Angola!
Era uma palavra fascinante. Durante vários anos alimentei a esperança de respirar a fragrância espiritual de magia de um povo aberto à fé, ávido de alimentar a esperança e o amor para com um Deus que é Amor.
Quando Sr. D. Manuel Pires foi destinado para a Diocese Silva Porto, disse-lhe, ao despedir-me dele: lembre-se de mim quando precisar de um pobre catequista missionário. E ele não se esqueceu. Convidou-me por três vezes, mas eu não pude aceitar, porque tinha comigo minha tia e madrinha, de idade muito avançada e doente e não tinha a quem a deixar. Só quando ela faleceu, com 94 amos, escrevi ao Sr. D. Manuel Pires, a comunicar-lhe que já estava disponível.
Embarquei num avião da TAP, em 31 de Junho de 1971 para Luanda. Depois de algumas horas de espera, segui, finalmente, para Silva Porto, onde era esperado, no aeroporto local, pelo Sr. Cónego Teixeira que me conduziu para o Paço Episcopal. No dia seguinte, levou-me para General Machado (Camacupa), onde tive uma calorosa recepção, com a presença do Sr. Presidente da Câmara, Sr. Bolota, Sr. Mário Secundino Moreira, Sr. Manuel Cortes, entre muitos outros mais que, com muita amizade, comigo colaboraram.
De quem recebi o maior apoio, foi das Religiosas Franciscanas Reparadoras de Jesus Sacramentado, provenientes de Bragança.
Era então Superiora Geral a Irmã S. Paulo. Verifiquei que aqui, todas as freiras eram conhecidas pelas "Madres" porque as consideravam como mães.
Encontrei uma paróquia modelo, como nunca conheci outra; o mérito de toda essa organização devia-se ao Reverendíssimo pároco, Dr. Armando Amaral dos Santos, que foi entretanto nomeado como 1° Bispo da Diocese de Benguela.
Com a iniciativa do Sr. Padre Augusto Carvalho, vice-reitor da Secção Liceal local, foi lançado escutismo que não existia na paróquia. Dos sacerdotes vizinhos quero destacar o Padre Benjamim Fernandes Manzanal, da missão da Jamba, que muito me ajudou.
Entre a Igreja Católica e a Igreja Evangélica, encontrei uma grande vivência ecuménica. O Pastor da missão Evangélica de Chissamba visitava-me com regularidade, para partilharmos as nossas experiências pastorais. Por sua vez, também eles convidavam os padres católicos para encontros na sua missão.
Tendo falecido uma filha doente de uma família de evangélica, disponibilizei a nossa Igreja Paroquial para a liturgia do funeral. O Pastor evangélico, agradeceu comovido e, no final, fez um apelo aos católicos de Camacupa, para que fossem autênticos cristãos comprometidos. No meu íntimo, agradeci ao Senhor e lembrei-me daquelas palavras de Jesus: "Há ainda outras ovelhas que não pertencem a este redil e é preciso que eu as traga, para que haja um só rebanho e um só pastor".
Estava para vir comigo, para geral Machado, minha irmã Maria do Carmo. Mas como a minha viagem foi um pouco urgente, não foi possível vir comigo. Veio de barco passados alguns meses e foi colocada como professora de posto nas escolas da Missão Feminina. Casou em 17 de Março de 1974 com Rui dos Santos Monteiro, descendente de uma família da Guarda. Regressamos a Portugal em fins de Setembro de 1975.
Finalmente quero falar do meu grande amigo e então, meu paroquiano, o Bartolomeu que, actualmente é catequista Geral de Camacupa. Tem duas filhas "Madres, e um filho sacerdote". Actualmente uma dessas suas filhas está em Moçambique.
Quando me despedi do Bartolomeu, ele fez-me esta pergunta: "Sr. Padre, então a independência quando acaba?"
Ele não sabia em que consistia a independência, pois já se começava a viver um clima de violência e terror. Depois do meu esclarecimento, vi deslizar pela sua face algumas lágrimas e respondeu-me com voz embargada pela emoção: "então nós vamos morrer aqui, porque não temos outra terra para onde ir".
Agora eu sei que ele é feliz e continua a trabalhar na Messe do Senhor, confortado pelo presente que o Senhor lhe fez: duas filhas religiosas e um filho sacerdote.
Padre Álvaro Macedo Afonso