
Onde a população era bem disposta
E na sua segurança mais confiada.
O alto Conselho devia dar resposta
À melindrosa causa, tão complicada
Em questão mais difícil de solver,
Havendo quem tivesse outro entender.
Para capital mudam-se os capuchinhos,
Transferidos dum feudo no interior,
Preferindo também novos caminhos
Sem tantas faltas, tanto dissabor!
Instalaram-se, tendo por vizinhos
As personagens altas e o Senhor;
Outros estavam numa igreja e ermida
Talvez com um bom tecto e boa comida.
Pelo seu lado tinham mais amigos
Satisfeitos com tão nova presença,
Já bem fartos de tantos inimigos
E doutros sempre prontos à sentença.
Era bom ter a influência dos antigos
Dispostos a uma pronta benquerença
No meio de alguns perigos, confusões,
Que bastante atormentam corações.
A alguns senhores foram desculpados
Os pesados impostos ou tributos,
Já lhes bastando os mal encaminhados
Por vezes desumanos, talvez brutos!
Mas, no seu caso, haviam sido vigiados
Por homens preparados, bem astutos,
Como João Morais, um sargento-mor,
Nomeado com confiança dum mentor.
Renitente, o inimigo volta ao Pinda,
Para tentar negócios com suas gentes,
Sem se dar por contente, mas porque ainda
Havia tantas manobras em suas mentes!
Não ficando a missão completa e finda
Seguem dois navios logo diligentes
E, comandados por Aguiar Osório,
Coloca-os em silencioso velório.
Mas, tempos depois foram libertados,
Regressando aos seus mais velhos negócios;
Sem vergonha por serem castigados
Preferiram cuidar dos ditos ócios.
Os vícios e os maus hábitos firmados
Superam as suas forças e dos sócios
Não deixando vencer tais inimigos
Quando seus males eram muito antigos.
Para capitão-mor dessa Benguela
Foi nomeado Gregório, altaneiro;
Mas, entretanto em São Paulo, a tal tutela
Era assumida por outro Ribeiro.
Salvador teve válida parcela
Por ser em muitas causas o primeiro:
- A parte da Quitanda mais Pequena
Sendo muito melhor e bem serena.
P'ra esse outro Reino veio Lemos Landim
Que era na altura o seu governador;
Njimbo espreitava atento entre o capim
Não estando ainda bem certo do valor.
Depois chegava Aguiar p'ra lhe dar fim
Estando reforçado e sem temor;
Pouco valia tamanha fé e bravura
Porque a vida mais fácil pouco dura.
Avançara Gusmão bem destemido
E, com valiosas forças compensado,
Teria bastantes mais tropas vencido
Se não tivessem saído p'ra outro lado
Em busca dum Presídio conhecido.
Cadornega, a seguir fora nomeado
Para vigiar o rio mui caudaloso,
Sendo nessa região mais perigoso.
Um novo chefe teria de embarcar
Para o controle desses territórios
Numa boa altura p'ra desanuviar
De alguns oportunistas e finórios,
Que bastantes prejuízos iam causar
Não pagando nem sisa ou sucessório.
O Conselho não cede a protecções
E anula familiares nomeações.
Tendo surgido a dúvida em Benguela
Sobre aquela pretendida mudança,
Porque outros preferiam mais Catumbela,
Pede opinião da central liderança.
Abreu Salema veste sua farpela
E emenda, com rigor e boa confiança,
As faltas da anterior lusa presença
Sem qualquer receio nem fraca sentença.
Morales conseguira controlar
As tropas aguerridas, desenfreadas,
Nunca temendo tudo ali incendiar
E furtando as alheias, grandes manadas!
Foi então Moura p'ra seu farto lugar
Mas sem lucrar melhorias ou jogadas,
Regressando ao seu ponto de partida
Com pouca gente morta ou mais ferida.
Reduzindo as hipóteses locais
Nem podiam umas éguas ali arrear,
Assim restando aos pobres naturais
Suas enfezadas pernas p'ra lutar.
E, dirigindo os negros e os demais,
Outro Bartolomeu estava a chegar;
Restava uma nova igreja erigir
Mas sem ter nenhum padre p'ra a suprir.
As tropas avançam p'ra Massangano
Com alguns capitães e seus sargentos
Apoiados por um ilustre fulano
E agentes dos presídios sem proventos.
Ambuíla, seria o objectivo desse ano,
Com os muitos feridos e sangrentos
Nem escapando o chefe resoluto
Num certo morro muito alto, feio e bruto.
Outro sargento-mor ali o cercara
Aguardando p'la pronta rendição,
Certas baixas, porém, logo somara
Pois em Ambuíla já faltava o pão.
Uma ordem superior o libertara
Dessa bem apertada situação
Contra a vontade dalguns seus sobados
Que por ali mantinham uns soldados.
Mas livre desse aperto tão danado
Regressa o libertado à confusão,
Não deixando passar para o outro lado
Um qualquer comerciante da região.
Morais chega de Ambaca, apressado,
Tentando estancar essa rebelião
E, atingindo o rio Dande num instante,
Afugentara Ambuíla p'ra distante!
Mas, aceitando então preciosa paz,
Regressara com toda a boa vontade;
Trazia bastantes chefes vindo atrás
Acreditando em vã, santa lealdade!
Na verdade essa nem sempre se faz:
Todas as promessas perdem validade
Sendo muito mais fácil apagar
Os que pretendem outros perturbar.
Uns estranhos ao Cabo chegaram
Duma forma bastante duvidosa,
Local que antes os lusos baptizaram
Na Esperança da vida vantajosa!
Nisso melhores trânsitos tomaram
Em situação segura, mais rendosa,
Assim vindo das partes orientais
Produtos diferentes dos locais.
Bastante mais, porém, todos queriam,
Avançando melhor para o interior
A caminho dos rios (nem os conheciam)
Na esperança dum lucro ainda maior!
Fonte comum, a vários atribuíam,
E, mesmo sem saber com pormenor,
O destino das largas, turvas águas,
Aumentavam bem mais suas tristes mágoas.
Então Garcia Segundo agradecera
O trato com o chefe luso feito,
Concedendo-lhe a paz que merecera
Com o apoio de alguns padres sem defeito.
Uma recente igreja ali nascera,
De que muitos tiravam seu proveito,
Mas para os santos ainda havia bastantes
Contrariando direitos dos funantes.
O Salvador derrota alguns no Pinda
Vindos em perigosas, fortes naus,
Porque muitos desejos tinham ainda
Sem respeitar, quer fossem bons ou maus.
Avançam, com ganância nunca finda,
P'ra recuperar com armas e paus
Nas mãos dos locais que eles manobravam
Entre as promessas com que os enganavam.
Nas sombras dessa noite se esconderam
A caminho do Reino de Benguela
Onde outros desacatos cometeram
Chegando às bandas dessa Catumbela.
Ali os lusos depressa os combateram
Escapando uns apenas co'a farpela!
Nessa luta João Duque falecia
Enquanto a lusa calma renascia.
Ndongo, chefe, visita a capital
Em homenagens ao governador,
Tendo como objectivo principal
Obter santo remédio para a dor
Sem esquecer porém o material
Que lhe faltava para ser senhor,
Tendo também seus próprios inimigos,
Porque nem sempre todos eram amigos.
Massangano recebe outro sargento
P'lo poder muito bem apadrinhado,
Oferta concedida em casamento
Que pouco antes se tinha realizado.
Mas Salvador termina o seu momento
No alto cargo em que havia sido nomeado
E regressa ao que com amor fizera;
Miranda assume o que lhe pertencera.
Com duas naus e uns navios, chega em demanda,
Recheados de umas armas, munições,
Manobrados por quem sabe e comanda
Como o fizera já noutras regiões
Não obstante a viagem pô-lo de certa banda,
Baralhando mesmo algumas acções!
André Gomes seguira p'ra Benguela
Apoiando os sobas dessa cidadela.
Segue um oficial p'ra Massangano
Fundando uma missão e o seu dormitório;
Completam outras obras durante o ano,
Apesar da epidemia e alto velório,
E no Reino de um outro soberano
Velhas igrejas tinham fim notório.
Vetralla chega até São Salvador
Tendo com honras vário destemor.
Holandeses voltavam a atacar
Mas Araújo, enérgico acudia,
Pondo-os dali depressa a debandar
Vendo tanta coragem, valentia.
A capital mandou fortificar
P'ra qualquer outra guerra que surgia
Sem esquecer as terras do interior
Onde uns sobas impunham seu terror.
Roboredo, mestiço, foi ordenado
(recebeu o nome dessa capital
E era do soberano aparentado)
Talvez fosse uma forma acidental!
Massangano acolhera o indigitado
P'ro lugar de Rebelo, seu rival,
Que não aquecera muito esse lugar
Onde nem todos sabem agradar!
Miranda, mui estonteado, se apagava
Enquanto Henrique, válido sobrinho,
Em gostosos negócios se arranjava
Com ranchos, que levavam descaminho
À sombra de Saldanha que os apoiava
Dando tachos a todo bom vizinho,
Trocando alguns escravos por jumentos
Ou dinheiros de ibéricos sedentos.
E Bartolomeu foi a seguir nomeado
Em vez de Bento, o velho transgressor,
Que noutro tempo estava aprisionado
Com Menezes, servindo de fiador!
Sucedia ao familiar que havia finado
Entre muita tortura e muita dor.
Songos alinham como lhes convinha
Preferindo entretanto a velha rainha.
Seguira Morais com nova intenção
De averiguar o que se preparara;
Convocando alguns sobas à reunião
Lembrava quanta ajuda dispensara
O governo da lusa, fiel nação,
Enquanto outro, porém, os enganara;
Calandula prefere não cumprir
E, todo lesto, tratou de fugir.
O capitão não perde essa vantagem
P'ra atacar o quilombo utilizado;
Prendeu o soba Cabuco e sua linhagem
Que estava p'la mulher bem resguardado!
Mas, precisando de uma nova aragem,
Fora para o Brasil logo embarcado;
Chichorro, novo chefe, foi o escolhido,
Por alguma razão o havia merecido.
João Sexto decidira libertar
Os escravos no Dongo aprisionados,
Nem havendo motivos que alegar
P'ra os cativos estarem amarrados.
Assim, melhor política havia a dar
Sendo os lusos também os mais humanos;
Já bastava de tantas injustiças,
De tantas gentes sempre metediças!
Azevedo chegara até Benguela
Seguindo Vasconcelos p'ro interior
Para manter melhor a cidadela,
Sem o considerar um seu inferior.
O Conselho condena u'a tal mistela
Utilizando escravos de favor,
Fazendo-o terminar conforme a lei
Que devia beneficiar toda a grei.
Mas Vieira fora já o mais preferido
Para suceder num cargo ocupado
Depois de outro, também mais protegido,
Esperando ambos por esse legado.
Outro melhor negócio fora obtido,
Depois da escrita dum novo Tratado,
P'ra que em paz os ingleses negociassem
Pelos distantes mares, que ocupassem.
Chegavam outras duas naus espanholas
Carregados de ricas mercadorias
E, trocando os escravos por pistolas,
Sobravam cada vez mais terras bravias!
Outros, preferiam dar a bebedolas
Uns vinhos de Sevilha e fantasias,
Trocando-os por seus corpos enfezados
Como outrora fizeram noutros lados.
Mas, no entanto, o Conselho, por sua banda,
Concordava com novas soluções
Impondo como lei de quem comanda
Um renovado tráfico em nações
E, Chichorro, chegado, logo manda
Tentar ampliar antigas posições.
Ginga, interessada, deixou ofertas
Para Bárbara ter portas abertas.
C'o a centena de escravos que entregara
Buscava compensar o prometido
Há muito, mas que sempre lhe falhara,
E desse modo o tinha conseguido
Deste alto mandatário que aceitara
P'los dois proveitos tinha recebido:
Pretendia instalar forças militares
Onde fosse mais útil observar.
Regressara guardada essa princesa
Na busca de melhores provimentos
Sendo todos tratados com firmeza
Porque bastava já de sofrimentos;
Tudo ficara com grande certeza
Eliminando os piores elementos:
Com os Fortes, presídios, arranjados,
Ficavam desse modo melhorados.
Nova escolha premiava então Negreiros
Conforme lista há muito assinada;
Aguardaria, nem sendo um dos primeiros,
E estando um outro tal sem fazer nada!
Mais capuchinhos com novos parceiros
Duma missão bastante retardada,
Para a velha Matamba se encaminham
Onde regalias por certo não tinham.
A Vetralla sucedeu Serafim
Que por si a missão nova chefiaria
Com aquele sem ter chegado ao fim,
O que em diversos casos sucedia.
Bárbara voltara nesse interím
Sendo acolhida com muita alegria;
Por certo tanta fé iria suscitar
Nesse distante e bem triste lugar!
O Senado da Câmara quisera
A mudança da Sé p'ra capital
E tal pedido, ao Reino, se fizera
Mas estando escolhido um seu local.
O governo também intercedera
Junto daquele tal poder central,
Não se esquecendo até as novas culturas
E com as necessárias coberturas.
Pegado foi escolhido para a guerra
Contra o chefe Quissama revoltado,
Marchando bem depressa nessa terra
E com bastante tropa acompanhado;
Nem sempre um poder só todos encerra
Buscando ajuda dum outro reinado;
Fogem logo os vencidos p'ra floresta
Onde um outro perigo tanto infesta.
Muitos barcos dos lusos os apoiavam
Pelo rio Cuanza já todos subindo,
Depressa as suas cubatas incendiavam
E nelas muitas gentes sucumbindo.
Assim, sobas diversos terminavam
Mas entre mortos os vivos iam fugindo
Sem cuidar de algum sólido destino
Que findasse c'o aquele desatino.
Um novo capitão tinha surgido
Contra Langi que, rápido, escapara.
Noutro Reino Lucena havia morrido
E o presídio destruído ali ficara.
Muitos soldados tinha protegido
E muita gente sempre se salvara,
Andando alguns distantes, sem caminho,
Buscando em luta vã o seu triste ninho.
Cambari não descansa, poderoso
Enfrenta o grande exército reunido
Mas cada qual estava desejoso
De ocupar as cacimbas e o líquido
P'ra diverso animal muito sequioso,
Tanto homem quase já morto ou ferido!
Como o ar estava tórrido, queimando,
Ambas forças se estavam esgotando!
Morales ordenava a retirada
Para Aquitumba, mais recompensados,
Fazendo por Quiambala uma sua aguada
E aproveitava bens dos retirados.
Seguem para Catala sem mais nada
Onde o soba, assustado co's soldados,
Pronta ajuda oferece em segurança
Que recebia com essa forte aliança.
Com os apoios dos novos companheiros
Vão vencendo diversos inimigos;
Ficando, uns e outros desses, mais primeiros
Lucrava Ndongo com esses amigos.
Em Casalla porém, pouco certeiros,
Sofreram muitas baixas duns antigos
Causadas pela doença e muita idade,
Sobrando os de melhor fé e mocidade.
Benguela recebera um capitão
No lugar de Gouveia, governador,
Ainda sem a mudança de região
Pendente desde um outro antecessor;
Nesse e num outro caso a solução
Dependia mais de um novo e alto valor
Nada valendo já os muitos pedidos
Sendo os valores bem reconhecidos.
Cambambe recebera Sotomaior
Já nomeado também noutra função
Que exercia como grande pagador
Sem colocar seus cargos em questão.
Era assim respeitado com temor
E sendo essa a melhor compensação.
Entre amigos mais forte ficaria
Resolvendo com fácil primazia.
Logo regressa à base principal
Estando no horizonte outras ameaças
Dalgum antigo e pérfido rival
Que, decerto, não estava para graças,
Causando grandes males sem igual
Servindo-se de rápidas trapaças
Destruíram alguns fortes e presídios
Sem deixar ao inimigo uns subsídios.
O Congo estava a cair com desagrados
Desafiando os poderes constituídos
Que reunira diversos potentados
Reformando os exércitos unidos.
Voltam a Massangano reforçados
Onde os congueses bem arrependidos
Prometem boa política fazer
E aos noviços impor o seu mister.
No reino da Matamba a rainha aceita
Negociar ampla paz com portugueses,
Não lucrando continuar mais sujeita
Aos seus problemas e aos dos congoleses,
Ficando com sua fé mais satisfeita
Como fora também diversas vezes.
Outro Novais em sua capitania
Renovara a que a Paulo pertencia.
Afonso sexto nada governava
Passando o seu poder para a regência,
Assumida com fé sempre agradava
Usando demonstrada e real sapiência.
Diversas penitentes destinavam,
Para em Angola darem assistência,
Mesmo, com uns colonos se casando
E que estavam até necessitando.