Entrar domingo, 20 de Maio de 2012
 José Martins (Cameia)

BIOGRAFIA DA FAMÍLIA “CAMEIA”

por Maria do Céu Martins de Sousa

 

O meu pai José Martins nasceu em 13-03-1895 em Vales de Cardigos e foi para Angola em 1914 estabelecendo-se na Salumbinja povoação da área administrativa do posto da Gamba. Era um jovem de 18 anos ambicioso e com coragem para viver num ambiente rude e inóspito o Planalto Central de Angola – Bié, onde aconteciam as primeiras expedições Europeias – e onde só se chegava de tipóia, com muitos carregadores para transportar as “imbambas”, que vinham do litoral e prosseguiam para as terras do Luena em viagens de muitos meses. Deste modo fazia-se comércio e dava-se início à grande fixação de portugueses que se prolongou por décadas. Estas fixações faziam-se muito pelo entusiasmo suscitado nos conterrâneos da Metrópole que viam prosperar os chamados “ Africanistas “. Assim também o meu pai nos anos seguintes à sua fixação chamou muitos familiares e amigos que viajaram igualmente para o Planalto. Lembro: o primo António e a tia Conceição irmã do meu pai, os primos Francisco, Artur e Zé filhos da tia Palmira, o primo Amaro de Nova Sintra….

Na Salumbinja o meu pai fizera sociedade com o Sr. Adão Gonçalves e juntos pensaram mudar-se para Camacupa que prosperava graças ao CFB que servia a terra desde 1925. Por volta de 1932 o meu pai com 37 anos passou a viver em Camacupa estabelecendo-se a firma “ MARTINS & GONÇALVES que iria prosperar nos anos seguintes. Era uma firma de importação e exportação tendo alguns “ aviados” nas pequenas povoações limítrofes: Cambando, Quanza, Muinha, Bingondo e Chingue.

Construíram um grande armazém, uma loja e as residências familiares dos dois sócios tudo no mesmo quarteirão. Ao armazém chegava todos os dias grandes quantidades de produtos regionais (milho, arroz, feijão, mandioca, café, cera, etc.) trazidos pelos pequenos comerciantes que depois de venderem, iam à loja abastecer-se dos artigos que necessitavam: mercearias, materiais diversos, louças e fazendas várias (o caqui era muito apreciado).

Os negócios tinham um desenvolvimento tão grande que os dois sócios pensaram que deveriam investir na Indústria aproveitando as riquezas naturais da região: o arroz, o milho, o gergelim, o amendoim etc. Construíram a primeira fábrica de descasque de arroz a que se seguiram fábricas de extracção de óleo de gergelim e amendoim no Chinguar, Silva Porto e Benguela. Por último construíram em Camacupa a SIREL, fábrica de massas alimentícias e padaria em sociedade com a firma Joaquim Martins e o italiano Bianque. Junto ao rio Quanza a firma também tinha uma plantação de sisal e junto ao Alto Cuito possuíam uma serração de madeiras. Este progresso foi acompanhado por condições de vida cada vez melhores: a minha casa foi a primeira a ter luz eléctrica assim como água canalizada. A firma importou um Pakard considerado um luxo para a época e também tinha para serviço da firma várias carrinhas Chevrolet e camionetas. Muitos empregados trabalharam na nossa firma: o Sr. Júlio Ribeiro, o Sr. Isidro, o Sr. Carlos Alves o Sr. Luís Alves e lembro em particular o Sr. Manuel Cortes que tinha sido chamado pelo seu conterrâneo Sr. Adão tornando-se logo meu particular amigo e compadre: baptizei a Cilita e a minha irmã Talita baptizou a Neninha.

Além da dedicação ao progresso da firma julgo muito importante na história do meu pai o contributo dado ao desenvolvimento de Camacupa:

Em 27 de Fevereiro de 1937 foi criado simultaneamente o Concelho e a Junta Local de Camacupa com sede na povoação do mesmo nome, mas que anteriormente se chamara Catanganha e o meu pai foi designado 1º Presidente da Junta.

Com o prosseguimento da riqueza do concelho, e por diploma legislativo de 6 de Abril de 1949, do Governador Geral Agapito de Carvalho foi criada a Comissão Municipal, e o Concelho é elevado à categoria de 2ª Classe. Pelo mesmo diploma o meu pai é nomeado 1º Presidente da Comissão Municipal.

Com este estatuto favorável o meu pai ambiciona ter um funcionário habilitado e preparado para conduzir os trabalhos de infra-estruturas necessários a um urbanismo moderno: a instalação da água e luz, a abertura das vias e passeios, os jardins e praças, etc. Para contratar esse funcionário o meu pai deslocou-se ao Lobito e contactou o que viria a ser nosso compadre Sr. Secundino Moreira que à época dirigia obras no Porto do Lobito. Sei que o meu compadre aceitou o projecto de trabalho na Comissão Municipal, muito agradado pela pessoa do meu pai, tendo-se firmado uma amizade que perdurou.

Por ocasião da viagem do Presidente da República Craveiro Lopes a Angola, o meu pai foi agraciado com a Comenda da Ordem de Mérito Industrial tendo-lhe sido imposta a Condecoração pelo mesmo Presidente, na sua deslocação ao Bié.

A minha mãe Adelaide Balsa Martins nasceu em 13.05.1916 em Silva Porto e muito jovem ligou-se sentimentalmente ao meu pai, tendo eu nascido em 1.04.1935 e a minha irmã Natália em 2

22.12.1941 .Ainda criança saí de Camacupa para ir estudar no Colégio das Irmãs Doroteias em Sá da Bandeira. Viajava com as filhas do sócio do meu pai, a Lucília e a Alzira, uma viagem de mil quilómetros, quase sempre de carro mas que por vezes no tempo da chuva tinha de ser feita em avioneta (biscreve). Mais tarde fui estudar para Coimbra, o mesmo sucedendo com a minha irmã alguns anos mais tarde.

Entretanto o meu pai adoecera, e a Família deslocou-se a Portugal para tentar as melhoras da sua saúde mas infelizmente acabou por falecer em 1957. Nós regressámos e passados dois anos casei-me com João Baptista de Sousa que havia conhecido em virtude dele trabalhar para a firma. Em 1959 nasceu também em Camacupa o meu filho José João.

A minha irmã Talita casou-se em Camacupa com António Manuel de Barros no ano de1965 e em 1966 nasceu-lhe a 1ª filha, Maria Adelaide, o nome da nossa mãe, e em 1968 nasceu o António José.

Eu e a minha irmã fixámo-nos com as nossas famílias no Norte de Angola, no Uíje, mas continuando sempre a viajar para Camacupa para ver a nossa mãe e muitas pessoas amigas.

A minha mãe continuou em Camacupa, habitando uma casa que tínhamos no Bairro da Catabola, pois decidíramos alugar todo o edifício da firma às Forças Armadas Portuguesas que o transformaram em quartel.

Em 1975, como se sabe, tivemos que deixar Angola e a minha mãe passou a viver sempre comigo em Lisboa onde morreu em 16-01-2003.

Ao relembrar os factos mais marcantes da história que eu própria vivi sobressai um grande orgulho nos meus pais. E a certeza de que a acção desenvolvida pelo meu pai foi muito importante para o desenvolvimento duma região maravilhosa que nos era muito querida.


    
Alberto Francisco Monteiro Fernando Guilherme Cardoso Gonçalves Isaura e Henrique de Paiva João Maria Fernandes João Mendes Baptista José Martins (Cameia) Júlia e Júlio Ribeiro Lídia e Fernando Barbêdo Manuel Coelho dos Santos Manuel José Côrtes Maria Adelaide e Ângelo Coelho Marinela Amaro e Zé Leitão Norberto Santos Marques Secundino Soares Moreira Tiago Costa Velhinha e Berto Campos José Désirat Francisco Costa Henrique Novais As Outras Famílias
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