Entrar domingo, 20 de Maio de 2012
 Biografia de Rosalina da Costa Silveirinha

Biografia de Rosalina da Costa Silveirinha - Pelos Filhos

Nasceu a 17 de Junho de 1905 na Quinta do Seminário – Vinha da Rainha – Soure – Coimbra - Portugal.

 

Era a 4ª de seis irmãos: três raparigas e três rapazes cujos nomes (todos eles) eram iniciados por “R”.

 

Fez a escola primária na Vinha da Rainha e teve como professora (irmãs e futuras cunhadas incluídas) a Sr.ª D. Alice Regina Brás de Oliveira (natural de Benguela – Angola) e amiga da casa.

 

Frequentou o liceu em Coimbra juntamente com a sua irmã mais nova. Para isso, aguardou um ano que aquela acabasse a primária para seguirem para Coimbra onde já estudavam os irmãos mais velhos.

 

O Pai, pessoa severa, mas achando que a mulher tinha direito aos estudos, montou casa em Coimbra e a Mãe foi viver com eles para, como se dizia na época, “impor respeito”.

 

Eram jovens modernas, sabendo andar a cavalo (na quinta, havia-os), de bicicleta, conduziam automóveis, dançavam as músicas da época como o “Charleston”, usavam calças compridas e iam à praia com os seus fatos de banho em malha de seda; com os irmãos, aprenderam a atirar, a jogarem ao ring e ténis. Em casa, aprenderam a geri-la, a confeccionar roupas com a costureira que, diariamente lá ia, e o mais necessário para uma casa. Mais tarde, já casada e com filhos fazia-lhes as roupas e calças para a caça para ela e marido.

 

Quando saiam, os irmãos serviam de acompanhantes, e o pai determinava a hora a que deveriam recolher a casa. Se esse horário era ultrapassado havia o castigo certo: tão cedo não havia passeios ou divertimentos. As irmãs ficavam receosas da reacção do Pai, mas Rosalina dizia, numa risada, “já fui, já gozei, amanhã será outro dia”. Toda a vida foi assim, desembaraçada, activa, de resposta pronta, mas educada, não deixando de ser acutilante e doendo mais do que se batesse.

 

Por resposta pronta: Certo dia, já perto dos noventa anos, encontrou uma conhecida que há mais de trinta anos não a via e lhe disse: “Oh! A Senhora D. Rosalina está na mesma!”. A conversa prosseguiu e logo que a senhora se foi embora voltou-se para uma das filhas: “Há uma coisa que não compreendo, será que fui sempre velha e feia?”.

 

Acabado o liceu foi para a Faculdade de Farmácia com a sua irmã Rosa e, em 1929 estavam licenciadas. No livro “A mulher na Universidade de Coimbra” de Joaquim Ferreira Gomes, constam os seus nomes.

 

O Pai, querendo-as em casa, abriu-lhes uma farmácia no 1º andar da Casa da Renda – Solar da família, em Alhadas – Figueira da Foz. Aí permaneceu até a sua irmã se casar. Depois, como queria um ordenado certo para também se casar foi “dar nome” a uma farmácia na Tocha – Aveiro, onde ficou até ao seu casamento em 1931 com o seu amor de sempre.

 

Em 1933 recebeu um convite do seu cunhado Josué Baptista da Costa, dono da Farmácia Central (mais tarde Proquímica) em Luanda para Directora-Técnica daquela. Já com carta de chamada, chega a Luanda ainda naquele ano.

 

Aí chegada, deparou-se com dificuldades em virtude de ser mulher e ter que dirigir homens (entre eles, o próprio marido). Em Angola, na altura, uma licenciada só podia ser professora do Liceu Salvador Correia ou de instituições de ensino particulares.

 

Foi a 1ª mulher farmacêutica a ir para Angola dirigir uma farmácia.

 

Após muita luta, consegue a sua nomeação, abrindo as portas para todas as mulheres que vieram a seguir com outros cursos pois, foi criada, nessa altura, legislação para tal.

 

Nesse interregno, exerceu as funções de professora de Ciências Naturais e de Física ou Química, no já citado Liceu, por algum tempo.

 

Permaneceu no cargo de Directora-Técnica da Farmácia Central até ao ano de 1944 e, nesse mesmo ano, seguiu para Camacupa. Com a sua família.

 

Em 1971/72, vendeu a sua farmácia e foi viver para Nova Lisboa onde exerceu o cargo de Directora-Técnica em duas farmácias daquela localidade.

 

Em 1975 segue para Portugal, regressando à Vinha da Rainha.

 

Pessoa gentil, mas muito selectiva nas suas amizades, não deixando contudo de ser educada, diplomata no trato para com aqueles de que menos gostava. Mesmo com alguns dos seus familiares era assim.

 

Apaparicava todos com os seus petiscos favoritos e tinha sempre um presente guardado para obsequiar no momento certo.

 

Era jovem de espírito e muito combativa, acompanhando sempre a evolução dos tempos, não se chocando com atitudes, vestuários, músicas (que, embora não gostasse de algumas delas, ouvia para poder falar com os filhos e netos sobre elas).

 

Já ia nos seus oitenta anos quando certo dia ia apanhar a carreira para Coimbra e viu uma série de jovens com pesadas mochilas às costas, sacos cama, etc., e diz: “Se pudesse fazia inter-rail e começava já hoje!”.

 

Comungava, com duas das netas, a paixão pelas motos, sabendo marcas, velocidades e alguns dos nomes famosos daquele desporto.

 

Pelo Sporting Clube de Portugal tinha uma paixão de longa data e penalizava-se por nenhum dos netos ser daquele Clube. Conhecia as regras do futebol, nomes, lugares que ocupavam, não só do seu Sporting mas também de outros clubes (portugueses e estrangeiros). Com quem falava sobre o assunto? Com genros netos e amigos. Era um “bom treinador de bancada”.

 

Era uma boa “faroleira”. Nas caçadas nocturnas só com o marido ou em grupo com outros caçadores, o seu papel era pegar no farolim e detectar a caça. Pelos olhos do bicho já sabia que animal era e que se valia, ou não, a pena ser caçado.

 

Certa noite, ainda em Luanda, numa dessas caçadas (o casal, os três filhos e duas sobrinhas) deparou-se-lhe um antílope majestoso que, encadeado pela luz do farolim, a olhou de tal maneira que lhe tocou o coração pela beleza, pela falta de medo que apagou o farolim e o antílope partiu. O marido, que havia visto do animal não estava pelos ajustes e perseguiu-o. Perdeu-se nas voltas e reviravoltas, e só de madrugada se encontrou o trilho de regresso a casa sem que o animal fosse de novo avistado.

 

Era animada nas festas, nos piqueniques que se faziam com amigos, tendo sempre um chiste, uma anedota a propósito, para contar. Nesses piqueniques, muitas vezes nas chitacas de amigos como o Sr. Albuquerque e Sousa/D. Margarida, enquanto se esperava o almoço, faziam-se jogos de futebol entre mulheres e homens. Num desses jogos, as mulheres estavam a perder, coisa que estava a irritar a D. Rosalina que se encontrava a assistir junto de outras senhoras. Levanta-se, vai para o campo; sarrafada aqui, sarrafada acolá, pontapé quer nas canelas dos adversários, quer na bola põe a “equipa” feminina a ganhar. O mais contundido foi Valdemar Pires que dali para a frente, em novos jogos, dizia - “Se a D. Rosalina jogar, eu não jogo!”.

 

Já octogenária, resolveu recordar-se do francês há muito aprendido, mas que ia caindo no esquecimento. Rodeou-se de livros, dicionário, cadernos, gramáticas e todos os dias estudava.

 

Depois do seu falecimento, além dos cadernos de francês, encontraram-se outros com as suas poesias, suas impressões de viagem e diversos outros assuntos.

 

A última vez que viajou, em excursão, foi com uma sua cunhada, ambas já ultrapassando os oitenta e cinco anos. Os excursionistas eram já conhecidos, médicos e enfermeiros do Hospital Universitário de Coimbra que lhes telefonavam a ver se estavam dispostas a fazer mais aquela excursão. Dizia a D. Rosalina” se nos der um chilique temos quem de pronto nos acuda”.Essas viagens terminaram no ano em partiu o colo do fémur, em casa. Isto deu-se em Janeiro e já em Março andava desembaraçadamente esquecendo-se muitas vezes de se socorrer da “canadiana”.

 

Faleceu em Coimbra aos 95 anos, em Agosto de 2000.


    
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