Entrar domingo, 20 de Maio de 2012
 Secundino Soares Moreira

Biografia da Família de Secundino Soares Moreira - por Céu Matos

 

É surpreendente como a história da minha família, que está na minha memória, aconteceu porque o meu pai tomou uma decisão num determinado momento da sua vida que fez com que ficássemos para sempre ligados a Camacupa.

Tudo começou quando um dia nos idos de 1949, o meu pai Secundino Moreira aceitou uma proposta de trabalho na recém criada Comissão Municipal de Camacupa. A proposta tinha-lhe sido feita pelo Presidente da Comissão Sr. José Martins (Cameia) que era um abastado comerciante agraciado com uma Comenda da República (Mérito Industrial) pelos serviços prestados e pelas viagens de exploração do planalto central. Porque ele era uma pessoa que queria o desenvolvimento e progresso da Vila sabia que era necessário um Construtor Civil que dirigisse os trabalhos de infra-estruturas para saneamento, condutas de água, arruamentos, passeios, embelezamento de jardins, construções diversas (edifício da Câmara Municipal, Igreja Paroquial, edifício do hotel do Figueiredo Pinto, edifício do Adelino Gerardo (VOCATI), residência do José Martins “Cameia”, reestruturação do Hotel Oliveira, edifício onde estava a Fazenda Nacional “prédio Novo Mundo”, reconstrução da sede da Associação Beneficente e Recreativa de General Machado “Desportivo”, etc., etc..

Sei que o meu pai aceitou a proposta num dia e no outro partiu para Camacupa.

O meu pai havia viajado para Angola com uma Carta de Chamada do meu tio Padre Avantino para trabalhar nas obras de construção do porto do Lobito.

Partiu em 1945 e quando passava o Equador soube que havia acabado a 2ª Guerra.

Partiu sozinho deixando a minha mãe e o meu irmão Avantino quase bebé na companhia dos meus avós maternos. Depois de chegar ao Lobito e tendo criado condições chamou a família, saudoso que estava. Durante os quatro anos que trabalhou no Lobito fez casa própria e nasceu-lhes o filho José Manuel. Depois parte para o Huambo chamado pelo Sr. Padre Rafael para executar mais obras na Vila Nova. Foi aqui que o procurou o Presidente Martins com a hipótese “ Camacupa “. Emocionalmente os meus pais estavam muito abalados pela morte repentina do meu irmão Zézinho e a minha mãe com gravidez adiantada esperava o meu nascimento. Acabei por nascer em Fevereiro de 1950 e com quinze dias apenas o meu pai foi buscar-nos aos três e tomou a decisão de me registar na Missão da Chitalera como natural de Camacupa. Também o Sr. Martins ficou para sempre ligado à minha família porque os meus pais o convidaram para ser meu padrinho e à sua filha Maria do Céu, que me deu o nome, para ser minha madrinha.

Instalados na vila, a vida dos meus pais passou por uma época normal, nasceu-lhes em 1951 a minha irmã Glória, a minha mãe venceu uma meningite e foram tempos de cimentar grandes amizades com pessoas e vizinhos muito especiais: D. Juventina e Sr. Pinto (Samutopa), D. Zulmira e Sr. Teixeira, os meus padrinhos principalmente a querida D. Adelaide, a quem sempre chamei de madrinha velha, o Berto Campos e a Velhinha, a D. Lídia e o Sr. Barbedo, a D. Amélia e o Sr. Côrtes, a D. Ema e o Sr. Flores, a D. Isabelinha e o Sr. Désirat, a D. Emília e o Sr. Artur, a D. Maria José e o Sr. Fernandes, a D. Zézita, o João Poças, a D. Graça Martins Novo, a D. Lili e o Sr. Travassos, a Maria Teresa e o Sr. Marmé a D. Virgínia e o Sr. Bolota, a D. Raquel e o Sr. Martins, a D. Palmira e o Sr. Ramos a D. Maria José e o Sr. Gaspar, a D. Adelaide e o Sr. Ângelo, a D. Emília e o Sr. Monteiro, a D. Céu e o Sr. Fonseca, a Alice e o Constantino o Mário Campos, a Aldina Gerardo, o Sr. Isidro, a D. Lídia Maneco, o Sr. Faria, a D. Alzira e o Sr. Coelho, o Sr. Figueiredo Pinto, a D. Glória e o Sr. Marques, a D. Idalina e o Sr. Luís, o Sr. Américo, o Zito, etc., etc...

Interessante é o facto de Camacupa ter crescido comigo e com os amigos da minha geração: quando era pequena dormíamos em colchões de palha de milho que se renovavam todos os anos; à noite só havia candeeiro de petróleo; água fresca era da moringa  pois geleira quem a tinha só com gerador; banho tomava-se na selha ou de chuveiro colonial; a água que primeiro ia buscar-se em barris ao Rio Júlio começou a vir para o Tanque do riacho da Cacimba e só em 1954 foi canalizada para as casas; nas ruas havia poeira poeirada e charcos de água e lama quando chovia ( que bom que era chapinharmos com as botas de borracha).

Quando fui para a Escola em 1956 já era num edifício novo e bonito com duas grandes salas de aula e uma terceira pequena, ladeadas por duas boas residências para professores, numa delas morava o meu professor Vito Rebelo que era muito amigo do meu pai. Mas quem me ensinou a magia das letras e da leitura foi a minha mãe que tomava conta da casa e fazia as nossas roupas. Lembro-me também de ir com ela e com a minha irmã armar os andores dos santos para as procissões, a casa da D. Raquel Martins e de brincar imenso com a Zica e a Ró.

Ao meu pai, via-o sempre a participar no crescimento de uma terra que todos amavam com carinho e, com muita ambição, projectavam uma vida melhor para a terra e para os seus filhos.

Assim, pelo labor e luta de alguns carolas que não deixavam de incomodar os Governos Distrital e Geral, as melhorias iam aparecendo: as ruas largas, asfaltadas e ladeadas de passeios, embelezadas com árvores e arbustos frondosos; o belo lago - jardim da Pérgola; a Praça da Estação; os Silos; a Barragem do Cunje; a Câmara nova; o Hospital novo; os Correios novos; o Colégio Infante D. Henrique; a Casa dos Rapazes; e ao mesmo tempo, mais casas mais prédios. A tudo isto, falta juntar a alegria das Festas, da sua preparação, que era uma festa em si mesma, os peditórios para as festas em Nova Sintra, Andulo e Silva Porto para arranjar dinheiro (o meu pai só nos deixava ir se a Lurdes Cruz também fosse); o Cinema às quartas e sábados; os Bailes; as Récitas; o passeio na Estação do CFB (Terças e Sextas de manhã, Terças e Sábados à tardinha); as Procissões; a Missa de Domingo; as belas tardes de Futebol ao Domingo; os pic-nics que metiam sempre dança. A minha família participava em tudo: lembro-me do meu pai ser do Desportivo mas também ser sócio do Delta; lembro-me do entusiasmo que ele tinha com o futebol; lembro-me do meu pai a colaborar sempre com as obras da Igreja e a ajudar os padres que passaram por Camacupa: Sr. P. Guilherme, Sr. P .Marques, Sr. P. Soares, Sr. P. Armando e no fim o Sr. P. Álvaro; lembro-me das noites em que o via redigir os artigos e notícias que mandava para os jornais de Angola na qualidade de correspondente em Camacupa; lembro-me do cuidado que tinha em fazer-nos ler os clássicos Portugueses e como comprava livros e mais livros muitas vezes com sacrifícios; lembro-me das conversas em que ele nos fazia entender que tínhamos de estudar para nos prepararmos para o futuro; lembro-me da educação religiosa que os meus pais nos deram e da Fé que me ajudaram a cultivar; lembro-me dos bons exemplos que nos deram sempre…

Os meus pais preocupavam-se com os pobres e injustiçados, não tinham preconceitos de raça nem de classe e como o meu pai era admirador de São Vicente de Paulo fundou a Conferência dos Vicentinos de que foi Presidente durante anos a fio julgo mesmo até morrer. Lembro-me de que todos os Sábados ele e os outros Vicentinos distribuíam bens aos pobres que se juntavam à entrada da estrada do Quanza. Com os Vicentinos apareceu também a Casa dos Rapazes e a Leprosaria que o meu pai visitava todas as semanas com o médico e o padre.

A minha mãe também era Vicentina da Conferência Feminina presidida pela D. Virgínia Bolota. Elas e outras senhoras, preocupadas com as injustiças sociais, ajudaram muita gente que tinha dificuldades.                         

O trabalho do meu pai na Câmara continuava sempre no ritmo crescente que a vila, depois cidade, continuava a ter. Também as relações com o pessoal que trabalhava sob as suas ordens roçavam uma amizade e protecção muito especiais: não têm  conta os casamentos e baptizados que os meus pais apadrinharam e as feridas que a minha mãe tratou porque o meu pai mandava lá a casa para se tratarem. Mas o que eu achava particularmente engraçado é que o meu pai era tratado por todos os indígenas por Sr. Mestre.

As preocupações dos meus pais foram muitas quando o meu irmão Avantino depois de se formar, foi para a tropa, consequentemente para a guerra no Norte que estava no auge. Em casa rezávamos muito por ele e por todos os que andavam nessa estúpida guerra.

Quando ele casou com a Cilita, filha do seu grande amigo senhor Côrtes, a sua alegria foi imensa. Acho que também se sentiu muito feliz por me ver ensinar na nossa Escola, assim como depois a minha irmã Glória.

As últimas alegrias foi ver nascer a Sandrinha do meu irmão, o Paulo da minha irmã e ainda a minha Gi, quando já estava doente – oito meses depois dela nascer, a morte encontra-o em Lisboa, 30 anos depois de ter partido para Angola. Tinha apenas 55 anos.

Sei que gostava muito da sua Pátria, mas Angola e principalmente Camacupa eram uma paixão assumida.

Para a minha mãe, que sozinha o acompanhou, e sozinha sofreu as angústias da morte, e para nós que estávamos longe, foi a grande dor da perda.

O tributo mais lindo que Camacupa deu ao meu pai traduziu-se numa manifestação singela e julgo espontânea: o povo que ele ajudava e também o pessoal da Câmara, mal souberam da sua morte, juntaram-se no passeio da minha casa e aí ficaram pela noite dentro repetindo num choro sentido: Ai ué, o nosso Mestre morreu…

Era Novembro de 1974, e a partir daí foi a tragédia do abandono, a fuga, as mortes bárbaras, a separação dos amigos, as saudades imensas de uma terra onde fomos felizes, e que se tornou um Inferno de guerra e horror para aqueles que ficaram.

Por ironia da História, o que existe hoje em Camacupa é um cenário de destruição. Tudo o que foi feito com tanto amor e trabalho está arrasado. Tivemos que dolorosamente fechar um ciclo, que acredito outros irão abrir, porque Angola é demasiadamente grandiosa para ficar estragada para sempre.

Para a minha família, resta-nos continuar a sentir o espírito de luz em que se transformou o meu pai, e agradecer a Deus a Felicidade que vivemos em Camacupa, pois essa ninguém poderá roubar...


    
Alberto Francisco Monteiro Fernando Guilherme Cardoso Gonçalves Isaura e Henrique de Paiva João Maria Fernandes João Mendes Baptista José Martins (Cameia) Júlia e Júlio Ribeiro Lídia e Fernando Barbêdo Manuel Coelho dos Santos Manuel José Côrtes Maria Adelaide e Ângelo Coelho Marinela Amaro e Zé Leitão Norberto Santos Marques Secundino Soares Moreira Tiago Costa Velhinha e Berto Campos José Désirat Francisco Costa Henrique Novais As Outras Famílias
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