Do final do século XIX até os anos 70 do século XX, o trem foi factor de integração e desenvolvimento em todos os continentes, inclusive na África. Nos Estados Unidos e na Comunidade Europeia, os comboios continuam cruzando campos e montanhas, levando passageiros e cargas.
Muitos sentem saudades dos bons tempos em que os trens circulavam normalmente por Angola, ligando partes importantes da África.
"O Mala, como se chamava o comboio de estilo inglês, com muitas carruagens, ligava o Lobito, no litoral a Teixeira de Sousa, lá na fronteira com a Zâmbia, no Leste. A população menos abastada - normalmente os nativos - e os militares viajavam na classe mais modesta, onde as pessoas se misturavam com as bagagens e algumas galinhas. Os de mais posses e os militares com posto mais elevado acomodavam-se nas carruagens de primeira classe com bancos que se transformavam em cama e onde se pernoitava com o mínimo de comodidade. A viagem de comboio é bonita, mas a grande maioria dos militares não se deliciava com o espectáculo que lhe era oferecido pela natureza, porque o medo que lhes tinham incutido impedia-os de se municiarem da tranquilidade suficiente para fazer apelo a toda a sensibilidade que lhes permitisse fruir a beleza da paisagem.
Umas vezes rápido, outras nem tanto, o Mala lá ia puxado por duas máquinas a vapor. Por vezes o percurso era recto. Noutros locais curva e contra curva permitiam que se ficasse com a espectacularidade do grande comprimento da composição ferroviária, constantemente “guiada” a uma centena de metros de distância, por uma pequena máquina a diesel, que mais parecia um cubo de chapa blindada, pintada de verde, com pequenas ranhuras donde espreitavam os seguranças do CFB (Caminho de Ferro de Benguela). Esta máquina, designada por ATL, tinha a missão de intimidar qualquer pretensão de ataque desferido de bem perto do comboio e também de rebenta-minas na eventualidade de qualquer explosivo ter sido colocado nos carris.
Numa fase do percurso o Mala passava por entre morros bem altos e se até ali toda a gente viajava à janela ou nos patamares nas extremidades das carruagens, naquela zona eram raras as cabeças que se afoitavam a espreitar a paisagem que, diga-se, pouco ou nada tinha para ser apreciada. Recordo-me de ver camaradas agarrados à espingarda, em posição para ripostar a qualquer ataque. Admito que tenha sido por inconsciência mas a minha mauser nunca saiu do local onde estavam as malas e a culatra permanecia no fundo do saco fazendo companhia às balas."