Entrar quarta-feira, 10 de Março de 2010
 A sua História

Estávamos no início do século XX e as riquezas mineiras de Katanga tinham acabado de ser descobertas... Juntamente com a Zâmbia (então Rodésia do Norte) formavam o denominado “Copperbelt” – a cintura de cobre. Havia que encontrar-se uma saída para o mar.


Sir Robert Williams, um escocês, companheiro de Cecil Rhodes, volveu os olhos para a costa atlântica, “near the old Portuguese town of Benguela”... próximo da velha cidade portuguesa de Benguela... ali iria nascer um dos grandes eixos de circulação de toda a África Austral.


A Norte de Benguela, estendia-se o “deserto do litoral”, cortado pelo Rio Catumbela e pela fortaleza que dominava o seu vale. Foi sobre esse “deserto” e sobre uma escaldante língua de areia que o CFB assentou os primeiros trinta e cinco quilómetros de via. Via de 1,067 m de bitola, destinada a ligar-se, mais tarde, com o sonhado caminho de ferro da Cidade do Cabo ao Cairo.


Já nesse tempo Benguela era três vezes centenária e famosa. Famosa pelo seu passado, pela posição-chave que detinha no comércio com o interior, a Sul do Cuanza. A linha férrea iria dar-lhe novo impulso, estendendo o seu comércio e a sua influência; rasgando com sulco de aço um mundo, que se estendia para as terras de Caconda e além. Até aos confins do quase lendário Reino de Benguela.


Quando se olha para o passado, mede-se a envergadura do projecto e as dificuldades que foi preciso vencer para levar o caminho de ferro do litoral até à fronteira. O trabalho de engenharia, só por si, foi admirável, se se tiver em conta a falta de mão-de-obra na época e as características inclementes do terreno – seco e rochoso – onde os homens tiveram de viver meses sem fim a caminho do planalto, a um ritmo extenuante “para salvar a concessão”.


Foram importados camelos para transportar água – e os camelos morreram quase todos. Vieram senegaleses e trabalhadores dos territórios britânicos da África Ocidental. Vieram dois mil indianos e respectivas famílias da Província do Natal, África do Sul, para assentar a linha. Poucos foram os que se adaptaram às duras condições do clima.


Não foi de estranhar, portanto, que os círculos financeiros, sempre cautelosos, olhassem a ideia do caminho-de-ferro com certo cepticismo. Mesmo quando a ideia estava prestes a tornar-se uma realidade. Não fora a perseverança de Sir Robert Williams, nesses anos difíceis, dos primeiros administradores portugueses do CFB, de um punhado de técnicos determinados, e tudo ter-se-ia perdido - ou quase. Basta dizer que, por mais de uma vez, a linha não avançou por falta de capital!


Finalmente, chegou-se à fronteira em 1928. Abriu-se, então, definitivamente, uma época que iria transformar de maneira irreversível as condições de vida das populações servidas. (*)


O CFB transportou centenas de milhares de toneladas de minerais, madeira, gado e outras mercadorias provenientes do interior do país, da Zâmbia e da República Democrática do Congo (antigo Congo Belga ou Zaire) para os portos de Benguela e, principalmente, Lobito.


A guerra civil em que Angola mergulhou, logo após a sua independência, afectou a linha do CFB, que foi destruída, do Atlântico até Luau, na fronteira: pontes e carris foram dinamitados, estações bombardeadas e comboios descarrilados.

(*) Adaptado de "NOTÍCIA", Ano VIII, Nº 390, 27 de Maio de 1967 – Número de recordação dedicado a Benguela - Contribuição de Júlio Centeno Largo.


    
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