Entrar domingo, 20 de Maio de 2012
 Carta à Natureza

Sentado esqueço o tempo. À beira de água
Deixo correr absorto o pensamento
E sinto dissolver-se a minha mágoa
No líquido fluindo leve e lento.

Gosto de ver os longes da montanha
No céu esfumados em neblina azul
E o vir da aurora a desfazer o tule
Negro da noite em claridade estranha...

Gosto de ouvir de perto o som do mar
A espreguiçar-se em espumas sobre a areia,
Umas vezes em cantos de sereia
Outras vezes num cavo trovejar.

Gosto do sol no corpo, entorpecente,
Da chuva a dar na cara, refrescante,
Do assobio do vento, estimulante
E do voo dos cheiros num abraço silente.

Gosto de caminhar pela floresta
Na luz por entre as árvores filtrada
E de ir na cacimbo, na alvorada,
Pêlos prados floridos numa festa.

Das verdes lagartixas gosto, esquivas
Nas pedras esgueirando-se e nos muros,
De ouvir as aves em trinados puros
E «zun-zuns» de abelhas, pelas flores cativas.

Gosto do sonho que me ilude agora,
Do silêncio que fala ao pensamento,
Da estrela a cintilar no firmamento,
Da nuvem viajando céu em fora.
 

                                                 Avantino Moreira - 2005


    
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