No seu quarto, mesmo em frente à cama, há um quadro com uma paisagem africana, um pôr-do-sol magnífico, daqueles que, diz, «só se consegue ver em África». É para ele que olha quando adormece; é para ele que olha quando acorda. Há como que um desejo consciente de se enganar, de enganar a sua razão e de poder imaginar que está de volta ao lugar onde viveu mais de 30 anos, onde aprendeu a viver e a trabalhar, onde aprendeu a sonhar e a amar, onde aprendeu a ser homem: Angola.
Avantino Moreira, é assim que se chama. Herdou o nome de um tio, que também foi para Angola muito jovem, Padre Missionário e que também por lá viveu quase toda a sua vida, dedicando-se à construção de missões e ao estudo dos costumes e tradições dos povos angolanos.
Avantino não nasceu em Angola, mas foi para lá com nove meses de idade e lá, mais do que em qualquer outro lugar do mundo, é a sua terra. Por isso, aprendeu a comunicar com os povos nativos desse grande país africano, situado na região oeste a sul do Equador, que faz fronteira com a República Democrática do Congo, a Zâmbia e a Namíbia.
Fala da existência de muitos dialectos, mas também diz que há dois que aglutinam mais falantes e que têm uma importância maior: o Umbundo, falado no Planalto Central angolano (numa região com duas províncias, o Bié e o Huambo, cujas capitais são Cuito e Huambo) e o Quimbundo, falado na zona litoral norte, junto da capital, a cidade de Luanda. Estes dois dialectos são de origem Bantu, um povo vindo do norte, provavelmente da região dos Camarões, ainda na Idade do Ferro e cujos cruzamentos, ao longo dos séculos, originaram aproximadamente 500 povos diferentes. Os dialectos Bantu são ainda em maior número do que os povos Bantu e todos eles têm muitas semelhanças, de tal forma, que os povos que os falam conseguem, com alguma facilidade, entender-se. Os próprios navegadores portugueses da época dos Descobrimentos relatam casos de angolanos que, levados até à costa oriental de África, conseguiram comunicar com os povos que aí viviam.
Mas há muitos outros. Cada um corresponde a um grupo social específico, com diferentes formas de se vestir, de construir as suas habitações, diferentes actividades económicas (uns mais agrícolas, outros mais ligados à pastorícia), diferentes tradições: os Lutchazes, os Quiocos, os Ganguelas, os Kuanhamas, os Mucancalas, os Luimbes, os Ovimbundos, os Muilas e os Bosquimanos ou Bochiman, entre outros.
Este último povo tornou-se famoso depois de se fazer o filme "Os Deuses devem estar loucos". O protagonista era membro desta tribo, que tem um dialecto muito complexo: recorre a estalidos feitos pela língua no céu-da-boca e é dos poucos que, se não se for membro da tribo, dificilmente se compreende. Os Bosquimanos são pastores nómadas e vivem no sul de Angola, junto ao deserto do Namibe (o Kalahari). Avantino lembra-se de os ver e ficar fascinado pela sua estranha forma de falar, pois também morou nessa região do país durante algum tempo, mas nunca conseguiu comunicar com eles.
Não foi na escola que aprendeu o Umbundo (o dialecto que realmente conhece e domina), porque estes dialectos não se estudavam. Razões, duas: o Português era língua oficial, uma vez que Angola era uma colónia deste país, desde 1482 (altura em que Diogo Cão aí chegou pela primeira vez) e os povos nativos foram assimilando este idioma (ainda hoje, e Angola já é um país independente há mais de 25 anos, o Português continua a ser a língua oficial); não existem estudos suficientes para se poder definir uma forma escrita para estes dialectos, embora muitos linguistas e estudiosos as tenham investigado.
Foi o caso do Padre Avantino, o tal tio de quem ele herdou o nome. Durante três anos estudou o Umbundo a fundo e elaborou uma gramática que deixou à sua Congregação, os Missionários do Espírito Santo, para que quem fosse para as missões pudesse mais facilmente comunicar com os nativos.
Aliás, se foram essencialmente os missionários que se dedicaram ao estudos destes dialectos, foram os comerciantes de origem portuguesa quem mais aprendeu a falá-los, o que é natural, pois contactavam com todos eles, nas suas viagens para zonas mais isoladas e na sua vida diária. No entanto, por norma, quase todas as pessoas de origem portuguesa sabiam algo de pelo menos um destes dialectos, quanto mais não fosse, aquelas palavras "menos bonitas" que todas as pessoas aprendem em qualquer língua!...
Avantino conta que até a Avó Margarida (Avó da sua mulher, uma senhora idosa, natural do norte de Portugal que acompanhou o filho na sua ida para África) usava o Umbundo, embora à vezes não o conseguisse fazer da melhor maneira: «Um dia, ela estava em casa a cozinhar e queria fazer pirão (um prato tradicional angolano, feito com farinha de milho e/ou mandioca, água e sal, que serve para acompanhar carne ou peixe guisados). Para isso precisava de um "Luico", uma espécie de colher de pau, nas sem a concavidade, direitinha. Pediu, então ao empregado: "- Dá cá o Tchicusso!" O rapaz não se mexeu! Estava cheio de medo e a Avó Margarida zangada! É que "Tchicusso" quer dizer murro!»
Há 26 anos que Avantino saiu de África, de Angola, fugindo da guerra e das convulsões sociais do período pós-independência. Reconstruiu a sua vida do zero em Portugal e procurou o Algarve por ter um clima mais ameno e por pensar poder trabalhar na investigação agrícola de espécies subtropicais, a sua especialidade, enquanto Engenheiro Agrónomo.
Mas África está-lhe nos olhos e na voz mais suave, quase como veludo, quando conta as histórias «desse tempo, tão longe, que já não volta mais». África está nas músicas que ensinou «aos seus rapazes» nos Escoteiros - «Eniakueto tui oleli, eniakueto.........». África está na "balalaica" (camisa larga, tradicionalmente usada pelos africanos) que veste quando faz calor. África está na "muamba" (prato tradicional angolano) picante, que cozinha como ninguém. Quase não sei se podemos dizer que "editucassi otupopia ovitaeto ocubangula" (as línguas são a nossa vida). Mas podemos dizer, com certeza, que África é a vida dele.