Biografia da Amélia Marques e Família - Por Maria Amélia Marques
Nasci numa vila, cujo nome indígena era e é Camacupa.
Da minha infância não tenho grandes recordações. Lembro-me que tinha uma «ama-seca» que se chamava Casimira. Lembro-me, talvez porque mo tivessem dito, que como dormia pouco, o meu pai, que por sua vez tinha insónias, aturava-me, pois eu cantava e ele distraía-me. Quando o sol raiava, a minha Mãe chamava a Casimira para tomar conta de mim.
Tenho o maior respeito pelo meu pai. Ele faleceu em 1975, quando foi a independência de Angola. Foi para lá com 17 anos, depois de concluir o curso comercial.
Os pais eram agricultores. O pai morreu e a mãe teve de arcar com a responsabilidade de criar 5 filhos e cuidar e administrar os terrenos. Mulher de fibra. O Norberto, meu pai, foi o único que procurou aventura e futuro nas terras de Angola. Foi directamente para o Lobito, onde começou a trabalhar no comércio, mas, depois resolveu candidatar-se a um concurso para administrativo. Entretanto foi-lhe proposto um bom lugar numa loja de um indivíduo de Catumbela e ele resolveu aceitar. Antes disso, teve uma relação com uma pessoa de quem teve um filho – o Luís. A mãe do Luís registou-o como sendo filho de pai incógnito. O meu pai não gostou e resolveu legitimar o Luís que passou a viver com ele. Nessa altura pensou voltar à «Metrópole» a convite do irmão Eduardo que lhe prometeu sociedade, mas a mãe escreveu-lhe, pedindo-lhe para não levar companhia. Teria de deixar o Luís, para trás. O seu companheiro. O meu pai desistiu.
Entretanto o tal senhor de Catumbela deu-lhe a gerência de uma loja em Camacupa. O meu pai aceitou. Cedo resolveu estabelecer-se por conta própria, como comerciante. Era uma pessoa de poucas falas, mas muito conhecedor de tudo. Lia muito. Lembro-me que quando eu já estava na faculdade de letras e me punha a dissertar sobre os dramaturgos e os filósofos gregos, o meu pai acrescentava sempre qualquer coisa. Falava em Literatura portuguesa, inglesa e alemã e ele também não desconhecia. Eu ficava tão surpreendida! Como era possível?! Compreendi então o significado exacto da palavra autodidacta. Não havia livro que lhe escapasse.
A minha mãe era e é uma pessoa linda a meus olhos. Também me orgulho muito dela. Suponho que tenha sido disléxica pois só aprendeu a ler aos 10 anos. Leu então por acaso, uma frase escrita algures e, desde aí, não parou. Adora livros históricos. Tem neste momento 87 anos e os olhos cansados de ler. Quando o cansaço a invade, fecha os olhos e entrega-se à música clássica e à ópera. Filha de um oficial do exército, oriundo de Santarém, também teve uma vida regradíssima. O epicentro daquela família era a minha avó Miquelina, nascida em Loulé, mas residente em Lisboa, que, alegando que sofria do coração, tinha muitos chiliques.
Eu gostava muito da minha avó. Pedia-lhe com insistência que me deixasse dormir com ela. No dia seguinte tomava em casa deles o meu pequeno-almoço favorito no meio de lamentações da avó que afirmava que eu tinha um mau dormir e que ela não conseguia repousar quando eu lá ia.
O meu avô, natural de Santarém, em jovem esteve no Brasil e consta que foi um dos fundadores do Clube Vasco da Gama. Voltou para Lisboa, onde casou com a minha Avó, natural de Loulé. Inscreveu-se no serviço militar tendo tido muitos dissabores aquando da implantação da República. Chegou a estar preso no Castelo de S. Jorge. Posteriormente, como militar, esteve a cumprir serviço em Macau e S. Tomé, até que veio para Angola. Foi na fortaleza de S. Miguel que a minha mãe nasceu. A minha Avó chegou a dar aulas aos reclusos da fortaleza. Depois voltou à Metrópole e em seguida foi para S. Tomé. Tornou a Angola., sendo as filhas mais velhas já casadoiras.
Casou a mais velha, a minha tia Florinda, com um administrativo (Manuel Monteiro Alves, que veio a ser muito mais tarde, administrador de Camacupa). Depois, a minha tia Virgínia com um enfermeiro, Alfredo Reis, que foi colocado em Camacupa. Assim, os meus avós iam visitá-los com frequência e decidiram ficar a residir em Camacupa.
Um dia, a minha mãe, de 16 aninhos, estando num baile, perguntou ao seu par, um indivíduo chamado Lorena, quem era o célebre Santos Marques. O Lorena encaminhou-a para o meu pai e… foi amor à primeira vista. O meu pai dançou com ela durante todo o baile. Na altura o meu pai tinha 30 anos.
Casaram e a minha mãe, com 17 aninhos, teve a minha irmã mais velha, Emília. E poucos anos depois a Helena. Entre as duas nasceu a minha irmã Teresinha que, com apenas dois aninhos, faleceu. O desgosto foi enorme. Nessa altura estava grávida da Helena. Esse desgosto repetiu-se quando, depois de eu nascer, a minha mãe teve um menino que cedo também faleceu.
Os meus pais começaram por viver no saparalo (designação dada às casas com 1º andar), onde os Coelho dos Santos posteriormente moraram, e só anos mais tarde foram para a casa onde nasci e onde vivemos até sair de Angola.
Eu nasci em 1944, com o fim da guerra que nunca senti naquela terra distante.
Era muito endiabrada. Lembro-me que uma vez o meu pai tinha ido a Luanda em negócios e a minha mãe se sentiu muito mal. Então mandou chamar uma vizinha: D. Maria dos Anjos Cunha, para lhe dar apoio. A senhora veio para junto dela e eu, com 5 anos, fui entregue à ama-seca da Celeste, filha mais nova da Sr.ª D. Maria dos Anjos.
A ama-seca levou-nos para o recinto das festas do Desportivo, um clube que se chamava pomposamente «Associação Beneficente e Recreativa de General Machado». Entretanto levou-nos para uma pequena divisória com uma fogueira pertencente ao guarda das festas e deixou-me lá sozinha, pois ia buscar uns brinquedos a casa. Aquela fogueira encantou-me. As brasas vermelhinhas brilhantes. Uma pequena chama tremeluzia em jeitos de se apagar. Peguei num caniço e encostei-o à fogueirinha inocente. O caniço pegou fogo. Parecia magia. Encostei o caniço ao colmo que cobria a divisória e tudo se transformou em chama. Tive uma relativa noção de perigo e corri para casa, metendo-me debaixo da cama, esclarecendo que as festas estavam a arder. A minha mãe, doente, perguntou, afirmando: Foste tu!!!???? Neguei, neguei, neguei, mas não saí de debaixo da cama. À noite o meu pai chegou. Aguardei a sentença e, talvez, a tortura de um grande sopapo ou de um pontapé. O meu pai não fez nada. Saí do meu refúgio. Aproximei-me a medo dele. Perguntei-lhe se me ia bater. Negou e explicou que uma criança da minha idade não podia ser responsabilizada. O meu respeito pelo meu pai aumentou.
Noutra ausência do meu pai, a minha irmã Helena estava a andar num baloiço, pendurado pelo meu pai no ramo de uma árvore, à porta de casa. Estava com amigas. Ela era mais velha. Senti que tinha mais poder. No entanto pedi-lhe que me deixasse andar de baloiço. Negou. Armada em esperta, dirigi-me a uma bomba de gasolina que o meu pai tinha à porta da loja, sentei-me o mais confortavelmente que podia na mangueira e dei o meu impulso para baloiçar!!! Qual não foi a minha surpresa quando senti a bomba em cima de mim e também a pancada da bengala que o meu avô me deu.
Lembro-me que o meu avô tinha imensos caderninhos de papel azul onde escrevia os seus poemas. Dedicou um à minha irmã Helena. Ela memorizou-o. Embora me tenha preocupado em recuperar os tais caderninhos, ninguém da minha família sabe onde foram parar depois da sua morte.
Também me lembro que eu e a minha irmã Helena costumávamos falar com o código dos “ps” para o meu avô não perceber e ele desatava numa algaraviada que eu pensava que era chinês.
Nunca mostrou grande afecto por mim. Era demasiado traquina. Contudo, nunca protestava quando eu dizia que queria dormir com a minha avó. Adorava fazê-lo. O colchão era tão fofo! No dia seguinte a minha Avó preparava-me sempre uma chávena grande de leite com chocolate. Que bom! Dizia-me sempre que era a última noite que dormia lá (eu não parava nem a dormir), mas condescendia logo de seguida. Eu admirava-a muito. Fazia quebra-cabeças que ainda hoje me interrogo como conseguia. Tudo no almanaque Bertrand. Fazia sempre o “salto de cavalo” que consistia em ligar sílabas por forma a construir um verso e depois uma estrofe de um poeta conhecido. Nunca a vi a costurar ou a tricotar. Via-a sempre com o almanaque, embora a minha mãe me tenha dito que havia sido ela quem lhe tinha ensinado os segredos da costura, que me foram bem úteis mais tarde quando fui para o colégio.
Era uma guerra. As freiras baixavam-me as bainhas das fardas e eu levantava-as. Sistematicamente!!!!
Voltando a Camacupa: as crianças podiam brincar na rua: não havia perigos, não havia trânsito. Lembro-me que quando chegava a altura de as árvores serem podadas, a pequenada pegava nos ramos e dispunha-os encostados ao tronco fazendo pequenas cubatas a que chamávamos chingues. Era uma brincadeira pegada, brincávamos aos reis e rainhas e eu lembro-me que queria sempre ser a rainha-mãe.
Ou então brincávamos aos polícias e ladrões, querendo todos ser ladrões. Também corríamos desenfreados, até doer o baço, em redor do quarteirão onde o Sr. José Martins (Cameia) tinha a loja, transformada em quartel quando os militares foram para Camacupa durante a guerra colonial.
Outra das brincadeiras que me lembro é das récitas que fazíamos na casa dos Costa. O Armando e o Zeca montavam o espectáculo. Eu era uma das artistas que cantava umas espanholadas. A entrada era paga com selos usados. Todos faziam colecção de selos. Essas récitas eram muito populares e a miudagem vinha toda. Nessa garagem aprendi a não ter medo de ratos. Havia lá uma ninhada, cujo desenvolvimento acompanhei enchendo-os de mimos. Estranhava como os ratos recém nascidos podiam ser cor-de-rosa.
Num dia destes durante o funeral de um amigo, Titito Maneco, a mãe confessou-me que os filhos tinham medo de passar na minha rua porque eu lhes batia. Arrepiei-me, mas não me lembro.
Recordo-me de, quando morria alguém, a criançada ficava a olhar para o céu, tentando ver a alma a passar. Depois, enquanto ouvíamos muitas histórias de almas penadas, conjecturávamos se aquela alma não teria ido para o inferno, pois nós não a tínhamos visto.
Uma das rotinas lá de casa, em Camacupa, era jantar às 7 horas da noite e, seguidamente, dar um passeio pela vila. Todos. Aprendi a dormir a caminhar. Chegávamos a casa e tínhamos de ouvir música clássica ou ópera da Emissora Nacional, enquanto líamos.
Só podíamos ler a seguir ao almoço, impreterivelmente ao meio-dia. Depois tínhamos de ouvir em silêncio as notícias da Rádio Brazaville ou da BBC. Depois conversávamos um pouco sobre o que ouvíamos e o meu pai ia dormir a sesta até às 2 horas. Ninguém podia fazer barulho. Nós entretanto deitávamo-nos e líamos. Era a nossa hora da leitura. Todas gostávamos de o fazer. Claro que à frente do meu pai e da minha mãe lia as obras por eles recomendadas, mas, à noite, quando ia para a cama tirava os romances da Corin Tellado e sonhava com o príncipe encantado. Também me lembro de outros livros aprovados pela minha Mãe: os da colecção azul, de Max du Veuzit, nem sei se é assim que se escreve, mas «O John, Chaufer russo», foi lido e relido.
Levantávamo-nos às 7 horas, às 7H30 tínhamos de estar arranjadas para tomar o pequeno almoço, fazíamos a cama, arrumávamos o nosso quarto e íamos ajudar a minha mãe já nem sei em quê, porque trabalhavam na nossa casa uma série de empregados, o criado da casa, o cozinheiro, a lavadeira de fora, a lavadeira de casa, o empregado do quintal e o motorista.
Sempre pensei que aquela rotina militar partisse da autoridade do meu pai. Afinal era a minha mãe a generala. Tornou-nos verdadeiras cronopatas.
Natal em Camacupa! Na minha casa não havia pinheiro, nem presépio, nem pai Natal (O meu pai era ateu). Havia um jantar especial com os amigos. Comíamos cabrito assado, bacalhau, leitão assado e montes de doces de Natal.
Íamos cedo para a cama, pois o Menino Jesus só trazia presentes no dia seguinte, segundo a minha Mãe. Mal dormíamos, de ouvido alerta para nos apercebermos de todos os movimentos na casa. No dia seguinte, ainda o sol não tinha nascido já corríamos para os nossos sapatinhos que deixávamos à porta do quarto dos meus pais.
Era uma excitação, embora os brinquedos nem de longe se assemelhassem aos de agora. Não me lembro de brinquedo nenhum especial, mas lembro-me de ir com os ditos cujos para o passeio dos Armando e Zeca Costa brincar com eles.
Depois de crescermos e deixarmos de acreditar nas pegadas do Menino Jesus no nosso quintal, em vez de irmos cedo para a cama, preparávamo-nos para ir à Missa do Galo. Depois passeávamos pelas ruas de Camacupa. Tínhamos sempre de passar em frente do quintal do Marmé que tinha uns cães que nos ladravam imenso.
O meu pai nunca nos mimou com muitos presentes. Das suas viagens trazia-nos por vezes presentes: ou uma caixa de chocolates “Cadbury” ou um animal. Tivemos um papagaio, um javali, muitos periquitos, um macaco…. E as javas!!!!!!!
As javas eram terríveis! Bravas que só visto! Tínhamos duas. Não nos atrevíamos a aproximar-nos delas! Só não atacavam a minha Mãe. Contudo, uma vez a minha mãe foi para a missa e o portão do quintal ficou aberto. Ela ia “mais produzida” do que quando ia ao quintal! As javas viram-na passar, não a deviam ter reconhecido e atacaram-na.
Outra vez, a Metize, a Natália Figueiredo, eu e não sei quem mais, já adolescentes, vimos as javas a correr na nossa direcção! Corremos tanto que demos uma volta ao quarteirão sendo sempre perseguidas. Quando passámos outra vez pela nossa casa, metemo-nos na varanda e despistámo-las! Que risota!!!! Cansei-me mais por me rir do que por correr!
E assim o tempo ia passando...
A minha irmã Emília foi para o Colégio de Nossa Senhora da Paz em Silva Porto. Regime de internato. Fez lá o 5º Ano e, depois, foi para Sá da Bandeira para fazer os 6º e 7º anos. Aí conheceu o meu cunhado Orlando.
Vieram estudar Medicina para Lisboa. Casaram. Tiveram 3 filhos. A menina, Orlanda, morreu num acidente de automóvel quando tinha 18 anos. Têm dois filhos e cinco netos.
O meu irmão Luís era o colaborador do meu pai, que nutria por ele um grande afecto! Provavelmente o meu irmão nunca soube quanto o pai o amava. Casou com a Madalena! Nunca mais a vi, embora tenha visto já as minhas sobrinhas que ficaram em Angola.
O meu irmão teve um acidente de automóvel e teve de ser internado num hospital Trataram-no, mas ele não contou que tinha uma úlcera gástrica. Com os tratamentos acabou por ter o rompimento da úlcera e acabou por morrer! Eu já estava cá em Lisboa, mas conta a minha irmã Emília que o meu pai ficou inconsolável! O meu querido pai morreu seis meses depois com um ataque cardíaco! Seis meses depois! Seria ainda a dor de ter perdido o único filho? Teria sido pelo facto de já se ter declarado a independência de Angola e de lhe terem faltado ao respeito? Perdemo-lo. Só isso! Foi para o cemitério de Camacupa. Muitas vezes a minha Mãe tremia pensando que as campas poderiam ter sido vandalizadas. Uma notícia recente tranquilizou-a. O cemitério havia ficado intacto.
A Helena tirou o curso de Magistério Primário em Lisboa e ainda foi directora da Escola Primária de Camacupa. Veio para Lisboa mas nunca mais exerceu. Tem 3 filhos e três netos.
Da minha passagem pelo Colégio tenho muitas recordações, mas, reportando-me a Camacupa, não posso esquecer a importância do Caminho-de-Ferro de Benguela nas nossas vidas. Adorávamos apanhar o comboio para Silva Porto e o regresso a Camacupa ainda era melhor. Esperava-nos a pouca liberdade: o mesmo regime rígido de todos os dias, mas às 5 horas da tarde íamos passear, dando voltas aos quarteirões mais próximos. Às terças-feiras e aos sábados fazíamos picadeiro à frente do comboio mala, às quartas-feiras e aos Sábados íamos ao cinema e ao Domingo tínhamos matinée dançante!!!!!! Que óptimo!
Nas férias grandes íamos passar um mês a Luanda onde viviam familiares nossos.
Eu, Amélia, vim para Lisboa estudar em 1962. Só voltei a Angola para passar férias enquanto estava a estudar. Vivo em Lisboa desde então. Fui professora de Inglês no ensino oficial até 2001. Aposentei-me. Adorei a minha profissão mas já estou cansei-me. Porém, como não me conseguia imaginar sem trabalho, passei a dar aulas numa Universidade Sénior em Algés, como voluntária. Sinto-me muito bem ali. Tenho também lições de Espanhol e de Filosofia.
Tenho uma filha Sofia Marques de Andrade Neves e uma neta Bárbara Marques Neves que vivem comigo e são a alegria dos meus olhos.