General Joaquim José Machado, militar de engenharia que chegou a Moçambique em 1877, foi representante do Rei e mais tarde governador por 3 vezes.
Se houvesse cinema em Portugal, a vida do General Joaquim José Machado, iniciador dos caminhos-de-ferro em Moçambique e também em Angola, estaria representada numa bela sequência de imagens transpostas para a fita cinematográfica. Havendo televisões talvez existam documentários, mas se for o caso desconheço-os. De facto, como homenagem, tenho conhecimento de um busto, meio escondido, na residência do Embaixador de Portugal em Maputo e de um outro busto que existiu no largo frente à estação dos C.F.B., em Camacupa.


Busto que existiu no largo frente à estação dos C.F.B., em Camacupa.
Grande homem do seu tempo, um dos construtores das colónias.
"Se há um nome emblemático para o período moderno da presença portuguesa em Moçambique (o período que sucede ao antigo regime e põe o acento nas Obras Públicas) esse nome é o de Joaquim José Machado. Major de engenharia, foi escolhido para chefiar a Expedição das Obras Públicas em Moçambique pelo grande impulsionador da nova política colonial, o ministro Andrade Corvo. Chegou a Lourenço Marques a 7 de Março de 1877. Organizou e instalou os Serviços de Obras Públicas na então Província de Moçambique. Foi a Joaquim José Machado e aos serviços que chefiou que se ficaram a dever algumas das obras mais espectaculares que ainda hoje se observam em Moçambique. As primeiras das quais serão os Caminhos de Ferro e o traçado da cidade de Lourenço Marques. Foi Joaquim José Machado quem elaborou o projecto de ligação ferroviária entre Lourenço Marques e Pretória e quem dirigiu a sua construção. Entre as muitas outras obras realizadas pela Expedição que chefiava destaca-se o Hospital da Ilha de Moçambique, conjunto de edifícios de particular qualidade arquitectónica e, para a época e lugar, realização de engenharia admirável. Saiu da Colónia de Moçambique no final da missão mas a ela regressaria como Governador dos Territórios da Companhia de Moçambique primeiro e como Governador da Província depois. Então General foi Governador-Geral de Moçambique por três vezes: 1889-1891, 1900, 1914-1915."
Sobre o General Machado um bom amigo, que dele descende, contou-me em tempos um episódio. Paul Kruger, que viria a nomear Machadodorp em sua honra, ofereceu-lhe honorários (paralelos) pelo seu trabalho na construção da ligação ferroviária Pretória-Lourenço Marques (Delagoa Bay). E, se se atender a que esta era a época da explosão da exploração de diamantes, tais pagamentos nunca poderiam ser modestos. Ao que o General respondeu, recusando, "O que Portugal me paga é suficiente!".
Dizia o meu amigo, saudavelmente orgulhoso do seu antepassado, e de quem, diga-se, herdou uma bela dignidade, "Era um oficial à antiga! ". "Hum, não era ", respondi-lhe, "Era um oficial à moderna. Antes os oficiais vinham para África para enriquecer (com todo o tipo de tráfico) ". Concordámos.
Mas nesta evocação é impossível não referir a minha recentíssima releitura, vinte anos depois, de "Os Cus de Judas" de António Lobo Antunes (Círculo de Leitores, 1984):
"Conhece o General Machado? Não, não se franza, não procure, ninguém conhece o general Machado, cem em cada cem portugueses nunca ouviram falar do General Machado, o planeta gira apesar desta ignorância do General Machado, e eu, pessoalmente, odeio-o. Era o pai da minha avó paterna, a qual, aos domingos, antes do almoço, me apontava com orgulho a fotografia de uma espécie de bombeiro antipático de bigodes, dono de inúmeras medalhas que tronavam no armário de vidro da sala juntamente com outros troféus guerreiros igualmente inúteis mas a que a família parecia prestar uma adoração de relíquias. Pois fique sabendo que durante anos, aborrecido e pasmado, escutei semanalmente, em folhetins narrados pela voz emocionada da avó, as proezas vetustas do bombeiro elevadas na circunstância a cumes de epopeia: o General Machado envenenou-me anos e anos o bife introduzindo na carne o mofo indigesto de uma dignidade hirta, cuja rigidez vitoriana me enjoava. E foi precisamente esta criatura nefasta, de que as órbitas globulosas de prefeito ou de cura me reprovavam da parede, recusando-me mesmo a absolvição dúbia que paira como um halo nos sorrisos amarelos dos retratos antigos, que construiu, ou dirigiu a construção, ou concebeu a construção, ou concebeu e dirigiu a construção do caminho-de-ferro em que seguíamos, de rebenta-minas na dianteira, chocalhando numa planície sem princípio nem termo...."
[Lobo Antunes escreve sobre Angola]