Nesse tempo, Carlos Pinto,
Com quatro macutas
A gente comprava
Dois pacotes de ginguba
Na loja do Samutopa.
Nesse tempo, Carlos Pinto,
com meio angolar
a gente comprava
cinco mangas madurinhas
nas quitandeiras de Camacupa.
Nesse tempo, Carlos Pinto,
montados nas nossas “burras”
a gente fugia da vila
e ia p'rás pescarias
do Rio Júlio
ver as lavadeiras lavar
ou então à hora de muito calor
comer amoras fresquinhas.
Nesse tempo, Carlos Pinto,
Muitos de nós fazíamos gazeta
da escola coribeca
e íamos jogar sueca
debaixo da mandioqueira.
Era no tempo
em que o Rogério Marques batia na mulher
e a gente gostava de os ver abraçados
depois de tanta porrada.
Era no tempo
dos “donos” da vila,
do Desportivo e do Delta,
dos carrinhos de papelão,
dos sorvetes da “Velhinha”.
Como tudo era bonito nesse tempo!
Era no tempo do visgo
que a gente punha na figueira-brava
para apanhar bicos-de-lacre e seripipis
os passarinhos que bicavam as papaias do “Pai da Vida”
que tinha aquele quintalão grande e não gostava dos meninos.
Era no tempo dos doces de ginguba com açúcar da Ingrata.
Foi então que a vida me levou para longe de ti:
parti para estudar no Lubango e trabalhar na Humpata
mas nunca mais te esqueci,
meu companheiro mulato dos bancos de escola
porque tu e eu fizemos muita bola de meia
cheias de chipipa da mafumeira.
Tu e eu aprendemos a compreender e a olhar a vida,
a conversar com os negros velhos do quimbo
e com as negras de quinda à cabeça,
cheia de fuba para o almoço.
Tu ensinaste-me onde havia a melhor quissângua.
Era no Bairro por detrás do Caminho-de-ferro
mais conhecido por bairro da Catabola.
Tu e eu alimentámo-nos do que agora relembro
dessa infância meia desperdiçada,
sonhos dos tempos de menino.
Tudo isto nós vivemos
meu companheiro dos bancos de escola.
Isso e o aprender a subir
aos mamoeiros e mangueiras,
a caçar bituítes com fisga,
a colher maboques, loiros e saborosos,
a cantar no quarto do Flora.
Tudo isso perpassa
E me enche de sofrimento.
Diz a tua Mãe
que o menino branco
um dia há-de voltar
cheio de pobreza e de saudade
cheio de sofrimento
quase destruído pela Europa.
Ele há-de voltar
para se sentar à tua mesa
e voltar a comer aquela moamba de domingo
com quiabos e gengibre.
Aquela moamba que nunca mais esqueci
nos longos domingos tristes e invernais da Europa
ou então aquele calulu
de dona Ema.
Diz à tua Mãe, Carlos Pinto,
que ela ainda me há-de beijar como fazia
quando eu era menino
bem tratado.
Quando fugia da casa de meus Pais
para ir repartir a minha riqueza
com a vossa pobreza.
Diz tudo isso a toda a gente
que ainda se lembra de mim.
Diz-lhes. Diz-lhes,
grita-lhes aos ouvidos,
ao vento que passa
e sopra nas casuarinas da avenida principal.
Diz aos mulatos e brancos e negros
que foram nossos companheiros de escola
que te escrevo este poema
chorando de saudade,
as veias latejando,
o coração batendo
de Esperança, de Esperança
porque ela,
a Esperança
está na Esperança, amigo.
Nesse tempo, Carlos Pinto,
Infância… desperdiçada,
era no tempo dos tamarineiros em flor...
Avantino Moreira - 17/05/2001