Entrar domingo, 20 de Maio de 2012
 Funções que desempenhou

Caçador aficcionado , tendo o seu grupo de amigos para esta actividade. Na época de caça era raro o dia em que se não levantasse às 4/5 horas da manhã para ir caçar. Nessas alturas aproveitava para levar alguns medicamentos, ajudando os “enfermeiros” dos “quimbos” aconselhando-os como os tratamentos deviam ser levados a cabo, o que e como os usarem, etc., etc. Ganhou respeito e a amizade de muitos desses “enfermeiros” que o tratavam por “Meu querido e estimado Sr. Serrano” nos bilhetes que escreviam pedindo conselhos e/ou medicamentos. Certo dia, de um desses “enfermeiros”, recebeu um bilhete que começava “Meu muito querido, amado e estimado Sr. Serrano, agradeço que envie pelo portador estes medicamentos”, seguia o rol e terminava depois de deixar cumprimentos e votos de boa saúde para todos e que pagaria quando pudesse (a transcrever) “Teu para sempre, Celestino”. Supõe-se que tanto o início como o final do bilhete tenham sido “inspirados” num daqueles livros em que se aprende a redigir cartas. Este, seria “100 maneiras de aprender a escrever cartas de amor”.

 

Construtor - construiu, com a ajuda de pedreiros e carpinteiros (que ele mesmo instruiu) a sua habitação e farmácia. Quando colocava vigas no telhado, caiu e partiu umas costelas. Nada disse em casa. Envolveu-se em ligaduras e retomou o trabalho. Veio-se a saber mais tarde, por um dos empregados que o denunciou. Fez duas embarcações: uma canoa e um barco em que o próprio foi o calafetador, picheleiro, carpinteiram, etc., os respectivos remos e vara. Executou todos os móveis da sala de jantar com mesa extensível quando necessário, cadeiras e coronhas para espingardas, gravando cenas cinegéticas, com fogo. Era pau para toda a obra: arranjava portas, dobradiças, máquinas domésticas e da farmácia (por vezes mal atamancadas, mas punha-as a funcionar). Percebia de canalização e se não havia determinada peça ele próprio a executava. Era um “engenhoca”!

 

Desportista - em gincanas de automóveis e nos tiros aos pombos ou pratos foi, por diversas vezes, medalhado em 1º lugar e quando não vencia ficava normalmente entre os três primeiros. Era também pescador amador – rio e mar. Rios Cuquema e Quanza, principalmente. No mar – Lobito, onde se deixava entusiasmar a ponto de nem se lembrar de ir para casa do filho, almoçar ou jantar e alguém tinha que levar-lhe a comida isto, quando o peixe “picava” com fartura! Sócio dos dois clubes de Camacupa, tinha mais inclinação pelo Desportivo onde, diariamente ia jogar às cartas para cavaquear e espairecer (em casa, depois de jantar, o casal também jogava mesmo que não tivessem outros parceiros). Detestava perder e mesmo com os netos não os deixava ganhar, sendo censurado pela “avó” que via a cara triste dos mesmos, justificando “eles também têm de saber perder”. Juntamente com outros sócios “torceu” para que o cinema chegasse até à povoação. Tinha assinatura mensal para todos os seus. Sessões às 4ªs, sábados e Domingos – noite. A tarde de Domingo, o mesmo salão era reservado para bailaricos.

 

Enfermeiro - em intervenções cirúrgicas, em tratamentos vários, principalmente da “bilharziose”, doença provocada por um tipo de caracol existente nos rios de Angola, em que o doente, ao fim de certo tempo, começava a urinar sangue. No tratamento era usada a “ateberina” (doze comprimidos por dose – três diários, por três dias e os restantes, um diário até terminar a dose. Eram uns comprimidos amarguíssimos de cor amarelada (combatiam também o paludismo) e o paciente adquiria uma “esplêndida cor amarela” tal como se estivessem com “icterícia”. Quando os médicos e enfermeiros eram transferidos para outros locais havia um interregno mais ou menos prolongado antes da apresentação dos novos empossados. Devido a isso, era o Sr. Serrano que socorria a população nessas emergências: fazia tratamentos, curativos, ministrava os primeiros socorros, dava injecções e levava os doentes até ao Hospital do Distrito etc., etc. Sempre com a sua simpatia, amizade, humildade e dedicação, sem esperar qualquer pagamento.

 

Mecânico -Teve vários carros na sua vida, mas um único em 1ª mão, novinho em folha, um Vauxhall Viva (veio em 1975 para Portugal). Todos os restantes eram em 2ª, 3ª ou mais mãos para se entreter, aos Domingos sobretudo, a arranjá-los. Contudo, a parte eléctrica era deixada para entendidos. Não percebia da matéria e, se por qualquer acaso se metia a arranjar um aparelho avariado (parte eléctrica) sobravam-lhe sempre peças. Adquiriu duas carcaças de Jeep Willys e deles, conseguiu o seu veículo “todo o terreno” para a caça, transporte de mercadoria (farmácia e para construção da casa) e era a adoração da gente jovem para passeatas aos Domingos. Todos queriam ir no Jeep.

 

Motorista - em caso de emergência, para salvar vidas, deslocava-se a longas distâncias na sua carrinha particular, Ford ou Jeep, para tratar, trazer, levar doentes, principalmente os comerciantes do mato/aviados que se encontravam em zonas isoladas e sem socorro.

Plantador de Eucaliptos - em terreno situado a uns quilómetros de Camacupa, na estrada nova para o Quanza, semeou e plantou algumas largas centenas deles. Criador de galinhas – teve um aviário, mas os ovos eram tantos que não havia colocação/escoamento na localidade e não sabendo a quem vende-los acabou por trespassar o aviário. O trabalho era muito e ficava sem tempo para a caça de que tanto gostava.

 

Vereador da Câmara Municipal de Camacupa - por uns tempos e também presidente da mesma, interinamente, auferindo mensalmente a quantia de 3.500$00 (três mil e quinhentos escudos). Ainda no seu tempo, electrificou-se a Vila.

 

Veterinário - não havendo nenhum na povoação, socorria animais, principalmente gado bovino, canino e um ou outro animal selvagem (pacaça 1, chita 1 e outros que eram depois de curados entregues num jardim zoológico em Luanda, pertencente à Marconi).


    
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