Entrar domingo, 20 de Maio de 2012
 Infância... desperdiçada!

Nesse tempo, Carlos Pinto,
Com quatro macutas
A gente comprava
Dois pacotes de ginguba
Na loja do Samutopa.

                Nesse tempo, Carlos Pinto,
                com meio angolar
                a gente comprava
                cinco mangas madurinhas
                nas quitandeiras de Camacupa.

Nesse tempo, Carlos Pinto,
montados nas nossas “burras”
a gente fugia da vila
e ia p'rás pescarias
do Rio Júlio
ver as lavadeiras lavar
ou então à hora de muito calor
comer amoras fresquinhas.

                Nesse tempo, Carlos Pinto,
                Muitos de nós fazíamos gazeta
                da escola coribeca
                e íamos jogar sueca
                debaixo da mandioqueira.

Era no tempo
em que o Rogério Marques batia na mulher
e a gente gostava de os ver abraçados
depois de tanta porrada.

                Era no tempo
                dos “donos” da vila,
                do Desportivo e do Delta,
                dos carrinhos de papelão,
                dos sorvetes da “Velhinha”.
                Como tudo era bonito nesse tempo!

Era no tempo do visgo
que a gente punha na figueira-brava
para apanhar bicos-de-lacre e seripipis
os passarinhos que bicavam as papaias do “Pai da Vida”
que tinha aquele quintalão grande e não gostava dos meninos.

                Era no tempo dos doces de ginguba com açúcar da Ingrata.

Foi então que a vida me levou para longe de ti:
parti para estudar no Lubango e trabalhar na Humpata
mas nunca mais te esqueci,
meu companheiro mulato dos bancos de escola
porque tu e eu fizemos muita bola de meia
cheias de chipipa da mafumeira.
Tu e eu aprendemos a compreender e a olhar a vida,
a conversar com os negros velhos do quimbo
e com as negras de quinda à cabeça,
cheia de fuba para o almoço.

                Tu ensinaste-me onde havia a melhor quissângua.
                Era no Bairro por detrás do Caminho-de-ferro
                mais conhecido por bairro da Catabola.
                Tu e eu alimentámo-nos do que agora relembro
                dessa infância meia desperdiçada,
                sonhos dos tempos de menino.

Tudo isto nós vivemos
meu companheiro dos bancos de escola.
Isso e o aprender a subir
aos mamoeiros e mangueiras,
a caçar bituítes com fisga,
a colher maboques, loiros e saborosos,
a cantar no quarto do Flora.
Tudo isso perpassa
E me enche de sofrimento.

                Diz a tua Mãe
                que o menino branco
                um dia há-de voltar
                cheio de pobreza e de saudade
                cheio de sofrimento
                quase destruído pela Europa.

Ele há-de voltar
para se sentar à tua mesa
e voltar a comer aquela moamba de domingo
com quiabos e gengibre.
Aquela moamba que nunca mais esqueci
nos longos domingos tristes e invernais da Europa
ou então aquele calulu
de dona Ema.

                Diz à tua Mãe, Carlos Pinto,
                que ela ainda me há-de beijar como fazia
                quando eu era menino
                bem tratado.
                Quando fugia da casa de meus Pais
                para ir repartir a minha riqueza
                com a vossa pobreza.
                Diz tudo isso a toda a gente
                que ainda se lembra de mim.
                Diz-lhes. Diz-lhes,
                grita-lhes aos ouvidos,
                ao vento que passa
                e sopra nas casuarinas da avenida principal.
                Diz aos mulatos e brancos e negros
                que foram nossos companheiros de escola
                que te escrevo este poema
                chorando de saudade,
                as veias latejando,
                o coração batendo
                de Esperança, de Esperança
                porque ela,
                a Esperança
                está na Esperança, amigo.

Nesse tempo, Carlos Pinto,
Infância… desperdiçada,
era no tempo dos tamarineiros em flor...

                                                 Avantino Moreira - 17/05/2001


    
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