Ele era um jovem.
Tinha nascido num lindo lugar chamado APIÃO, freguesia de Paderne, concelho de Melgaço, filho de Manuel Côrtes e de Margarida Esteves. Depois dele, Manuel José Côrtes, nasceram mais duas irmãs, uma das quais faleceu, mas a mais nova, Noémia Côrtes, viria também a partir para Angola, onde fez grande parte da sua vida e onde nasceu um dos seus dois filhos.
O Manuel frequentou a escola na sua aldeia tendo sido sempre bom aluno e ajudou a sua mãe, que era padeira, no difícil trabalho da distribuição do pão por montes e vales, de madrugada, antes de ir para a escola. A vida era pobre e muito trabalhosa.
Terminada a instrução primária foi para o Porto trabalhar com o Pai, que era empregado conceituado de um dos conhecidíssimos cafés da cidade, o “Majestic”, que ainda hoje existe reconstruído e reclassificado e aí se manteve durante alguns anos.
Depois mudou-se de novo para mais perto da sua terra, da sua mãe e da sua namorada e começou a trabalhar no café Escondidinho, em Monção, que ainda lá se encontra.
A vida decorria alegre uns dias, atribulada outros, pois o ordenado era pequeno, o trabalho era árduo, as responsabilidades eram bastantes. Sonhava casar-se, constituir família, ter uma vida melhor, mas Portugal não oferecia grandes perspectivas, ainda por cima em tempo de guerra.
E lá trabalhava ele, o Manuel José Côrtes, com os seus vinte e poucos anos, no Café Escondidinho, em Monção, depois de ter sido electricista, empregado de bar no Porto e empregado de mesa nas Pedras Salgadas.
Certo dia, apareceu no Café Escondidinho um senhor vindo de Angola, que dava pelo nome de Adão Gonçalves. Conversaram, tornaram-se amigos e surgiu a proposta: porque não ir para Angola tentar uma vida melhor? Aceitou e começaram os preparativos.
Para as passagens conseguiu dinheiro emprestado por um amigo de Monção, o senhor Veloso, ao qual pagou logo que lhe foi possível, depois de ter chegado a Angola.
Quando regressou pela primeira vez a Monção, aquando da descolonização pediu-nos, a mim e ao Avantino, que o levássemos a casa desse amigo, para saber se ainda era vivo, ele ou algum familiar, com o fim de mostrar a sua gratidão. Encontramos uma filha!...
Foi então durante algum tempo trabalhar para um hotel nas Pedras Salgadas, como empregado de mesa, para ganhar mais algum dinheiro, a fim de conseguir o suficiente para melhorar o guarda-roupa e para outras despesas…
Ao fim de um ano recebeu a necessária carta de chamada do senhor Adão Gonçalves, um dos sócios da firma Martins & Gonçalves de Camacupa e partiu de navio para Angola em Abril de 1941, em plena 2ª Guerra Mundial, numa viagem que foi bem longa e atribulada e em que ainda recolheram diversos náufragos de navios afundados, deixando no Peso, perto de Melgaço, a sua namorada Amélia Isabel Côrtes, cheia de saudades.
Em Camacupa começou a trabalhar na firma Martins & Gonçalves, mais propriamente no armazém de cereais, que se situava na avenida principal, aquela que ficava paralela à linha do caminho de ferro e que muito mais tarde veio a pertencer ao senhor Adelino Gerardo.
Quanto trabalho, meu Deus! Às vezes, altas horas da noite, ainda estavam a carregar vagões do comboio de mercadorias, que transportava os cereais para o porto do Lobito e depois para o exterior.
Deste tempo tenho belas recordações! Adorava levar o pequeno-almoço ao meu pai e ficar a brincar nas pilhas de sacos que iam até ao tecto do armazém e imaginar-me a princesa, dona de um castelo, a fada, a rainha, sei lá o que mais… E o meu pai quantas vezes colaborava na brincadeira.
Enquanto solteiro, o meu pai vivia num quarto que ficava no quintal da mercearia do senhor Cunha “Cambuta” mais tarde do senhor Marmé, onde havia mais quartos ocupados por outros rapazes, como por exemplo o Freitas ou o Pimentel e a que chamavam “O Castelo”. Comia em casa dos patrões. Adorava as filhas deles: a Alzira e a Lucília, filhas do senhor Adão e D. Conceição e a Céu e Natália, filhas do senhor José Martins e D. Adelaide.
Passados quatro anos, casou por procuração com a namorada que tinha deixado no Peso e também ela se aventurou pelo oceano fora, chegando ao Lobito a 20 de Maio de 1945. Acabou a guerra ia ela em alto mar e ali mesmo fizeram uma grande festa.
Ao chegar ao Lobito esperava-a o meu pai, partiram no comboio-mala para Camacupa, mas terminaram a sua viagem em Nova Sintra, para evitar os “mirones” curiosos de saber se a noiva era bonita ou feia. Em Nova Sintra esperava-os a D. Conceição e o senhor Júlio Ribeiro.
A minha mãe nasceu no lugar de S. Martinho de Alvaredo, freguesia de Paderne, concelho de Melgaço, sendo filha de Eduardo Côrtes e Ludovina Fernandes. Eram quatro irmãos e ela era a terceira filha. Perdeu o pai com nove anos e por isso a vida não lhe foi fácil.
Aos 15 anos começou a trabalhar nas termas do Peso, Águas de Melgaço, primeiro na fonte nova e depois na fonte principal até aos 23 anos, altura em que casou com o meu pai e partiu para Angola já com 24 anos. Quiçá esteve menos visível, foi menos exuberante, mas sempre se manteve ao lado do meu pai, dando-lhe conselhos, ideias, quantas vezes fazendo o trabalho que ele não podia fazer, quando tinha outras ocupações, quantos “quimones” e panos ela coseu para as mulheres indígenas ganhando assim mais alguns tostões, quantas roupas costurou para mim e para os meus irmãos e para o meu pai e quanta lenha, carvão e cal vendeu para ajudar no negócio, quanto colaborou com o meu pai, quando ele organizava os concursos de pesca no Desportivo e era preciso alojar tanta gente que vinha concorrer nesses concursos, principalmente de Nova Lisboa, como por exemplo o senhor Ribeiro Cristóvão.
Enfim… quanto amor ela dedicou a Camacupa, que ainda hoje, com os seus 85 anos, ela chora e recorda com saudade a terra que diz ser a sua e onde gostaria de poder terminar os seus dias, junto de todos os que muito amou.
A primeira casa que os meus pais habitaram pertencia ao senhor Santos Marques e ficava no caminho para o Rio Júlio. Tinham por vizinhos o senhor Luís de Sousa e a esposa D. Idalina. Ficaram aí pouco tempo e logo depois se mudaram para outra casa do senhor Cunha “Cambuta”, que fazia esquina junto ao Hotel Oliveira, onde depois foi a União Nacional e aí nasci eu, numa bela terça-feira de Carnaval em Março de 1946. Passado algum tempo mudámo-nos para a primeira casa que o meu pai construiu, aquela onde morou depois o fotógrafo Patrício e aí vivi até aos meus 5 anos. Como eu adorei sempre essa casa! Tinha por vizinhos a Júlia e o Júlio Ribeiro, talvez os melhores amigos de sempre!
Depois os meus pais compraram a casa do Bairro da Catabola. Velhinha, em bastante mau estado, mas o meu pai precisava de alugar a primeira e lá fomos nós de mudança…
Aqui nasceram a Neninha em Agosto de 1951 e o Zé em Maio de 1959. A casa, aos poucos tomou forma e tornou-se maravilhosa!
Belos anos aqui passámos! Tínhamos um quintalão com árvores de fruto, mangueiras enormes, cafezal, cabras, coelhos, galinhas, porcos, pombos… era uma quinta.
Tudo na vida muda, como dizia Lavoisier, e de novo nos mudámos e desta vez para a Vila para a casa que era dos Agostinhos, depois para junto do campo de futebol (estas casas eram alugadas) e por fim para uma casa nossa, junto da Administração do Concelho, onde os meus pais e o Zé viveram até 1975. Contudo, neste espaço de tempo, o meu pai foi construindo outras casas que dizia serem a sua reforma na velhice.
Entretanto todos crescemos e todos tomamos rumo: eu casei com o Avantino em Camacupa em 1968 e tivemos uma filha, a Sandra; a Neninha casou com o Zé Maduro (que foi furriel em Camacupa) em Boticas em 1975 e tiveram uma filha, a Daniela; O Zé casou com a Luzia Cunha em Lisboa em 1999 e não têm filhos.
Voltando atrás, poderei dizer que durante muitos anos, o meu pai foi fiel empregado da firma Martins & Gonçalves, mas esta veio a falir e ele teve de mudar de vida. Comprou um negócio de materiais de construção ao senhor Faria, mas caso curioso, pagou-o à firma Martins & Gonçalves, para saldar uma dívida do senhor Faria a esta firma. Foi um acordo entre as três partes.
O negócio progrediu, graças a Deus e o meu pai conseguiu singrar, deixando em Camacupa muitos bens na altura do “regresso” a Portugal, fruto de uma vida inteira de trabalho e sacrifício, não só dele, mas também da minha mãe, que sempre o ajudou, quando trabalhou por conta própria e quando era empregado, época em que ganhava muito pouco e ela se dedicava à criação de galinhas cabras e porcos que vendia, para engordar o orçamento familiar.
Foi nessa altura que estudei no Colégio de Nossa Senhora da Paz em Silva Porto e tirei o Curso do Magistério na Escola de Lisboa, com grandes sacrifícios deles.
Depois foi a vez da minha irmã Neninha e um pouco mais tarde do meu irmão Zé terem também estudado, ambos no Liceu Infante D. Henrique, ela também no Colégio de Nª Sª da Paz e depois em Lisboa e ele terminando em Lisboa com uma passagem pelo Liceu de Chaves. Licenciaram-se, respectivamente em Filologia Germânica e Ciências Pedagógicas e ele em Técnico Oficial de Contas.
A vida profissional do meu pai corria, felizmente, de vento em popa e cada vez mais se interessava pelo desenvolvimento harmonioso da sua terra; é, nesta altura, que faz algumas incursões pela política, a política autárquica.
Como ele amava aquela terra!
Muitas vezes foi vereador da Câmara e “lutava” com “unhas e dentes” pelos interesses de Camacupa. Tardes e tardes inteiras passou-as em reuniões na Câmara, com o camião e os empregados parados à porta, para ele ajudar a resolver os problemas da terra, esquecendo-se que estava a deixar de ganhar dinheiro.
A Luanda foi várias vezes com o senhor presidente Bolota, pela eleição do qual ele fez campanha renhida, contra o administrador Geirinhas, que era o outro concorrente.
Nestas viagens, em que também participaram os Senhores Rogeiro e Figueiredo Pinto, o senhor Bolota pedia ao meu pai que fosse o transmissor de todos os assuntos junto do Governador Geral, pois apreciava muito a facilidade de expressão e comunicação que ele tinha e lá conseguiram obter para Camacupa benefícios tão importantes como: redes de água e electricidade, asfaltagem, barragem do Cunje e o tão precioso Liceu Infante D. Henrique que foi herança do Colégio com o mesmo nome, pertença do Bispado e cuja venda ao Governo foi negociada entre o meu pai e o Senhor Bispo.
Foi também membro da Junta Distrital do Bié e todos os meses reunia com o Governador do Distrito, sempre defendendo os interesses de Camacupa. Conta a minha mãe que certa vez, numa das reuniões, o meu pai perdeu um botão do casaco e dias depois o Governador enviou-lho pelo correio. Isto mostra a amizade e a atenção que nutria por ele.
Foi várias vezes presidente da Associação Beneficente e Recreativa de General Machado – O DESPORTIVO DE CAMACUPA, ao qual dedicou muito do seu tempo, do seu dinheiro, dos seus empregados, do seu amor. E quem não se lembra do Manel Côrtes na extracção dos quinos nas festas do Desportivo, sempre alegre, sempre com uma graça e fazendo-o de uma forma que ninguém conseguiu igualar?
Colaborou também na Conferência Vicentina e na Casa dos Rapazes ao lado do seu grande amigo Secundino Moreira.
Terminou os seus dias em Lisboa no dia 3 de Novembro de 1999, com 82 anos, sempre pensando em Camacupa, dia após dia, com a esperança de lá poder voltar, recordando cada pormenor, cada detalhe daquela terra e continuando a amar Angola – CAMACUPA, a terra que nos viu nascer e crescer.