"Os HOMENS e MULHERES construtores daquele País e de todas as “cidades” que se ergueram um pouco por todo o lado de Angola e CAMACUPA de forma particular foram o exemplo vivo da esperança, da vontade, da persistência, da determinação. Quando para muitos era um título de glória ter criado uma empresa, uma fazenda, uma fábrica, para esses bravos era natural criar cidades. Milhares de “angolanos” de hoje guardam deles uma profunda recordação, uma profunda admiração, lembrando os funcionários dedicados, os autarcas empenhados, os cidadãos entusiastas. Eles são um dos símbolos positivos do fim do período colonial. Por isso o trabalho foi útil e foi necessário, por ser raro. Além de útil e necessário, ele foi um hino de amor a Angola, a manifestação da maior dedicação que se pode proporcionar a uma causa: a Sua Terra!"
... Analisando friamente todo o processo histórico de Angola até à descolonização, só uma conclusão pode ser tirada: a responsabilidade pelas consequências trágicas que se lhe seguiram cabe, exclusivamente, à canhestra política económico-financeira que Portugal escolheu, desde sempre, com um ou outro hiato, para aquela ex-colónia.
Aliás, tal verificação nem sequer tem nada de original. Francisco de Sousa Coutinho, Paiva Couceiro e Norton de Matos, figuras épicas da governação de Angola, centraram toda a sua actuação na criação de infra-estruturas que permitissem um desenvolvimento económico sem reticências. Pela fala e pela escrita, em pronunciamentos privados e públicos, defenderam sempre a tese de que ou Angola prosseguia uma política arrojada de desenvolvimento, base de uma colonização intensiva, e de promoção das populações indígenas em ordem a atingirem o estatuto de cidadãos de parte inteira, ou o seu devir não poderia deixar de conduzir, a prazo, a uma catástrofe!
Querem, mas querem mesmo, que vos fale de Camacupa? Querem, de facto, que vos diga como foi possível erguer cidades onde nada existia? Querem que vos conte alguns segredos do Rio Júlio, da centralidade e da sazonalidade impares, da grandeza enorme dos corações empreendedores? Querem sentir a força da terra a subir pelas vossas veias, a entranhar-se nos vossos corpos?
Querem aquecer o sangue antigo nesta realidade de agora, saltar de espanto em espanto, sentir que apesar de tudo foi uma vida que valeu a pena viver?
Irmãos no mesmo oceano, irmãos no mesmo continente, tal só é possível se também e ainda acreditarem na força incógnita mas intensa e perseverante que nos move.
Porque Camacupa começou por ser um milagre antes de ser uma cidade. Camacupa começou por ser um amor antes de ser essa cidade. E o mesmo aconteceu com tantas outras povoações ignoradas pelos “outros” homens e espalhadas por essa Angola inteira onde cabem não sei quantos Portugais juntos.
A história começa no século XIX, quando um português José Lucas da Costa comerciante na Chindumba (um pequeno aglomerado de casas comerciais não muito longe do soba Catanganha) tem conhecimento que as obras de abertura do traçado do caminho-de-ferro estão prestes a sair do Chinguar para rumar mais a leste até Catanganha.
Esse homem, colono pela força das circunstâncias, firma os pés na fímbria do solo virgem, voltara as costas ao mar rumando ao interior, ao centro daquele universo e afirma perante o seu coração «é aqui, nesta terra de sonho, que vou ficar para o resto da minha vida». Vê em Catanganha não um deserto mas uma terra de solo arável e fértil e resolve ali ficar com suas alfaias agrícolas, sua extrema teimosia e suas crenças em Deus e no rei.
Por primeira morada, suponho, uma cubata de pau a pique erguida, coberta a capim, forrada a barro por mãos de aço e colocada sensivelmente no local onde estaria a barbearia do António Barbeiro, isto é, em local bem próximo do sítio onde ficaria a estação do Caminho-de-ferro.
O desafio era enorme provavelmente mais do que podia a alma humana. Mas valia a pena por que a alma não era pequena.
Atrás dele outros vieram, com a mesma tenacidade, com o mesmo querer e com a mesma alma. Gente de coração aberto e mente iluminada que lançou as bases de uma cidade-espanto, uma cidade-coragem, feita no desterro do interior, nas lágrimas, na falta de tudo. E ficaram!
Ficaram e não foram defraudados porque CAMACUPA... é UM AMOR QUE NUNCA ACABA!