Entrar domingo, 20 de Maio de 2012
 António Rodrigues Serrano

Biografia de António Rodrigues Serrano - Pelos Filhos  

 

Nasceu a 26 de Junho de 1904, na localidade de Vinha da Rainha (também Freguesia), no Concelho de Soure e Distrito de Coimbra.

 

Tem duas irmãs sendo ele o do meio.

 

Durante a sua juventude praticou vários desportos: luta-livre, pugilismo (peso-pluma), saltos à vara, altura e comprimento (seu favorito e onde mais se distinguiu). Obteve várias medalhas, quer no Ginásio Clube Português, quer no Sporting Clube de Portugal (daí ser adepto deste, por quem “torcia”, fosse que modalidade fosse). Teve vários treinadores, entre eles, o grande Tarzan Taborda.

 

Uma das suas grandes paixões era a caça e era atirador certeiro como atestam os vários prémios ganhos nas competições de tiro aos pratos e aos pombos.

 

Quando sobrava algum dinheirito, no final do mês, dava-se ao “luxo” de ir ao teatro (revista), mas principalmente ao cinema, onde lia as legendas em voz alta, para os que não tinham tido a oportunidade de aprenderem a ler.

 

Dedilhou as cordas, mas sem grande arte, de um instrumento musical: “o banjo”. Uma das músicas que tocava era “A cigana”, a sua favorita.

 

Sem grande ouvido, não sabia dançar e só, no final do ano (31 de Dezembro para 1 de Janeiro) é que, no Clube Desportivo de Camacupa, dançava “você pensa que cachaça é água”. Era esta a única música que o fazia esquecer que tinha “dois pés esquerdos”.

 

Exerceu as funções de ajudante do Posto do Registo Civil da Vinha da Rainha por despacho de 25 de Fevereiro de 1924, tendo tomado posse a 24 de Março do mesmo ano, ainda de menor idade, com 20 anos.

 

Tirou o curso de enfermagem em 1926 tendo, para subsidiar parte dos seus estudos, trabalhado numa casa de penhores, pertencente a um seu tio.

 

Após a conclusão do seu curso foi, de imediato, colocado no Hospital dos Capuchos, em Lisboa e transitou, posteriormente para o Hospital de São José, também naquela cidade, com o posto de enfermeiro-mor (cirurgia-enfermeiro instrumentista).

 

Casa-se em 1931 com a sua amiga de infância Rosalina da Costa Silveirinha. Casados, foram viver para a Amadora onde as rendas correspondiam ao que podiam dispor no momento. Daí, a convite de um primo e cunhado e com “carta de chamada” (ele como Ajudante de Farmácia, a mulher como Directora Técnica) seguiram para Luanda, Angola no ano de 1933. Aliado ao emprego ia a sua paixão pela caça, caça grossa. O novo emprego levou-o a “devorar” livros (os que havia) sobre medicamentos, já que, nessa altura, era tudo manipulado, desde as hóstias, pastilhas, pomadas, comprimidos, supositórios (já os havia e os moldes também, bem como para os comprimidos e hóstias) e além disso, produtos de drogaria: sabões medicinais, perfumes, detergentes, etc…) já que não havia drogarias específicas e era nas farmácias que se adquiriam esses produtos.

 

Também ali, os seus conhecimentos como enfermeiro foram uma mais valia.

 

Trabalhou na Farmácia Central-Proquímica até ao ano de 1944, altura em que, com a sua família foi viver para o Centro Geodésico de Angola – Camacupa e aí abriu uma farmácia com a mulher como Directora Técnica.

 

O recheio da mesma foi adquirido em Novo Redondo. O transporte foi feito, sob sua orientação, em camionetas.

 

Chega a Camacupa em 1944 com sua mulher e três filhos (Maria Raquel - veio a ser professora nessa localidade, Maria Regina - deu aulas no Posto Escolar do Quanza - Camacupa e António José que foi o único que aí passou a sua meninice e juventude), num Ford 4 cilindros, descapotável e pneus adquiridos com certa dificuldade já que se estava em plena 2ª Guerra Mundial pois, os que tinham sido usados na viagem (Luanda/Nova Lisboa), haviam levado tantos remendos (que o próprio punha) uns em cima dos outros que chegou a um ponto de ruptura tal que não aguentaram mais. Em substituição das câmaras-de-ar, seriam, os pneus, cheios de capim, molhado, calcado, pisado e envolvidos em lona que fez aquele feito. A chegada a Nova Lisboa foi uma bênção já que os pneus traseiros não existiam e foram as jantes que fizeram aquele papel. Foram vinte dias tormentosos, cheios de peripécias, aventuras, em que se cozinhava, se caçava, se brincava, dormia, rabujava, cantava, se viam os animais selvagens: leões, nunces, etc. Inesquecível! Só o espírito aventureiro, pacífico, engenhoso, habilidoso do condutor levou aquela família a “bom porto”.

 

Em Nova Lisboa novos pneus foram comprados e reatou-se a viagem até à instalação definitiva – Camacupa (Vila General Machado, anos mais tarde).

 

Durante certo tempo, até a casa alugada estar concluída, viveu-se no Hotel Oliveira e forte amizade, para com os donos e filhos, floresceu entre as duas famílias. Foram sempre pessoas excepcionais!

 

A abertura da farmácia, naquela zona, foi uma mais valia já que, a mais próxima, era em Silva Porto e as estradas eram péssimas (havia o comboio, mas não todos os dias) principalmente no tempo das chuvas e poucos se atreviam a fazer a viagem em tais condições mesmo sendo de 80 km, tal percurso.

 

O médico residente, na altura, era o Dr. Alvim que, muitas vezes, se serviu da colaboração do “Serrano” para as suas intervenções cirúrgicas, quando por qualquer motivo, não havia ou não estava o enfermeiro. Note-se que nunca foi remunerado pois, fazia-o na base do amor pelo trabalho e amizade pelo médico e pelo doente, por vezes.

 

A cerca de 25 km existia um Hospital Missionário (Chissamba) chefiado pelo Dr. Strangwai (salvo erro de nacionalidade Canadense) e a ajuda do Sr. Serrano era sempre bem vinda. Como era hábito nas pequenas localidades interioranas, longe de tudo, todos eram polivalentes e o António Serrano também contribuía no que podia.

 

Era assim o Sr. Serrano, amável, justo, compassivo, amigo do seu amigo, bem como daqueles com quem menos simpatizava e dizia: “é triste ser-se tão mau, tão antipático, tão vigarista que já lhes basta esse castigo”!

 

Ele gostava imenso de estar sempre entretido e trabalhar era o seu hoby. Ao longo da sua vida desempenhou com muita qualidade diversas actividades como:

 

Caçador aficcionado, tendo o seu grupo de amigos para esta actividade. Na época de caça era raro o dia em que se não levantasse às 4/5 horas da manhã para ir caçar. Nessas alturas aproveitava para levar alguns medicamentos, ajudando os “enfermeiros” dos “quimbos” aconselhando-os como os tratamentos deviam ser levados a cabo, o que e como os usarem, etc., etc. Ganhou respeito e a amizade de muitos desses “enfermeiros” que o tratavam por “Meu querido e estimado Sr. Serrano” nos bilhetes que escreviam pedindo conselhos e/ou medicamentos. Certo dia, de um desses “enfermeiros”, recebeu um bilhete que começava “Meu muito querido, amado e estimado Sr. Serrano, agradeço que envie pelo portador estes medicamentos”, seguia o rol e terminava depois de deixar cumprimentos e votos de boa saúde para todos e que pagaria quando pudesse (a transcrever) “Teu para sempre, Celestino”. Supõe-se que tanto o início como o final do bilhete tenham sido “inspirados” num daqueles livros em que se aprende a redigir cartas. Este, seria “100 maneiras de aprender a escrever cartas de amor”.

 

Construtor - construiu, com a ajuda de pedreiros e carpinteiros (que ele mesmo instruiu) a sua habitação e farmácia. Quando colocava vigas no telhado, caiu e partiu umas costelas. Nada disse em casa. Envolveu-se em ligaduras e retomou o trabalho. Veio-se a saber mais tarde, por um dos empregados que o denunciou. Fez duas embarcações: uma canoa e um barco em que o próprio foi o calafetador, picheleiro, carpinteiram, etc., os respectivos remos e vara. Executou todos os móveis da sala de jantar com mesa extensível quando necessário, cadeiras e coronhas para espingardas, gravando cenas cinegéticas, com fogo. Era pau para toda a obra: arranjava portas, dobradiças, máquinas domésticas e da farmácia (por vezes mal atamancadas, mas punha-as a funcionar). Percebia de canalização e se não havia determinada peça ele próprio a executava. Era um “engenhoca”!

 

Desportista - em gincanas de automóveis e nos tiros aos pombos ou pratos foi, por diversas vezes, medalhado em 1º lugar e quando não vencia ficava normalmente entre os três primeiros. Era também pescador amador – rio e mar. Rios Cuquema e Cuanza, principalmente. No mar – Lobito, onde se deixava entusiasmar a ponto de nem se lembrar de ir para casa do filho, almoçar ou jantar e alguém tinha que levar-lhe a comida isto, quando o peixe “picava” com fartura! Sócio dos dois clubes de Camacupa, tinha mais inclinação pelo Desportivo onde, diariamente ia jogar às cartas para cavaquear e espairecer (em casa, depois de jantar, o casal também jogava mesmo que não tivessem outros parceiros). Detestava perder e mesmo com os netos não os deixava ganhar, sendo censurado pela “avó” que via a cara triste dos mesmos, justificando “eles também têm de saber perder”. Juntamente com outros sócios “torceu” para que o cinema chegasse até à povoação. Tinha assinatura mensal para todos os seus. Sessões às 4ªs, sábados e Domingos – noite. Na tarde de Domingo, o mesmo salão era reservado para bailaricos.

 

Enfermeiro - em intervenções cirúrgicas, em tratamentos vários, principalmente da “bilharziose”, doença provocada por um tipo de caracol existente nos rios de Angola, em que o doente, ao fim de certo tempo, começava a urinar sangue. No tratamento era usada a “ateberina” (doze comprimidos por dose – três diários, por três dias e os restantes, um diário até terminar a dose. Eram uns comprimidos amarguíssimos de cor amarelada (combatiam também o paludismo) e o paciente adquiria uma “esplêndida cor amarela” tal como se estivessem com “icterícia”. Quando os médicos e enfermeiros eram transferidos para outros locais havia um interregno mais ou menos prolongado antes da apresentação dos novos empossados. Devido a isso, era o Sr. Serrano que socorria a população nessas emergências: fazia tratamentos, curativos, ministrava os primeiros socorros, dava injecções e levava os doentes até ao Hospital do Distrito etc., etc. Sempre com a sua simpatia, amizade, humildade e dedicação, sem esperar qualquer pagamento.

 

Mecânico -Teve vários carros na sua vida, mas um único em 1ª mão, novinho em folha, um Vauxhall Viva (veio em 1975 para Portugal). Todos os restantes eram em 2ª, 3ª ou mais mãos para se entreter, aos Domingos sobretudo, a arranjá-los. Contudo, a parte eléctrica era deixada para entendidos. Não percebia da matéria e, se por qualquer acaso se metia a arranjar um aparelho avariado (parte eléctrica) sobravam-lhe sempre peças. Adquiriu duas carcaças de Jeep Willys e deles, conseguiu o seu veículo “todo o terreno” para a caça, transporte de mercadoria (farmácia e para construção da casa) e era a adoração da gente jovem para passeatas aos Domingos. Todos queriam ir no Jeep.

 

Motorista - em caso de emergência, para salvar vidas, deslocava-se a longas distâncias na sua carrinha particular, Ford ou Jeep, para tratar, trazer, levar doentes, principalmente os comerciantes do mato/aviados que se encontravam em zonas isoladas e sem socorro.

 

Plantador de Eucaliptos - em terreno situado a uns quilómetros de Camacupa, na estrada nova para o Cuanza, semeou e plantou algumas largas centenas deles. Criador de galinhas – teve um aviário, mas os ovos eram tantos que não havia colocação/escoamento na localidade e não sabendo a quem vende-los acabou por trespassar o aviário. O trabalho era muito e ficava sem tempo para a caça de que tanto gostava.

 

Vereador da Câmara Municipal de Camacupa - por uns tempos e também presidente da mesma, interinamente, auferindo mensalmente a quantia de 3.500$00 (três mil e quinhentos escudos). Ainda no seu tempo, electrificou-se a Vila.

 

Veterinário - não havendo nenhum na povoação, socorria animais, principalmente gado bovino, canino e um ou outro animal selvagem (pacaça 1, chita 1 e outros que eram depois de curados entregues num jardim zoológico em Luanda, pertencente à Marconi).

 

Por volta de 1971/1972 vendeu a Farmácia Silveirinha (que manteve esse nome por vontade do novo proprietário, António Girão) e foi viver para Nova Lisboa, onde deu apoio aos filhos e netos que ali viviam.

 

Partiu em 1975 para a sua terra natal.

 

Faleceu em Fevereiro de 1984 no Hospital Universitário de Coimbra sem nunca ter regressado à sua amada Angola.


    
Apontamentos de Camacupa - 1944 Biografia de António Rodrigues Serrano Biografia de Rosalina da Costa Silveirinha CAMACUPA, terra inesquecível! Fotos da Família Serrano
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