Entrar domingo, 20 de Maio de 2012
 Francisco Costa

 

Francisco Costa, natural de Carrascal de Cardigos, freguesia de Proença-a-Nova, após ter cumprido serviço militar em Lisboa, embarcou para Angola em 1929, chamado por seu irmão Augusto, que na altura já era casado com Natividade Albuquerque Sousa e residente no Cuemba.

Iniciou a sua vida comercial na Muinha, uma povoação com três casas comerciais apenas, a poucos quilómetros de Camacupa.

A 30 de Abril de 1938, casa com Maria Josefa de Albuquerque Sousa, que como o nome indica era cunhada de seu irmão Augusto. O casamento foi celebrado no Cuemba, tendo por padrinhos por um lado seu irmão e cunhada e por outro, Joaquim Martins e esposa.

A sua estadia na Muinha, após o casamento, ainda se prolongou por mais dois anos, durante os quais nasceram dois filhos, nascimentos esses ocorridos em Camacupa.

A parteira foi a D. Cândida, que a 4 de Março de 1939, trouxe ao mundo o Fernando Augusto que veio alegrar os dias tristes passados na Muinha.

Dezasseis meses depois nasceu a Ilda, também em Camacupa, parto este também ajudado pela D. Cândida.

Poucos meses depois do nascimento da filha, devido ao grande isolamento em que o casal se encontrava na Muinha, partiu com a família para uma nova vida em Camacupa, onde se vem a fixar.

O isolamento era tão grande e os meios tão escassos, que quando se deslocavam em saídas da Muinha a mãe viajava de tipóia, com os filhos ao colo. Quem de vós não sabe o que é uma tipóia?

O Pai, esse ia de bicicleta.

Camacupa, naquela época já era considerada uma Vila com recursos.

A instalação da família em Camacupa, para a Mãe foi a ida para o paraíso, iniciando ali uma vida linda e inesquecível.

Esta mudança começou logo por sorrir à Mãe, pois ao lado da casa que foram habitar, vivia uma família numerosa: era a família Seca.

O senhor Seca, casado com a D. Ester tinham as filhas Bindinha, Pequenina, Céu, Nené e um filho Minito, que depressa se tornaram familiares e muito ajudaram a jovem mamã.

Aos poucos foram levando para a sua casa a Ildita, como logo passaram a chamá-la.

Esta passou a frequentar diariamente a casa dos amigos, onde encontrou amor e carinho. Para a Ildita, tudo era pouco e com gosto até vestiditos rendados lhe faziam.

A senhora D. Ester era sempre chamada por "a senhora" e o marido por Xeca.

Ainda o casal vivia nessa casa e que drama!!! A Ildita, ao andar no triciclo que era dos dois manos, não chegando com os pezitos aos pedais, o primo Lino ajudava a empurrá-lo. Azar...Um dos pezitos ficou entalado nos raios da roda. Que ferida feia ela fez e que tanto custou a tratar! Valeu a ajuda do senhor Serrano, farmacêutico da Vila. Todos os dias fazia o penso à ferida e certamente essas idas diárias iniciaram uma grande e duradoira amizade entre o casal Costa e o senhor Serrano e esposa Dr. Rosalina. Dessa ferida ainda perdura a cicatriz.

Em 1943, mais um rebento veio aumentar a família, em 21 de Outubro, de nome Armando José, carinhosamente tratado por Mandinho.

O casal via a sua vida a prosperar e a família a aumentar, não ficando pelos três filhos. A 23 de Agosto de 1946, nasceu mais um filho a que deram o nome de José Francisco. Ainda hoje é tratado por familiares e amigos por Zeca Costa.

É de realçar que os baptizados dos quatro filhos, bem como o casamento do casal foram celebrados pelo Padre Soares.

Ao longo destes anos a vida comercial não parava de crescer, constituindo algumas sociedades, a primeira delas com o senhor José Correia, que durou poucos anos. Esta sociedade denominada Correia & Costa, Lda., desfez-se com a ida do Sr. Correia para o Luso.

Após essa, formou nova sociedade com os irmãos António e Abílio Luís com a designação de A. Luís, Costa & Companhia. Alguns anos depois, saiu desta sociedade para se associar ao seu irmão Augusto, constituindo a empresa Costa & Irmão, Lda.

Para seu guarda-livros, convidaram o senhor Henrique Martins, que mais tarde veio a casar-se com a filha mais velha do irmão Augusto de nome Alda. Após a ida destes para o Lobito, passou este cargo a ser exercido pelo senhor Lima.

Toda esta vivência na terra que os viu nascer é pelos irmãos recordada sempre que se juntam.

Para frequentar a mesma Escola dos filhos mais velhos, veio para a casa dos seus tios a Maria Alzira, ilha da irmã mais velha da Mãe, a tia Maria José, em virtude de no Cuemba, onde residiam, não haver escola. A Zirita, como era conhecida, tornou-se para os primos, mais uma irmã.

Com que saudade e nostalgia relembra a Ilda:

Como recordo a casa onde nasci, cresci e até casei!

No quintal havia um limoeiro alto com os enormes galhos a rasarem o teto. Nas noites de vento acacimbado faziam uns barulhos que nos pareciam estranhos e ameaçadores, parecendo-nos dolorosos lamentos. Vocês lembram-se, manos, que nas noites mais ventosas eu corria para o vosso quarto, a pedir companhia?

Quantas vezes a Mãe foi dar connosco, ao cair da noite, junto à fogueira do guarda do armazém a comer do seu peixe seco, assado nas brasas! Que petisco!!! Só que a mãe não lhe achava graça.

A todas as nossas brincadeiras juntavam-se sempre a Helena e Amélia Marques. Eram filhas do casal Santos Marques, que vivia do outro lado da rua. Grandes amigos se tornaram da família a Sr.ª D. Maria Constança e o senhor Santos Marques, numa sã amizade que perdurou ao longo dos anos.

Recordo a época do descasque do milho no armazém, qual montanha, esperando pela tarara. Como era bom para nós subir pela montanha do milho e depois, qual escorrega, vir por ele abaixo.

De tudo se fazia uma brincadeira e tudo nos dava alegria.

Recordo ainda o podar das árvores na nossa rua. A nossa imaginação era fértil. Com os galhos ainda cobertos de bastantes folhas, fazíamos palhotas à volta dos troncos das árvores podadas Fazíamos espadas e com elas brincávamos, tal qual víamos nos filmes do Robin dos Bosques, ou, muitas vezes, de policias e ladrões. Com esses galhos o meu irmão Fernando teve a ideia de juntar uns quantos e mandar sentar neles o Armando, na altura com 4 ou 5 anos e vir a puxar pela rampa da estrada que ia da Estação do Caminho de Ferro até à casa dos pais. Nem os gritos aflitivos do irmão o faziam parar. O fundilho das calças do Armando é que ia ficando pelo caminho como resultado do pendor imaginativo do Fernando, a que se juntava também o primo Raul, filho do Tio António Albuquerque Sousa.

Em frente à casa onde vivíamos e fomos criados ficava a casa do Sr. José Martins, mais conhecido por "Cameia" e também grande amigo dos nossos pais. Tinha duas filhas, a Céu e a Talita. A mais velha, a Céu, não fez parte das nossas brincadeiras e cedo veio estudar para Portugal. A Talita era mais um elemento a acrescentar a tantos que se juntavam todas as tardes após as aulas. Depois do jantar, o Sr. Cameia ia sempre passar umas horas com os meus pais. Sentavam -se no banco de madeira que ficava junto à porta, falando dos seus problemas e alegrias. Nós bem gostávamos que a conversa não chegasse ao fim, porque enquanto eles falavam, nós brincávamos na rua, quase sempre às escondidas. Ao lado da nossa casa havia outra família amiga, a família da Clarisse. Além da mãe havia ainda a Leonor e a Raquel. A Leonor tinha duas filhas, Metize e a Nelinha e um filho, o Zinho. A Raquel, tinha duas filhas, a Rosário, a Zica e um filho, o Zé. A Nelinha e o irmão faziam parte do grupo de infância e adolescência do Armando e do Zeca.

Foram meus professores e do Fernando, o Senhor Baptista e a mulher D. Delfina, da primeira classe até à admissão ao liceu.

Após isso, saímos de Camacupa para estudar, primeiro em Benguela e depois em Silva Porto.

Em 1958, surgiram em Camacupa, a terra das raparigas bonitas e solteiras, como era conhecida, um grupo de funcionários de diversos serviços. Entre eles um bonitão morenaço, homem feito, que se apaixonou por mim, na altura com 17 anos. Era o Hernani Lage, tesoureiro de Fazenda. Conhecemo-nos a 13 de Maio, num baile das Festas do Delta e a partir daí a relação tornou-se mais forte, até que dois ou três meses depois, num passeio feito ao Colongo, onde residiam os tios Margarida e António, o namoro ficou decidido.

A 13 de Junho de 1959 celebrou-se o nosso casamento depois de ter sido pedida autorização ao pároco de Camacupa, o padre Dr. Armando, pelo Padre Soares, que além de nos ter baptizado, também casara os meus pais e que na altura residia na Missão do Jamba, por ele fundada.

Não poderei deixar de assinalar o nascimento da nossa muito querida e saudosa filha Meninha que ocorreu a 13 de Outubro de 1960. O parto foi feito pelo Dr. Diogo, ajudado pela D. Adelaide Cameia.

A Céu Cameia foi, depois dos meus pais, a primeira pessoa a vê-la, pois o meu marido nessa altura estava colocado em Teixeira de Sousa.

Muitos de vós, da geração dos meus irmãos, principalmente do Zeca, devem lembrar-se dela,  pois nas festas do Desportivo ela dançava o Rock com todos os amigos, tendo apenas dois anos de idade.

Partiu para o além deixando-nos um vazio inultrapassável, a 9 de Junho de 2001.

Uns anos mais tarde, em 9 de Agosto de 1967, nasceu o nosso segundo filho, o José Paulo de Sousa Costa Lage.

O meu marido, muito conhecido em Angola como jogador de futebol do Portugal de Benguela, campeão de Angola, ainda antes do nosso namoro foi convidado e aceitou treinar e jogar pelo Desportivo de Camacupa, tendo deixado de jogar logo após o nosso casamento. Também quero lembrar que a convite do Padre Armando, deu aulas de história ao 5° ano no Colégio fundado pelo referido Padre, tendo como alunos, entre outros, a Céu Moreira, a Néninha, o Zé Désirat e os irmãos Monteiro, de quem se recorda com muito carinho

Com tristeza e muita saudade recordamos a terra que nos viu nascer e que sempre pensamos ser a " Nossa Terra ".

Foi com muita alegria que saudamos a aparição deste " site" da Internet, que fará perdurar para sempre as nossas recordações.

Só quem conheceu aquelas terras de África é que sabe como aquele Sol aquece, aquela Lua ilumina mais e a terra vermelha cheira quando a chuva cai sobre ela.

Cheiro que jamais se esquece, o cheiro daquela terra molhada…

 

O historial da família Francisco Costa, descrito até aqui é um relato da filha Ilda (minha irmã) que me pede para prosseguir.

 

Do que foi descrito e que se refere à história da família, pouco tenho a acrescentar, pois do essencial, na ligação da família Costa a Camacupa, tudo foi dito.

Assim, sou eu agora, o filho mais velho, o Fernando, que vou tentar nestas escassas linhas recordar passagens da minha infância, da terra que me viu nascer (Camacupa), pois a partir dos meus 18 anos emigrei para Nova Lisboa, tendo ingressado nos quadros do Banco de Angola.

 

... Como o tempo passa!

 

Mas as recordações, as pessoas, os factos, permanecem na nossa imagem. Recordo com saudade os companheiros da Escola Bernardino Brochado ainda no edifício antigo, depois Câmara Municipal, onde eram mestres o Professor Baptista e a Professora Delfina, com os companheiros, Sá, Orlando Cruz, Zeca Monteiro, Toninho Serrano, Mário Campos, Raul Sousa, César Mateus, Fernando Flora, Eduardo Carvalho, Amândio Freitas, etc., etc. e as "miúdas" Magda Campos, Teresa Marques, minha irmã Ilda, minha prima Alzira, Nelita Martins, Talita, Fernanda Carvalho, Lurdes Marques, Adelaide Seixas, etc., etc., (que me desculpem aqueles que não referi, mas já lá vão uns anos).

Quem não recorda os memoráveis bailes do Desportivo e do Delta, quer nos respectivos clubes, quer nas memoráveis festas anuais, ou ainda no recinto de festas, ou no campo de ténis?

Quem desse tempo não se recorda do Sr. Côrtes e do Sr. Secundino Moreira a " cantarem" as pedras do quino (loto)?

E a Banda de Música da Cassequel, que vinha abrilhantar as festas?

E a rivalidade clubista entre os adeptos dos dois clubes de futebol? Era de tal maneira que o Pai

Chico Costa, quando eu me manifestei interessado em jogar no Delta, de quem era adversário, me deu um raspanete que quase me ameaçou de que me deserdaria. Tal raspanete não resultou: embora por pouco tempo, por ter ido para Nova Lisboa, ainda cheguei a alinhar no Delta, tendo sido companheiro do César Mateus, do Pica-pau, do Aurélio, do Leonel Bolota e do Raul de Sousa, sendo treinador o Sr. Fortes.

Quem da minha geração, não se lembra do que de bom nos foi dado naquela terra, da terra vermelha, do burgau, das mangueiras do Sr. Oliveira, das nespereiras do Sr. Désirat e o Bar do Sr. Campos, onde jogávamos aos matraquilhos?

E o dia do São Comboio, dos loengos, das matunduas e das lochas?

Recordo com profunda saudade o que de bom o meu pai me proporcionou na minha adolescência, nos poucos anos que permaneci em Camacupa, pondo-me ao corrente de muitas vicissitudes que a vida algumas vezes nos oferece.

Lembro o nosso motorista Rui Lopes, que me ensinou a guiar na "Internacional K7", teria eu pouco mais de 16 ou 17 anos. Lembro-me do nosso empregado José Pombo, nosso primo, que, mercê da sua habilidade, me ajudou a ser desenrascado na bricolage, tendo-me sido muito útil pela vida fora; os sobrinhos, os primos e muitos parentes que o Pai ajudou a serem homens, mandando ir de Portugal, para ali encontrarem o primeiro emprego e tornarem-se economicamente independentes, o que para além do mais contribuíram para o progresso daquela região.

Os meus irmãos Armando e Zeca, foram mais filhos da terra do que eu, pois passaram mais tempo da sua adolescência em Camacupa, enquanto eu, como já referi, aos 18 anos fui para fora da terra, tendo andado por várias localidades, como empregado do Banco de Angola.

Ao concluir estas linhas terei de admitir que muito fica por referir e recordar, tanto de bom como de mau.

De BOM, foi tudo que referi até 1974 e de Mau o que me obrigaram a viver depois dessa data.

Será necessário acrescentar mais alguma coisa?


    
Alberto Francisco Monteiro Fernando Guilherme Cardoso Gonçalves Isaura e Henrique de Paiva João Maria Fernandes João Mendes Baptista José Martins (Cameia) Júlia e Júlio Ribeiro Lídia e Fernando Barbêdo Manuel Coelho dos Santos Manuel José Côrtes Maria Adelaide e Ângelo Coelho Marinela Amaro e Zé Leitão Norberto Santos Marques Secundino Soares Moreira Tiago Costa Velhinha e Berto Campos José Désirat Francisco Costa Henrique Novais As Outras Famílias
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