2 - RECORDAÇÕES
Nasci na linda cidade de LUANDA em 1933. Meus pais ali tinham chegado uns meses antes, a fim de irem trabalhar na Farmácia Central, de que eram proprietários meus tios RACHEL e JOSUÉ, sendo que aquela era a irmã mais velha de minha mãe e professora numa das escolas da cidade.
Foi precisamente na residência que ficava por cima da dita farmácia que, no dia 18 de Setembro pelas 13 horas, resolvi vir ao mundo pronta a enfrentar todos os acontecimentos que viria a viver nestes muitos anos que já decorreram.
Era, LUANDA, uma pequena cidade banhada pelo Atlântico e sob a protecção da vetusta fortaleza erguida no morro de S. MIGUEL, sobranceira à baía, situada entre a foz dos rios BENGO e CUANZA e capital da Província Ultramarina de ANGOLA.
Em 1575 o neto de BARTOLOMEU DIAS, PAULO DIAS DE NOVAIS, que em 1571, por carta régia firmada por D.SEBASTIÃO a 19 de Setembro, fora nomeado primeiro Governador e Conquistador do Reino de ANGOLA, havia-a fundado, sendo a cidade mais antiga a sul do equador e, durante alguns anos do século XVI, um centro militar, administrativo e comercial.
Começou a ser habitada por população nómada que se dedicava ao comércio de escravos embarcados para o BRASIL, igualmente por degredados e funcionários ao serviço da Coroa.
A localização da cidade deve-se à existência de uma baía de águas calmas e à protecção de uma restinga que se estende desde a foz do CUANZA à Ponta da Ilha, ILHA DAS CABRAS, também designada por MUAZANGA (ou MAZANGA), feudo do rei do CONGO, onde existiam os zimbos (nzimbo ou njimbu) que eram pequeníssimos búzios servindo de moeda, uma das primeiras ali usadas.
LUANDA, é uma palavra do dialecto quimbundo e significa rede. Os habitantes da Ilha eram conhecidos por "axiluandas" que, nesse mesmo dialecto significa lançadores de redes, pois se dedicavam à pesca com redes.
Em Agosto de 1641, no reinado de D. JOÃO IV, a armada holandesa cerca o porto de LUANDA e o seu exército surpreende os portugueses.
O Governador de ANGOLA, PEDRO CÉZAR DE MENEZES, teve de retirar da cidade assim como as restantes autoridades e a maioria dos populares.
Da barra do BENGO, em Março de 1642, solicitou ao rei que lhe fossem enviados socorros de modo a poderem expulsar os intrusos.
A armada, composta de 15 navios vindos do BRASIL, comandada por SALVADOR CORREIA DE SÁ E BENEVIDES, a quem o rei nomeara Governador e capitão General do Reino de ANGOLA e Governador do RIO DE JANEIRO e das Capitanias do Sul, com 900 combatentes vencem e expulsam os holandeses. SALVADOR CORREIA dá então à cidade o nome de S. PAULO DA ASSUMPÇÃO, retirando-lhe o antigo nome de LUANDA por haver parecença com HOLANDA. Também a fortaleza que se designava de S.PAULO, ou FORTE DO MORRO, adquiriu o nome de S.MIGUEL.
A cidade ficara muito desbaratada e, pela acção dos portugueses, com a construção de muitas habitações, igrejas e monumentos, desenvolveu-se.
Nesses recuados tempos dividia-se em: Cidade Alta - onde se situavam o Palácio do Governo Geral, a residência do Governador da Província, o Paço Episcopal, a Procuradoria da República, o Hospital Central, a Repartição da Fazenda Pública, os Quartéis e Tribunal Militares, algumas das suas igrejas barrocas, escolas, moradias, Jardim da Alta - estendia-se entre a Fortaleza de S. MIGUEL até ao Largo do Hospital; a Cidade Baixa - de caris comercial e portuária onde se situavam os estabelecimentos comerciais, os armazéns de grossas paredes e grandes quintais, alguns sobrados, praças arborizadas, o edifício da Alfândega, igrejas, tais como a dos REMÉDIOS e a da NAZARETH - ia da Ponta da "MÃE ISABEL" até ao sopé do Morro da fortaleza; os muceques, densamente povoados, ocupavam uma grande área com as suas cubatas espalhadas sem qualquer ordenamento.
Em frente à cidade e na base do Morro de S. Miguel, na parte em que existe um menor afastamento entre elas, construiu-se uma ponte, primeiro em madeira e mais tarde de construção definitiva, realizando-se, desta forma, a ligação entre ambas.
A Ilha foi habitada desde tempos ancestrais por pescadores negros com suas habitações. Sempre atraiu a população abastada que ali construiu algumas vivendas para férias e fins de semana. Na Ponta da Ilha ergue-se a Igreja de NOSSA SENHORA DO CABO, construída no século XVII e reconstruída em 1870.
As Portas do Mar, banhadas pelas tranquilas águas da baía, na parte frontal do famoso Largo de PEDRO ALEXANDRINO DA CUNHA, anteriormente conhecido por "LARGO DO ESQUADRÃO", onde se erguera desde 1871 a estátua consagrada àquele antigo Governador-Geral e a primeira existente em LUANDA, atraia a população nos dias de chegada dos navios vindos da Metrópole.
Naquela época, estes, por falta de um porto onde acostarem, tinham de ficar fundeados à entrada da baía. As ligações destes com a terra eram estabelecidas por pequenos barcos a motor, denominados "gasolinas", enquanto batelões transportavam as bagagens e mercadorias diversificadas descarregadas precisamente ali.
Foi nessa cidade que vivi os primeiros dez anos de uma meninice feliz de que recordo com alguma emoção os longos passeios que dava com meus Pais, irmãos e inúmeros amigos, as idas para a aprazível Ilha de carro sempre a abarrotar de crianças ou no pequeno comboio que ali circulava fazendo a ligação da cidade com aquela, o mar de águas cálidas, as areias douradas das suas praias e as inúmeras conchas que nelas abundavam, os pequeníssimos búzios que apanhávamos e com eles fazendo colares e pulseiras, os caranguejos que por ali não faltavam, alguns minúsculos, quase transparentes, que faziam buraquinhos na areia e deles surgiam furtivamente apenas se avistando os seus salientes olhos, que nós perseguíamos em correrias e as aves palmípedes que com seu gracioso caminhar percorriam a beira-mar procurando bivalves em que aquele mar era tão fértil. Nas calmas águas da baía observávamos os caranguejos eremitas e alguns bivalves, entre estes as "mabangas" abriam as suas conchas fechando-as mal nos pressentiam, "quitetas" que apanhávamos introduzindo os pés na areia batida pela fraca ondulação, escavando um pouco, pondo-as a descoberto, logo as recolhendo para os nossos pequenos e coloridos baldes de lata e, na rebentação pequenos peixes em cardumes vinham tocar nossas pernas mergulhadas nas mornas águas.
O voo picado dos gansos patolas quando mergulhavam no mar que parecia de prata, trazendo peixes nos seus bicos e as gaivotas, em, alerta voavam ao seu encontro arrebatando-lhos, o voar majestoso das belíssimas garças reais, o planar das águias pesqueiras que habitavam os morros e os patos que mansamente repousavam à tona da água numa quietude imensa.
E as brincadeiras?! As correrias dos jogos das escondidas para os quais antes do seu início se anunciava uma ladainha, a patinagem no ringue existente na Ilha, a ginástica que todos praticávamos no areal, as competições para fazermos o pino, o movimentar dos baloiços da praia, dando cada vez mais impulso para ver quem conseguia chegar mais alto e o andar nas bicicletas em grupo fazendo concursos, a natação, o jogo das cinco pedrinhas e o da cabra-cega, o saltar à corda e... mais alguns que ficaram esquecidos!
Nas noites quentes, quando as famílias se juntavam a cavaquear caminhando na praia, passeando na Ilha, recebendo a fresca aragem marítima ou repousando deitados na areia, tudo era calmo, colorido, repleto de odores.
Havia por todo lado o canto de algumas aves nocturnas, o trilo dos insectos ecoando, o grito das hienas assemelhando o choro das crianças ao longe, os sons emitidos pelos morcegos quando fendiam os ares, os batuques ressoando na distância, o cantar dos galos anunciando o nascer do Sol, os pregões das quitandeiras e, sobrepondo-se a todos, o ruído inconfundível do mar batendo na areia. Igualmente há a recordação dos aromas da maresia, das flores das acácias rubras e dos jasmins na noite angolana, das primeiras chuvadas empapando a terra seca e fendida quando o salalé saía dos buraquinhos, o cheiro forte da "gajaja" amarelinha; o gosto da maçãzinha da Índia, o sabor agridoce do tamarindo apanhado nas árvores das barrocas em frente à nossa casa, do sape - sape e da pitanga, a adstringência da múcua e do cajú sumarento; o partir dos cocos colhidos na Ilha, a frescura da sua água, o adocicado do mamão amarelo forte ou da papaia avermelhada, o paladar do dendém retalhado e cozido em calda de açúcar, do calulú e da muamba acompanhados com funje, do quitande e do matete.
As cores belas do céu, nos dias de intenso calor quando no asfalto das ruas se formavam miragens, a luminosidade do Sol que quase nos cegava, o amarelo das areias das praias e o azul esverdeado do mar, os vermelhos e laranjas do pôr-do-sol, o rubro das acácias em flor e o colorido variado das buganvílias.
Muito ficou por enumerar mas tentei transmitir um pouco do que vivi em LUANDA nos meus tempos de criança.
Com dez anos, depois de completada a escolaridade primária, meus Pais resolveram deixar LUANDA e assim chegámos a CAMACUPA e ao HOTEL OLIVEIRA... Foi ali que a FAMÍLIA SERRANO foi bater no final de uma longa, morosa e atormentada viagem. Decorrera mais de um mês desde que saíramos de LUANDA!
Pertencia este HOTEL a um afável e acolhedor casal: Senhor OLIVEIRA, sua Esposa, Senhora Dona MARIA DA LUZ e seus filhos.
Devo dizer que a viagem fora efectuada num antigo automóvel Ford de 4 cilindros. Era preto, "a cor dos carros da época", possuía 4 portas, estribos salientes além de uma capota em lona que se levantava conforme as necessidades de ocasião.
Ia carregadíssimo com a família de 5 pessoas e a GININHA, uma prima que nos acompanhou, as muitas imbambas necessárias, um grande espelho de guarda-fatos que a Mãe fizera questão de transportar e um cão perdigueiro favorito do Pai nas caçadas. Íamos acomodados com bicuatas por todo o lado, mal podendo mexer-nos, o dito espelho e diversas malas amarrados do lado de fora, assentes nos estribos, assim como o cão alojado entre o guarda-lamas e a cabine. Apenas a porta do lado do condutor se abria, o que levava o resto dos ocupantes a trepá-las sempre que era preciso entrar ou sair. Só nos faltara levar pendurada a gaiola com o papagaio, que esse ficara entregue a um tio em LUANDA!...
Chegarmos a CAMACUPA e ao HOTEL OLIVEIRA foi, para todos nós, um imenso alívio. A cordialidade do acolhimento que ali tivemos por parte dos seus proprietários, pôs-nos à vontade. Ocupámos dois quartos quase três meses. Na parte da frente da construção situavam-se o salão e o compartimento do bar.
Não fora só a bondade da Senhora Dona Maria da Luz que nos cativou a nós crianças mas, também, as saborosíssimas lambarices que sempre nos oferecia. Em breve andávamos por todo lado acompanhando a nossa hospedeira. Não raro, íamos à grande cozinha onde sempre havia algum "mimo" e uma azáfama constante.
Havia, contudo, um compartimento que sempre me fascinava: a grande despensa! Um armazém onde, além da mercearia arrecadada em prateleiras, existia "maçãzada", goiabada, compotas de mamão, morango, manga e variadíssimas geleias confeccionadas e enfrascadas pela própria senhora com a colaboração de empregados.
No chão montes de frutas diversas, espalhadas sobre palha: maçãs, goiabas, mamões, papaias, manga, tangerinas, laranjas, anonas. Entrar ali era entrar num mundo de maravilhas para mim ou para qualquer outra criança gulosa. E o aroma? Esse é indescritível mas posso garantir que cheirava muitíssimo bem e, quem ali entrou alguma vez, não pode deixar de o lembrar.
Preparavam torresmos bem sequinhos e estaladiços que eram bastante apreciados. Os seus enchidos, muito afamados, eram deliciosos. Na cozinha a que me referi existiam sempre suspensos em grandes paus, no enorme fumeiro, chouriços, farinheiras, morcelas e alheiras. Matavam porcos, cabritos, patos, galinhas, etc. para serem consumidos nas refeições.
Havia um corre-corre no dia a dia restando, contudo, um bocado que dedicavam aos hóspedes estabelecendo grandes amizades.
Mesmo o senhor OLIVEIRA, apesar de todos os seus afazeres, nos dedicava algum do seu tempo e, em diversas idas à sua horta e pomar que limitavam uma parte da vila, levava-nos e era com grande paciência que nos colhia peças de fruta e moderava o passo para que o pudéssemos acompanhar.
Era tão linda aquela propriedade! Filas e filas de cafeeiros, laranjeiras, anoneiras, tangerineiras, macieiras, etc. Mancha verde a perder de vista, com algumas valas de água límpida e corrente a atravessá-la.
Que dizer dos três rapazes OLIVEIRA?
Apenas que foram incansáveis connosco e eu sempre pude contar com o seu apoio. Mesmo, mais tarde, já instalados em nossa casa, quando nos passeios que dava pela vila, empoleirada na enorme bicicleta de meu Pai que tinha de encostar aos passeios para a montar, era a eles que recorria quando dava uma queda e era necessário algum conserto.
Antes de me dirigir a casa para ser tratada aos ferimentos era ao Hotel que ia pedir auxílio a qualquer deles. Sempre fui atendida muito pacientemente.
Foram, assim, os primeiros amigos que fizemos em CAMACUPA.
Já completara a 4ª classe mas, assistia às aulas, na escola, com uma professora que substituíra o casal BAPTISTA que estava de férias. Recordo alguns dos companheiros mas, o que mais me vem à memória, é o AMÂNDIO RABAÇAL, falecido bem novo, pois dentro da sala de aulas fechava as janelas e, à luz duma vela, projectava numa parede sombras chinesas. Assim, era vê-lo criar coelhos que mexiam as orelhas, pássaros a voar, cabeças de cães. Todos nós tentávamos imitá-lo sem grande sucesso. O tempo decorreu e tive de regressar a LUANDA onde fui fazer o exame de admissão ao liceu. Meu Pai apenas me pôde acompanhar a NOVA LISBOA donde segui de carreira e depois de comboio. Era a primeira vez que viajava sem a minha família, entregue a pessoas amigas de meus primos. Levavam-se grandes farnéis. Aconteceu, porém, que numa das paragens entrou um cão na camioneta e logo escolheu o meu farnel, que ia acomodado num cesto a meus pés, com tudo bem embrulhado em papel vegetal. Quando entrei e deparei com o farnel espalhado pelo chão fui acometida por um choro lancinante. Todos me ofereciam do que tinham mas foi difícil estancar as lágrimas.
Com o exame feito com bom resultado voltei a CAMACUPA e, desta vez, meu Pai fora buscar-me. Estávamos nas vésperas de NATAL e, na minha ausência, haviam mudado de casa.
Foi nessas férias que meu Pai, numa das suas caçadas, ficou sem um dos cães, precisamente aquele que viera connosco para CAMACUPA e que era o seu favorito. Procurara-o mas não o encontrara e resolveu regressar. Durante uns meses o cão não apareceu pelo que o substituíra por outro perdigueiro que ensinara pacientemente a caçar quando uma surpresa o aguardava. Logo pela manhã, ao abrir a Farmácia, o FIEL, assim se chamava, estava à porta, magríssimo, muito cansado, com sinais de ter estado preso e com uma ferida proveniente de uma catanada que levara. Alguém o roubara mas, ele, fazendo jus ao nome, libertara-se e viera reencontrar o dono. Nunca se conseguiu saber quem o retivera. Ainda viveu mais alguns anos com grande dedicação a todos nós.
Foram muitos os cães que tivemos; todos perdigueiros e todos treinados e tratados muito cuidadosamente.
Uma cadela, a DIANA, adoecera com esgana, doença que matava muitos animais. Estava muito mal, deitada num compartimento onde tinha a sua cama, levantou-se com dificuldade, veio junto de todos nós como se quisesse despedir-se, voltou para o dito local onde, logo de seguida, faleceu.
Podia contar muitos outros episódios passados com cães, alguns nascidos e criados lá em casa; saliento que tivemos grandes manifestações de amizade das muitas "DIANAS", "VIOLETAS" ou "PILOTOS" que nos acompanharam na nossa meninice.
Muitos anos decorreram então. Em 1957, com o curso completado, retornei a ANGOLA. Exerci em CAMACUPA na Escola Primária nº 52 onde tive uma belíssima classe de alunos que ainda recordo. Trabalhei em muitas outras Escolas dos distritos: BIÉ, MOÇAMEDES e HUAMBO. Quis o destino, que a última Escola que me foi atribuída, durante esses anos em ANGOLA, foi também, em CAMACUPA e, nessa altura, a Escola nº 210.
A avaliação dos alunos da 4ª classe era feita com um exame (escrito e oral), por um júri de que faziam parte 3 elementos escolhidos entre os professores que não haviam leccionado essa classe, nesse ano lectivo. Realizavam-se nos meses de Junho e Julho em todas as escolas, postos escolares, públicos e particulares e, ainda, nas escolas da Missões.
Uma vez, no distrito do BIÉ, fui designada para fazer parte de um desses júris e teríamos de percorrer algumas localidades (escolas e postos). Chegávamos a estar um mês fora de casa. Havendo diversos locais onde nos deslocarmos, alguns distantes, era de táxi que o fazíamos, permanecendo este e o motorista connosco até finalizarmos os trabalhos. Quando não existia hotel ou qualquer outra acomodação na povoação, era na residência da professora ou da regente que nos alojávamos.
Aconteceu que, num desses sítios, um posto escolar isolado, a alguns quilómetros da povoação, a colega que ia comigo se sentiu bastante indisposta, o que a levou a não poder almoçar. A anfitriã fez-lhe um chá que ela bebeu.
Já a finalizarmos a refeição, referindo-se à escassez de chuvas naquele ano e às dificuldades existentes no abastecimento de água feito com uma cisterna quase seca e um depósito sobre o telhado, o marido citou-nos que, ficando este mal fechado, caíra lá para dentro um lagarto, contudo, não havia outra alternativa senão continuar a consumi-la.
Ainda hoje me interrogo se não teria sido estratégia do senhor para nos ver pelas costas, o que a ser desta maneira, lhe correu a contento! Imediatamente corrigimos os últimos testes e nessa tarde procedemos às provas orais de todos os alunos, desrespeitando as normas vigentes que nos obrigavam a que só no dia seguinte à afixação dos resultados da prova escrita, poderiam ter lugar aquelas.
Nessa noite fizemos um regime alimentar de quase nenhumas calorias e, no outro dia, mal rompeu o Sol, partimos para o novo destino, de igual modo outro posto escolar fora da povoação, todavia, já antes nos tínhamos abastecido com garrafas de água e mais provisões, não fosse "o Diabo tecê-las"!...
Noutra ocasião, numa das Missões fomos recebidos principescamente, inclusivamente com direito a magníficos serões em que a dona de casa nos brindava com peças clássicas tocadas ao piano.
Havia muitos alunos para serem submetidos a exame e ali permanecemos quase 15 dias. Tudo corria bem, não fossem as refeições principais em que as ementas, além de estranhas, tão diferentes do que nos era habitual, possuíam sempre um sabor adocicado porque usavam compotas e melaço na sua confecção. No decorrer duma delas a senhora inquiriu-nos se desejávamos uns "pickles". Todos assentimos, desejosos que estávamos de qualquer alimento acidulado, porém, mais uma vez ficámos surpresos ao levarmos a primeira garfada à boca : os legumes em vez de se encontrarem mergulhados em vinagre, permaneciam em calda de açúcar ! Nas casas de banho, nos rolos de papel higiénico havia salmos impressos em inglês, o que nos levou a constatar mais uma vez que é bem certa a afirmação popular: "Há gostos para tudo"!...
Numa prova escrita de exames para adultos, realizada numa escola do saudoso BIÉ, sendo o presidente do júri um colega muito exigente e a outra colega uma senhora com muitos anos de serviço, esta, antes de entrarmos para a sala, inteirou-me de que um dos candidatos, pessoa já com bastante idade, a desempenhar interinamente um lugar subalterno no funcionalismo público, a informara de que não estava preparado para o exame, mas necessitava do diploma da 4ª classe para entrar para o Quadro e poder aposentar-se. A colega solicitou-me que fosse dando umas voltas pela sala e o ajudasse no que fosse possível, enquanto ela procuraria distrair o professor. Assim procedi e, acercando-me do examinando, reparei que havia no ditado deste, mais do que os erros permitidos por lei. Sussurrei-lhe para que algumas correcções fossem feitas. Foi nessa altura que descobri ser o senhor gago e, ainda por cima, não ouvir bem, pelo que em voz muito alta me disse: - f...fa..faça f...fa...favor de f...fa...lar...al... alto.
Logo recebi ordem para me sentar, não podendo assim fazer mais nada por ele. Felizmente, sempre que surgiram outros casos em que houve necessidade de um "empurrãozito", não estiveram lá presidentes exigentes, nem tornaram a aparecer mais gagos e surdos!!!
Maria Raquel
1 - APONTAMENTOS SOBRE CAMACUPA - 1944
Quando em 1944, com meus Pais, ANTÓNIO e ROSALINA SERRANO e irmãos, MARIA REGINA (GININHA) e ANTÓNIO JOSÉ (ANTONINHO), ainda criança cheguei a CAMACUPA, vinda de LUANDA onde nasci, aquela era uma pequena, pacata e calma povoação com 3 ruas largas, compridas e paralelas, de terra batida, atravessadas por outras 6 perpendiculares e também paralelas, de quarteirões muito bem delimitados, com pequenas vivendas, algumas marcadamente de estilo colonial, grandes quintalões com muitas árvores de frutos.
Algumas dessas ruas eram bordejadas de nespereiras e amoreiras.
Desde Setembro de 1926 era servida por uma Estação do Caminho-de-Ferro de BENGUELA que tinha início na cidade costeira do LOBITO e percorria os Planaltos de BENGUELA, HUAMBO, BIÉ até ao CUANZA (km 725) tendo em 27 de Novembro de 1927 atravessado a Província do MOXICO e chegado à antiga fronteira de ANGOLA no rio LUMEJI. Esse troço a partir do CUANZA só começara a ser explorado no dia 1 de Março de 1928. Algum tempo depois, com a delimitação das novas fronteiras de ANGOLA com o CONGO BELGA, alargara-se até ao DILOLO.
Por ali circulavam inúmeros comboios de passageiros, mistos e de carga.
A Estação Ferroviária estava situada num vasto terreno descampado frontal às casas centrais da primeira rua, mesmo diante do único Hotel da vila (HOTEL OLIVEIRA).
Foi nesse Hotel que nos hospedámos durante cerca de 3 meses tendo sido maravilhosamente recebidos pelos proprietários, Sr. OLIVEIRA, sua esposa D. MARIA DA LUZ e seus 3 filhos: JOSÉ (ZECA), ANTÓNIO e BENJAMIM (MIM). Havia ainda uma filha que se encontrava a residir com os avós, MARIA TERESA e, portanto, só a conhecemos mais tarde.
Junto dele e confinada por duas das ruas transversais, com passeios arborizados, havia uma Praça comprida, atravessada por outra das ruas que a dividia em duas partes. Ao fundo da dita Praça havia três mangueiras enormes e muito frondosas que sombreavam o edifício ali existente: Escola Primária com duas salas e residência dos professores.
Nesse remoto ano de 1944 havia uma pequena Capela na citada rua do Hotel.
Foi também nesse mesmo ano que se estabeleceu a "FARMÁCIA SILVEIRINHA", propriedade de meus Pais. Até então a Farmácia mais próxima existente na região do BIÉ situava-se em SILVA PORTO, cidade que era a capital dessa Província.
Ficava na mesma rua, numa pequena vivenda acabada de construir e pertença do Sr. LOUREIRO.
Havia bastantes outros estabelecimentos comerciais porque a população era, quase na totalidade, constituída por comerciantes.
Nas lojas fazia-se um comércio misto, vendendo-se de tudo, desde a fuba e o peixe seco até algumas roupas usadas que eram importadas dos Estados Unidos em grandes fardos.
No velho Hospital exerciam as suas profissões, o médico, Sr. Dr. ALVIM e o enfermeiro, Sr. EXPOSTO. Na Escola Primária leccionavam os professores, Sr. JOÃO BAPTISTA e Sª Dª DELFINA.
Nas diversas Repartições Públicas trabalhavam mais outros funcionários de que não recordo os nomes.
O edifício da Administração do Concelho fora construído na rua paralela a essa e encontrava-se rodeado de muitos terrenos vagos.
Desde 1937, 27 de Fevereiro, CAMACUPA era sede de Concelho com esse mesmo nome.
Situada num Planalto, a uma altitude aproximada de 1.450 metros, possuía um clima excelente, temperado, o que favorecia a riqueza regional com o cultivo de muitos produtos agrícolas: arroz, café, mandioca (que seca se chamava "crueira"), ginguba, feijão, milho, gergelim, citrinos e outros. Também eram cultivados muitos produtos hortícolas.
Nos seus arredores, nas extensas e alagadas baixas, cultivava-se o arroz. Nessas terras, no tempo das chuvas, proliferavam imensos mosquitos que iam infectar as populações com paludismo, doença que grassava por toda ANGOLA, sendo necessário o uso do mosquiteiro sobre as camas e o emprego do quinino e atebrina, medicamentos que se usavam, difíceis de ingerir por serem tremendamente amargos e, se tomado com frequência, este último, punha as pessoas a parecerem canários de tão amarelas que ficavam! Este fármaco era também usado no tratamento dos doentes com bilharziose, outra das doenças que devastava muita população.
Para nós, crianças, era um tormento tomá-los por os pais os envolverem em miolo de pão para não sentirmos o amargor, não sendo raro que ficassem presos na garganta, o que igualmente acontecia com as hóstias de quinino, que só se desprendiam com a ingestão de muita água.
Existia uma Fábrica de Descasque de arroz igualmente a laborar na mesma rua do Hotel, da Farmácia e do Hospital.
Nos muitos rios, dos quais se destacam: CUANZA, CUQUEMA e CUIVA, que corriam ali próximo, abundavam jacarés, hipopótamos, sengues e variadas espécies de peixes. Os jacarés faziam algumas vítimas nos povos que ali habitavam e se iam abastecer de água e os hipopótamos, em muitas noites, davam grandes desbastes nas plantações, não só pelo que comiam como pelo que estragavam no rasto que faziam ou quando resolviam espojar-se levando tudo à frente.
A fauna riquíssima em perdizes, codornizes, pombos verdes, galinhas do mato (capotas), javas, tuas, lebres, coelhos. gulungos, gnus, javalis, chitas, onças e outros mais. Nas extensas anharas (planícies arenosas e descampadas), depois da época das chuvas e surgidos das matas, vinham pastar pequenos antílopes trazendo no seu rasto os predadores.
Negros, que não trabalhavam na vila e que ali se deslocavam vindos dos seus "quimbos" para trocarem – venderem e comprarem – nas lojas os seus produtos (galinhas, ovos, cabritos, batatas, milho, feijão, fruta, cera, etc.) por alguns de que necessitavam (óleo de palma, peixe seco, sal, panos, cobertores, petróleo e outros), para irem ao Hospital, à Farmácia, apresentavam-se descalços, quase sem vestes, somente umas pequenas tangas para os homens, geralmente imundas e panos para as mulheres, da cintura para baixo, deixando os peitos à mostra; as mães com os filhos atados às costas por outros panos. Estes eram quase todos iguais, azuis-escuros sarapintados de branco, que era a chita mais usada na época.
Pela vila passavam, nos períodos próprios, grandes carroças puxadas por dez ou mais juntas de bois, as espanas ou "galeras", de origem "boer", conduzidas pelos carreiros ou carreteiros, que eram homens munidos de chicotes, uns paus com umas compridíssimas tiras de couro numa das extremidades que de trás da última junta de bois chegavam à da frente e que eles brandiam no ar, volta e meia, sem os atingirem, com um estalar tão característico, entre gritos, que ainda hoje recordo e já lá vão mais de sessenta anos! Iam a caminho da fronteira leste.
Essas carroças vinham do sul e do litoral trazendo sal, açúcar, tecidos de algodão e outras mercadorias. No regresso transportavam cera, borracha (um dos principais produtos do Bié), arroz , "crueira", feijão, milho e mais alguns produtos do interior. A cera, que abundava na região desde o CUEMBA, era preparada em grandes bolas, permutada principalmente nos estabelecimentos do mato e transportada seguidamente para exportação via BENGUELA, tal como outros dos produtos já nomeados.
Também por ali se fazia a rota do gado bovino, que vinha do sul em grandes manadas e se dirigia para leste. Escolhiam esse rumo porque tinham de atravessar a ponte de ferro do rio CUANZA construída pelo ano de 1927 Nessas manadas iam sempre alguns bois velhos ou enfraquecidos para que servissem de "refeição" aos jacarés quando atravessavam rios sem pontes que lhes permitissem a passagem.
Nesse tempo, ainda CAMACUPA não estava electrificada e as pessoas alumiavam-se com candeeiros a petróleo, denominados de "petromax" e que davam uma luz muito brilhante.
A água não era canalizada e vinha dum pequeno rio (JÚLIO), que corria numa baixa muito próxima da vila, sendo transportada em tambores e barris atados com cordas que se puxavam e empurravam rolando-os pela encosta.
Ainda por muitos anos mais isso aconteceu.
Não havendo qualquer edifício adaptado a cinema, mesmo assim, muito de longe em longe, apareciam uns ambulantes que levavam filmes para serem projectados no único clube da terra e numa parede do salão. Eram filmes muito antigos, rodados por máquinas antiquíssimas, munidas de manivela e que se colocavam ao fundo da sala, à vista de toda a assistência.
Para que as pessoas se pudessem sentar cada uma levava de casa uma cadeira. As crianças acomodavam-se à frente, sentadas no chão e era uma festa, batendo palmas nas cenas mais movimentadas ou quando o filme terminava e aparecia a palavra "FIM".
Quase não circulavam automóveis. As poucas estradas não passavam de picadas de terra batida que, na altura das chuvas, se tornavam quase intransitáveis, com enormes buracos que se abriam, rios de água e lama que por elas corriam.
Uma viagem por essas estradas era sempre um grande feito que só acabava bem pela perícia, intrepidez e espírito de sacrifício dos condutores.
No tempo seco as nuvens de poeira levantadas dificultavam a condução e sujavam os viajantes que ficavam cobertos de pó.
As pontes em madeira, por vezes apenas traves corridas ou troncos de árvores assentes lado a lado - pontões - em certas épocas do ano ficavam cobertas pelas águas não dando acesso e, quantas vezes, as viaturas tinham de ficar numa das margens à espera que a água baixasse e proceder-se mesmo a consertos quando as enxurradas eram muito grandes.
Se assim ficavam inundadas era necessário ir a "passo de caracol". À frente, a pé e munido dum comprido pau, que servia de detector, ia um homem enterrando-o a ver se sentia solo ou se já só havia água...
Nas diversas viagens que fiz, quando meu pai me ia levar ou buscar a LUANDA onde fui estudar por não haver ainda colégio em SILVA PORTO, tive ocasião de viver algumas dessas dificuldades, assim como avarias no carro que o Sr. SERRANO com toda a calma, sua enorme paciência e segurança sempre se propunha resolver não deixando de assobiar qualquer música mais em moda. E a verdade é que na maior parte das vezes superava essas adversidades.
Hoje, ao escrever estes apontamentos, posso afirmar quanto foram importantes todos os anos decorridos em CAMACUPA, terra onde exerci a minha profissão de professora pela primeira vez em ANGOLA, onde namorei e casei, onde nasceu meu filho ANTÓNIO PEDRO, onde meus três filhos foram baptizados, onde fiz grandes, belas e gratas amizades e onde vivi os últimos anos passados na nossa saudosíssima ANGOLA.
Com esta síntese de factos ali vividos homenageio todos os ex-residentes daquela cidade, que a fizeram, que a amaram, e aqueles que, tão dedicadamente, se propõem dar a conhecê-la aos vindouros, relembrando-a e facultando-nos estas impressões.