*NOTA DO SITIO www.camacupa.com
António Serrano escreveu este contundente artigo de opinião já há algum tempo e às pessoas menos atentas poderá parecer que o mesmo está desactualizado ou completamente fora de questão.
Perfeito e rotundo engano!
Vejamos porquê: Angola começou a senda do dito “progresso” há cerca de três anos atrás, exactamente quando foram marcadas as eleições legislativas que se realizaram há dias.
Esse progresso não ultrapassou o asfalto e o betão.
Poucos Angolanos puderam estar efectivamente embrenhados no processo que foi entregue especialmente a empresas chinesas e também a algumas portuguesas.
O nosso grande desejo é que esse enorme e fabuloso País, que é Angola, possa efectivamente trilhar os caminhos do progresso, da modernidade, da cultura, da compreensão, da interculturalidade e da tolerância.
Mas convenhamos que, enquanto na capital do País e até na mais humilde das suas cidades (Camacupa como exemplo), não existir energia eléctrica, água potável canalizada, lugares onde dormir e comer e as crianças e jovens continuarem na rua, o progresso está muito longe de existir.
Por todas estas razões www.camacupa.com resolveu partilhar todas as inquietações de António Serrano.
5 - SANGUE, SUOR e… lágrimas!
Camacupa situa-se no Centro geodésico de Angola, assim foi estudado por alguém conhecedor da matéria (talvez um geodesista), que ali assinalou o CENTRO da PROVÍNCIA tendo sido erigido um belíssimo monumento. Um CRISTO REI que o Padre Armando Amaral dos Santos, posteriormente Bispo de Benguela, mandou executar, tendo sido seu autor o excelente escultor José Thedim. A estátua foi ali colocada depois de ter sido construída de corpo inteiro em S. Mamede do Coronado, na Trofa. A imagem foi decepada, durante a última guerra de Angola, por alguém a quem o Cristo Rei não quis atender um pedido que o seu decepador Lhe fizera.
Camacupa foi crescendo e o esforço da maioria dos seus habitantes, era bem visível, na construção de suas casas, lojas e em tudo o que desse ou pudesse dar desenvolvimento à tão conhecida vila situada no planalto do Bié
A juventude dava-lhe uma vida invulgar, principalmente ao anoitecer. Grupos de rapazes e de raparigas, juntavam-se, passeavam pelas ruas, conversando ou até namorando. Os festejos, organizados pelos dois Clubes da terra, eram o ponto de atracção de muitos forasteiros, que convergiam para ali, com o fim de passarem um fim de semana mais divertido que os habituais.
Havia também os caixeiros-viajantes, (de uma maneira geral jovens) que visitavam os mais diversos comerciantes, onde por meio de um mostruário davam a conhecer as novidades recebidas, com o fim de uma possível transacção. Estes aproveitavam a altura para se divertirem participando nas festas, tal como faziam os residentes e os vindos dos arredores.
O inverso também existia naquela pacata terra. Comerciantes que não tinham um único dia de descanso. Quase sempre havia uma porta nas traseiras da loja que dava para o quintal e encontrava-se, quase sempre, meia aberta. O dono do estabelecimento aguardava que o cliente chegasse e lhe comprasse qualquer mercadoria. A maior parte das vezes era o vinho e a cerveja que mais vendia. A dona de casa também recorria a esses comerciantes na falta de algum produto que, por esquecimento, não comprara no dia normal de expediente. A maior parte do comércio era feito com base na confiança.
O cliente só pagava no fim do mês. Aí se juntavam os amigos. Amigos…! não será o termo apropriado, mas poderá dizer-se amigos dos copos. Aquelas bocas sequiosas ingeriam os primeiros copitos. Por fim, toda a zurrapa corria por aquelas goelas abaixo, sem reclamações. Cambaleando pelas ruas, dizendo palavrões ou apenas falando, lá iam com o seu destino marcado que por vezes era interrompido por uma soneca, a um canto do passeio ou até mesmo na estrada.
O comerciante do mato, o aviado, como era conhecido, também não tinha qualquer dia de descanso. Por vezes chegava a abrir as portas da loja como se de um dia normal se tratasse. Trocavam mercadoria por cereais e pelos mais variados produtos que a terra lhes dava. Por animais que o nativo lhe oferecia. Dia após dia, lá iam passando os anos. Seus filhos que até ali não passavam de uns bebés, confrontavam-se com a realidade.
Estudar, era a prioridade. Muitos dos miúdos ficavam instalados em casa de parentes ou amigos. Nem sempre o sacrifício dos pais era recompensado.
A falta de convivência, o meio em que estavam integrados, o isolamento no que concerne a comunicabilidade com europeus, tornava-os extremamente gentis, comunicativos, prontos a receberem qualquer pessoa com a maior amabilidade que lhes era possível, compartilhando com o visitante as iguarias de que dispunham em suas isoladas casas, onde a passagem de uma viatura era como se fosse quase um acontecimento histórico.
Gostavam de saber o que se ia passando em Camacupa, perguntando por amigos e conhecidos. Falavam de futebol, trocavam impressões sobre as notícias que iam ouvindo através das emissoras. O aparelho de rádio (telefonia) era o único contacto com o mundo civilizado.
De um modo geral a população angolana estabelecia entre si uma relação amigável, bastante cordial.
O clima do litoral, quente e húmido, provocava nas pessoas uma maior convivência social e humana. No entanto, para quem chegasse de novo a uma cidade, as relações e os contactos eram um pouco mais difícil e complicados. O clima do interior (do planalto) contribuía para que o relacionamento social das pessoas fosse algo mais reservado, dado que o frio das noites, não proporcionava tanto os encontros nocturnos nem a saída de casa. Através dos serviços, onde o «forasteiro» estava inserido é que poderia começar a contactar com as pessoas ali nascidas ou residentes (esta referência é apenas para as cidades do interior).
Aquela bela terra que nos viu crescer, não poderia fugir à regra. Todos se conheciam, todos se cumprimentavam mas havia sempre simpatias maiores por uns do que por outros. Assim se estabeleceram grandes amizades que ainda hoje perduram.
Com a vinda em massa de grande parte das pessoas, de origem europeia ou não, essas amizades não deixaram de existir mas perderam-se imensos contactos. Porém, durante muitos anos, os reencontros são feitos em diversas cidades Portuguesas sempre com o intuito de se reverem os amigos do coração.
Com a alternativa dos computadores tornam-se mais fáceis os contactos e através de uns, lá vamos descobrindo o paradeiro dos outros que, com os anos, foram desaparecendo da circulação. É realmente um prazer localizar amigos de infância que, jamais seria possível, se não fosse este meio de comunicação que é a Net.
Faço um apelo a todos os Camacupenses: os que puderem comprar um computador, mesmo velhinho mas a trabalhar, que o façam. Não há a desculpa de que estão velhos para utilizar a máquina. A custo de explicações dos mais novos, vamos tendo o prazer de, dia a dia, descobrir novos mundos, como fizeram os nossos velhos marinheiros, que descobriram o Brasil, atravessaram o Cabo das Tormentas e chegaram ao grande continente que é a Ásia. Partam também na aventura que é a Internet. Jamais se arrependerão. Aprende-se a navegar sem que haja o problema do barco naufragar, do avião se despenhar ou de embater com o seu Mercedes, B.M.W., ou outro de alta cilindrada, na árvore secular, plantada por um desconhecido. Desconhecido que teve a feliz ideia, de plantar uma árvore, da qual seus netos ou até bisnetos usufruem do oxigénio produzido, dos frutos ou da sombra. Da parte que me toca vão os meus agradecimentos para o tal desconhecido.
Os forasteiros, na minha pacata e emblemática segunda TERRA, eram, regra geral, sempre bem recebidos pela população. Com a visita de tais pessoas geravam-se mais empregos, tanto no tocante à hotelaria como no comércio em geral. O futebol, o caminho de ferro, e as rodovias, movimentavam um número bastante significativo de pessoal.
Raro era o casal que tinha um só filho. Pelo menos tinham dois ou três filhos. Cresciam e faziam na terra a admissão ao liceu. A partir daí iam estudar para as mais distantes cidades. Filhos da terra, ou jovens que ali cresceram, há alguns médicos, mais médicas, engenheiros, professoras, formaturas em germânicas, história, matemática, agronomia e tantas outras. Com canudo ou sem ele, os jovens partiam à procura de uma vida mais desafogada.
Regressavam à terra para matarem saudades da família e amigos. Ali permaneciam uns dias e ao fim do tempo estipulado, recomeçavam a labuta do dia a dia na nova terra de acolhimento.
Os mais velhos, os chamados de SECÚLOS, pelos nativos, permaneciam pela força das circunstâncias no local de trabalho até que a morte os levasse. A maior parte não abandonaria o resultado de uma vida de trabalho para acompanhar o filho ou os filhos.
Assim era a vida e cada um conformava-se com a parte que lhe cabia, pois nascemos aqui passamos por ali e morreremos acolá.
Sendo Camacupa o Centro de Angola, podia irradiar-se para qualquer ponto do país com relativa facilidade.
Assim sendo, partiremos para a fronteira do Congo, para posteriormente se alcançarem as grandes minas de cobre, situadas na Província do Catanga de onde transitavam toneladas do metal extraído, originando um rendimento fabuloso ao Caminho de Ferro de Benguela e ao porto do Lobito. Nova Lisboa (Huambo) bem perto de Camacupa depois Caála, Ganda e Lobito. Havia uma estrada directa, com passagem pelo Andulo, Quibala, Calulo, Dondo e por fim a capital LUANDA.
A Quibala é terra dos grandes trovões, penso que muito mais que em Camacupa, nos dias chuvosos em que o céu fica todo iluminado. Raios (faíscas como se dizia) caem subdividindo-se.
Esta estrada de que falo, hoje em dia é uma autêntica picada. A degradação foi total nestes últimos anos porque os buracos nunca foram tapados e as valetas nunca foram desobstruídas.
Qual a razão para se ter tanto trabalho se por ali não passavam carros? E mesmo que passassem não seria necessário pois as viaturas desviar-se-iam para a valeta e assim se ia abrindo um desvio com os rodados. Esta é a realidade dos factos.
Na época colonial muitos governantes tentaram impor aos nativos os hábitos portugueses, a sua cultura contrariando tudo aquilo a que o nativo estava familiarizado. No Lubango, (Sá da Bandeira) a mulher não podia entrar na cidade, sem estar vestida, pois apenas usa uma tanga. - Resultado: ela cobria-se com um pano sujo, embebido no produto que usavam salvo erro à base de leite, bosta de vaca e algum barro e lá iam com os seios à mostra para o lugar pretendido. O pano era retirado dos ombros logo que ultrapassasse a última casa da cidade.
As crianças do sexo feminino e de raça negra, não poderiam frequentar a escola se usassem os carrapitos no cabelo e missangas como era vulgar ver-se.
Normas e leis aprovadas pelos políticos portugueses.
Até nestas pequenas coisas se pode verificar a formação política, pequenas coisas em relação ao cidadão vulgar. Quase que passava despercebido mas, no campo político, o caso mudava de figura. Atendendo a que são nomeados para certos cargos governativos homens ligados à mesma cor politica e sem que tenham conhecimento da identidade, da cultura, dos costumes dos povos que governavam, impondo à força os seus hábitos, os seus costumes isto trouxe dissabores aos que lá nasceram e contentamento, orgulho para os politiqueiros após o 25 de Abril.
Ainda hoje se nota uma grande falta de preparação política entre membros dos partidos políticos.
O POVO cá está para os julgar no fim de cada mandato. O mesmo não sucedia em tempos áureos.
Depois dos cubanos em Angola, dos americanos e europeus chegam os chineses que a pouco e pouco se espalham por todo o mundo.
É enfadonho estar a ler-se um artigo e o mesmo degenerar para a política. Certo é que os factos estão interligados e nós, sem querermos, descambamos para o prato da balança que a contém, narrando factos passados. Factos esses desconhecidos pela maioria da juventude, bem como o 25 de Abril. Hoje a maioria da juventude desconhece o que significa para Portugal o tão glorioso dia da revolução. Para uns glorioso e malfadado para outros.
Natural que a política acompanha o cidadão e quando esse cidadão escreve com o bater dos dedos no teclado a política está na ponta dos dedos e é transmitida à máquina que reproduz o nosso pensamento. Procurarei escrever mais sobre aquelas terras distantes onde nasci, cresci, estudei, casei e aí me nasceu o único herdeiro.
Hoje, casualmente estando sentado numa clínica médica, deparei com uma revista editada pelo Correio da Manhã, chamada «DOMINGO» de 10 a 16-06-2007, que continha uma capa muito interessante com uma fotografia de uma sanzala entre Malange e Pungo Andongo. O título é: REGRESSO A ANGOLA!
Quatro mil quilómetros de Luanda ao Calulo, do Kuito a Porto Aboim, uma volta entre o passado e o presente.
Claro que a minha curiosidade concentrou-se naquele artigo em que seu autor RUI FARIA descreve a bela e tumultuosa viagem, que foi ilustrada com fotografias.
Olho para as mesmas e o que me parece, ou tenho a certeza, é que Angola está destruída pela guerra, pela negligência dos seus habitantes e o pior pela corrupção que grassa entre os seus dirigentes.
Deste artigo aproveito para transcrever certas passagens escritas pelo autor como: …surgiu a imagem das belezas naturais, dos grandes espaços e de uma terra que “tem cheiro” e uma luminosidade diferente. Não tenham dúvidas. É tudo verdade.
Agora sou eu que pergunto: Quem poderá duvidar de si, caro autor? Se o fizer é porque não conhece minimamente Angola. Esse nunca saiu do Aeroporto ou talvez nunca tenha pisado terra africana. África é a sedução de grande parte dos cidadãos europeus. É diferente de tudo o que se possa imaginar chegando por vezes a extasiar o turista com a sua grandiosidade ou com a beleza de suas paisagens inigualáveis.
Continua escrevendo: …A savana tem um verde intenso. As distâncias medem-se pelo relógio e não pelos quilómetros, tanto mais que a maior parte das estradas foram destruídas pela guerra e as picadas esquecidas por trinta anos de conflito. E mais à frente diz: …É certo que hoje ainda é uma verdadeira aventura viajar em Angola… Limito-me a transcrever o que foi escrito pelo autor RUI FARIA.
Fala da grande invasão chinesa e vou transcrever na íntegra: …Ao longo da estrada que liga Luanda a Malange são evidentes os sinais da invasão chinesa. Os acordos para a recuperação de estradas e o caminho de ferro levaram para Angola um número incrível de trabalhadores chineses, um pouco a exemplo do que acontece em todo o continente africano. Os estaleiros sucedem-se, e até muitas tabuletas que vimos na estrada estavam com caracteres chineses, para já não falar nas lojas”…
Aqui faço as perguntas aos Senhores Dirigentes: - Qual o preço que o povo Angolano vai pagar por essa INVASÃO? Nesse campo, não haveria trabalhadores, filhos da terra, que trabalhassem com técnicos «importados» de outros países? O que fazem milhares de indivíduos que vagueiam pelas ruas de Luanda sem emprego e que a maioria vive na mega favela, Roque Santeiro como é conhecida? - Jamais obterei qualquer resposta a estas minhas ingénuas perguntas aos governantes daquele belo e devastado país.
Como nunca obterei resposta resolvi continuar a ler na revista o artigo escrito e deparei com o seguinte:
DE LUANDA A MALANGE POR ASFALTO
Eis pois um título que entusiasma qualquer leitor. Este verifica que nem tudo é ruim. A certa altura e ainda sobre a capital escreve:
…a caravana partiu às cinco da manhã, cruzando uma cidade ainda a dormir, pelo que nem sequer encontrámos os candongueiros com as suas Hiace que servem de táxi e onde a lotação depende de quantos consigam entrar. Seguindo para Norte ao longo da baía, vimos o grande número de barcos que esperam (às vezes meses) para descarregar… O Dondo parece perdido no tempo, com os seus belos edifícios do século XIX muito degradados.
O título do que se segue não é tão sugestivo como o anterior. Fala das magníficas quedas, tão divulgadas que foram, (na época colonial). As mesmas estavam estampadas numa nota de banco emitida pelo Banco de Angola: as quedas do Duque de Bragança. Hoje são conhecidas pelo nome gentílico, por quedas de Kalandula. Plenamente de acordo com a alteração dos nomes das terras, de tudo que, durante a ocupação portuguesa foi alterado dos nomes gentílicos para nomes portugueses. No meu entender foi um erro crasso dos governantes portugueses em quererem modificar o que estava enraizado há anos na mentalidade dos naturais e dos que ali se estabeleceram.
Ah! Agora me lembro que ainda está por esclarecer o título menos sugestivo:
MALANGE ATÉ AO CALULO NO MEIO DE MARES DE LAMA.
Prossegue escrevendo: …A picada era uma papa de lama e os grandes buracos criados ao longo dos anos, pareciam mais lagos.
O seguinte título:
KUÍTO FOI UMA CIDADE MARTIRIZADA
Por cima há três fotografias. Se a memória não me atraiçoa, são fotografias tiradas aos prédios, que se situavam na Avenida Principal à entrada de Silva Porto perto das salas de aulas dos Maristas.
Um deles até parece estar enfeitado com plantas que caem pelas paredes abaixo. O que parece ser as tais ditas plantas não passam de buracos (ilusão óptica).
A certa altura do texto deparo com umas tantas frases que, como não podia deixar de ser, mostram bem o desenvolvimento grandioso dos últimos trinta e poucos anos: …«Ainda não tínhamos andado muito quando um a um, quase todos os Nissan da caravana foram ficando atascados.
E continua: …«Em muitos locais, o capim invadiu a picada, noutros os troncos que servem de ponte tiveram que ser recolocados e mesmo em pista aberta era necessário fazer trial. Parámos numa sanzala perdida, assustando algumas crianças que começaram a chorar. A explicação foi surpreendente: …«nunca tinham visto brancos.»
No meu entender a caravana teve muita sorte em ainda encontrar os troncos de que fala. Naturalmente por estarem longe dos Kimbos ou nos arredores haver árvores para as fogueiras. Desta maneira pouparam energias e os Senhores puderam utilizá-los.
O nome WAKU KUNGO não me era familiar. Dei uma olhada para o mapa, mas nunca me veio à mente o colonato da Cela.
Santa Comba como realmente era conhecida foi uma homenagem ao grande estadista, até ao final dos anos quarenta, mas depois descambou para um dos maiores ditadores do século passado.
Agarrado ao poder deixou as colónias em maus lençóis. Nunca lhe passou pela cabeça, uma possível independência das colónias, que formaram o seu império e o país (Portugal), atrasado da restante Europa umas dezenas de anos, mas com os cofres cheios de barras de ouro. A história narrará mais tarde estes factos.
Rui Faria escreve quase no final da sua grande viagem, por aquelas terras, em que poderemos num só dia, apanhar as quatro estações o título:
O CAMINHO DA GUERRA E A PAZ EM WAKU
No dia anterior tínhamos levado 15 horas para percorrer 500 km, antes de partir para Waku Kungo que já se chamou Santa Comba.
Chamo a atenção à expedição de que é normalíssimo esse tempo. Não seria normal em tempos áureos, mesmo com estradas de terra batida. Foi a maneira de ficar a conhecer um pouco melhor a região.
No mesmo artigo diz que a produção de leite atingiu mais de 100.000 litros de leite por dia (antes de 1975). Posso afirmar que nessa altura o colonato da Cela produzia toneladas de produtos hortícolas, que eram consumidas nas mais diversas terras. Penso que será demagógico querer inspirar-se nos Kibutz israelitas para refazer a Aldeia Nova na Zona de Waku ou em outra qualquer. Poderão tentar fazê-lo, mas parece-me que nenhum africano tem espírito para fazer funcionar um Kibutz tal como os israelitas. Até eles já reconverteram os Kibutz por unidades produtoras diferentes e modernas. Mas aqui estamos para ver e eventualmente crer como São Tomé.
Duas belas fotografias ilustram a folha, uma focando a bela igreja de WAKU, réplica da de Santa Comba Dão e a segunda mostrando o antigo palácio colonial. Este está na fase de recuperação e a igreja, o seu interior e telhado estão degradados mas em breve irão ser recuperados, se até lá o telhado não desabar. Numa legenda sob uma das fotos publicadas escreve: …Waku Kungo como a maioria das grandes cidades, está a recuperar todos os antigos palácios do governo colonial. Sabe-se lá porquê… O resto ainda continua à espera.
Dir-lhe-ei a razão já que o senhor se acanhou de explicar aos seus leitores, talvez até para não ferir susceptibilidades. Não tenho esses preconceitos e vou directo ao assunto: Poderá, por exemplo, um governador civil estar a trabalhar numa repartição, que outrora era considerado um edifício dos mais importantes das sedes do concelho, parecido com uma casa abandonada cheia de buracos, com as paredes sem tinta, os vidros partidos, as janelas podres e o telhado a cair?
Em Camacupa existem uns tantos prédios pintados. Na sua maioria, prédios do governo como por exemplo: Escola primária, Hospital, Câmara, Finanças (chamada em Angola de Fazenda) e duas casas particulares: a casa do fotógrafo, que foi pertença de Manuel Côrtes, habitada, ultimamente por um Oriental e outra de estilo colonial com varandas, a toda a volta e que foi pertença de duas idosas tias da família Désirat.
Quem a habita? Desconheço mas penso que não será um qualquer.
Perco-me quando estou a escrever. Caro leitor (as minhas desculpas). A verdade é que a Terra de que falo, está sempre presente no pensamento, quando penso, falo ou escrevo do território angolano.
A quinta etapa: página ilustrada com duas belas fotos. Uma referente à colheita do café e a outra do Instituto do Café de Angola.
O título desta etapa é desolador para os seus componentes.
MAIS ATASCANÇOS
Continua a contar as peripécias e escreve:
…Quando a caravana tentou chegar ao rio para ver os hipopótamos que costumam surgir por ali, voltam os atascanços. Mais à frente a picada tinha tanta lama que parecia mousse de chocolate.
A etapa seguinte é a 6ª tendo o seguinte título:
BOA ENTRADA NA ROTA DAS PLANTAÇÕES DE CAFÉ
Muito embora tenha passado diversas vezes por aquela zona não conheci a fazenda a que o autor faz referência. Desde muito novo ouvi falar da mesma. Tenho conhecimento que a CADA (Companhia Agrícola de Angola) produzia 80% do café e era sua proprietária. Depois das privatizações passou a pertencer ao cidadão José Eduardo dos Santos, conforme descreve.
Etapa 7 Sumbe-Luanda:
REGRESSO A LUANDA COM PRAIA E ANIMAIS
Praia fantástica, a do Cabo Ledo como classifica o repórter ilustrando por baixo do artigo com uma bela foto onde se vê o vasto areal.
É de lamentar saber que o parque da Quiçama se encontra desapropriado da sua tão vasta fauna de outrora (hoje já a ser recuperado) e que a caravana não teve o prazer de se encontrar ao menos com um pequeno antílope como um bambi, nestes quatro milhares de quilómetros percorridos.
Com os títulos PARA PASSEAR EM LUANDA ESQUEÇA O AUTOMÓVEL e REFORMAS A UM RITMO DECEPCIONANTE de Isabel Ramos, o autor termina assim o seu belíssimo artigo dando a conhecer ao mundo, através de fotos, uma décima milionésima parte das belezas naturais que o europeu poderá desfrutar numas férias ali passadas, desde que as condições o permitam.
Quanto a mim, o seu artigo é muitíssimo bom, pois descreve a realidade no que concerne a estradas, casas, praias etc, etc, mas apenas no que diz respeito a esses temas. O certo e compreensível é que o Senhor não foi a Luanda para escrever sobre política e corrupção existente em todo o território, limitando-se a dar umas pequenas dicas. Bem haja pois Rui Faria por me facultar tema para poder redigir, já que me encontrava a escrever e tinha uma parte do meu artigo no computador. Desta forma obtive um pouco mais de matéria.
Luanda, uma das cidades que em tempos, era das principais da África subsaariana.
A economia do território posicionava-se em terceiro lugar; é a última das 125 consideradas das mais competitivas pelo Fórum Económico e Mundial (escreve Isabel Faria no artigo acima mencionado). A cidade degrada-se dia a dia. Vão-se formando bairros a que eu chamo, nada mais do que bairros de lata ou melhor e mais pomposo favelas ou bidon-ville.
Angola estipulou para sua moeda o KWANZA. Para que serve tal moeda se o que predomina é o dólar?
Há uma economia paralela em que a sede é no Roque Santeiro? Ali encontra-se de tudo. Contrabando de roupas e outras mercadorias que o angolano vai buscar ao Rio de Janeiro e naturalmente a outras cidades para ali serem vendidas. Isso era insignificante em comparação com os contentores que são desviados e seguem rumo, para o já célebre mercado. Um visitante aí poderá comprar o que quiser, mas atenção que poderá não chegar a casa ou ao hotel com as compras. Isto é o mínimo que lhe poderá acontecer.
Na capital, Luanda, a luz quase não existe. A que existe é à base de geradores comprados por particulares.
Será que a minha terra está a regredir (nestas três décadas) em vez de avançar? Para que servem as barragens das Mabubas e do maravilhoso rio Kuanza, a uma dezena de km do abandonado Dondo, na qual tive o prazer de ver aquele imenso lago armazenando água para produzir electricidade e fazer funcionar CAMBAMBE.
Esta barragem, na minha opinião mereceu sempre ser escrita com maiúsculas. Bela obra de engenharia!
Não haverá engenheiros de máquinas, mecânicos e outros tantos especialistas para que as barragens possam fornecer a electricidade às cidades carenciadas? Já me recordo: aguardam que os bondosos (salva tudo) chineses façam o trabalho, a custo zero. Abençoados Chinas que estão a dar a maior ajuda a Angola, simplesmente pela amizade que une os dois povos há séculos.
Desde tenra idade que me recordo da bela estátua da MARIA DA FONTE.
Derrubada, jaz por terra, com tantas outras para não se sentir só, no pátio da Fortaleza. Essas estátuas fazem lembrar a época colonial. Não fazem parte da História de Angola. A pobre MARIA foi substituída por outra “maria”, a Rainha Ginga.
Esse sim! Esse já faz parte da história do país. Bem perto está o Mercado de Quinaxixe, onde se vendiam os produtos hortícolas em abundância, peixe e carne (infelizmente foi mandado derrubar por alguém “muito inteligente”).
A linda baía de Luanda, alberga uma série de navios cargueiros fundeados, a aguardar vez para carregar ou descarregar.
Essa vez chegará um dia. Saber aguardar ao largo também é uma grande virtude. As Companhias de Navegação aguardam impacientes a atracagem dos seus cargueiros ao porto de Luanda. No que toca aos aviões da TAAG foram proibidos de voar dentro do espaço aéreo europeu.
Até gosto de ver o símbolo que os aviões usam, já se usavam noutros tempos. A cabeça de uma palanca preta. Este animal, que foi protegido, é natural que se encontre em vias de se extinguir sendo o símbolo de Angola.
Animal lindíssimo, com uns cornos arqueados, atingindo o metro e oitenta centímetros. Exemplares desses animais poderão ser vistos no Jardim Zoológico de Lisboa e no Museu de Taxidermia de Luanda. Este museu estava muito bem organizado, tendo sido seu Director ou Conservador (em tempos) o Dr. Carlos Dias Coimbra, o qual contribuiu grandemente para o seu desenvolvimento.
A Fortaleza, nos anos cinquenta, foi em parte aproveitada como oficinas de restauro dos museus. Por ter convivido muito de perto com o referido Dr. Coimbra, talvez tenha herdado a paixão pelas velharias.
O belo, grandioso e saudoso Liceu Salvador Correia por onde passaram milhares de alunos, desempenhou papel importante na educação e instrução da juventude da antiga colónia. Hoje está a necessitar urgentemente de obras.
O Governo deve olhar atempadamente para tal edifício e não deixar que o mesmo se deteriore cada vez mais. De certeza que muitos dos que ocupam cargos públicos e que tantas vezes, pisaram o chão dos corredores, cujas paredes eram revestidas com belos azulejos, frequentaram as salas no mesmo. Aquelas bocas de peixe aproveitadas na sua maior parte por casais de periquitos para ali nidificarem chamavam a atenção de qualquer um.
Tudo precisa de arranjo mas, mais uma vez, os chineses irão tratar de tudo. O lixo que se vai amontoando pela cidade e que provoca doenças, será também fruto da guerra aos opositores? Eu diria que é, apenas e só, falta de higiene.
Ia-me esquecendo de quanto eram interessantes as QUITANDEIRAS de Luanda que apregoavam pelas ruas a castanha de caju, as maçãs da Índia, (fruto pequeno por vezes farináceo com um sabor agradabilíssimo) e tantos outros produtos que eram vendidos de porta em porta.
As peixeiras também apregoavam o seu peixe pelas ruas daquela linda cidade.
Quem se desse ao trabalho de estar a aprecia-las era um espectáculo bastante interessante. Jamais ouvi ou tive qualquer conversa sobre tais mulheres.
Deixemos Luanda e rumemos até ao território encravado entre os dois Congos e o Atlântico.
O Enclave de Cabinda, de clima quente e húmido, é possuidor de parte de uma das maiores florestas Tropicais.
Milhares de barris de petróleo são embarcados para o estrangeiro arrancados ao fundo do mar.
Milhares de troncos eram exportados. Madeira em bruto. Árvores seculares abatidas, pelos madeireiros. Fiscalização quase inexistente. Rios abaixo iam descendo os enormes troncos até locais de acesso fácil e transportados em camionetas até Lândana, onde eram embarcados no alto mar. Infelizmente ao longo da Costa encontravam-se inúmeros troncos abandonados a apodrecerem. Troncos que eram atrelados uns aos outros e que devido à ondulação forte no mar, antes do embarque, partia-se a jangada e alguns iam ter ao imenso areal ao longo da costa. Outros eram levados pela corrente. Não havia grande preocupação uma vez que os seguros cobriam os prejuízos. Era um autêntico crime que as pessoas envolvidas praticavam.
Aí encontrei plantas que no interior de Angola eram cultivadas em estufas e depois negociadas. Frutos silvestres não faltavam. Mariscos diversos havia em quantidades fabulosas. Os caranguejos do mangal invadiam em certas épocas as poucas ruas da terra. Por vezes serviam de bola de futebol
Cabinda, no meu entender, nunca fez parte integrante do território de Angola. Foi doada a administração da mesma, pelo rei, à coroa portuguesa e assinado o Tratado de Simulambuco em l885, entre as partes. Até nisso os Governantes Portugueses da época, não se preocuparam com essa questão primordial. O problema aqui estava em Angola entregar o território de Cabinda, o mais rapidamente possível, aos seus legítimos proprietários de raça negra.
Há na minha garganta uma espinha atravessada e por isso quando escrevo sobre Angola, lembro-me sempre da “perfeita” descolonização. Ela sai-me do lugar, onde esteve guardada durante estas três décadas e automaticamente desce até às teclas do aparelho que se encontra à minha frente.
Falar sobre Angola daria para escrever um livro. A minha intenção não é essa. Só pretendo passar um pouco do meu tempo, mexendo e brincando com as modernices. Para nós são modernices, pois há certos países em que toda a gente nas escolas, mexeu na informática, há quase meio século. Neste aspecto, Portugal está a dar os primeiros passos no que respeita ao ensino. Muito há ainda a fazer neste campo. Os jovens são os mais desinibidos a mexerem em computadores. Usam-nos a cada instante, uma vez que a maioria deles é possuidor de um telemóvel.
Neste momento ocorreu-me um evento que por toda a Angola tinha um impacto colossal. Milhares de pessoas se deslocavam, dos mais distantes pontos para poderem assistir às SEIS HORAS DE NOVA LISBOA.
Falando nas corridas automobilísticas, daquela cidade planáltica porque não escrever umas poucas linhas sobre a mesma, onde passei parte da minha juventude.
Cidade encantadora apesar de não se encontrar situada no litoral, talvez a segunda cidade mais importante de ANGOLA. Bastante industrializada. Suas fábricas e derivados empregavam um número considerável de pessoas. Os Institutos como o I.I.A.A. (Instituto Investigação Agronómica de Angola), o I.I.V.A. (Instituto Investigação Veterinária de Angola) e o I.I.M.A. (Instituto Investigação Médica de Angola) empregando um número elevado de funcionários, contribuíam grandemente para as investigações nas áreas para que foram fundados. A investigação tornava-se prioritária. Seus técnicos, alguns dos quais aí formados, contribuíam incessantemente nas pesquisas, nos tratamento de doenças, na agricultura, veterinária e na humanidade. Derivado aos seus trabalhos já eram reconhecidos tanto a nível nacional como mundial. Fabricavam-se além de muitos outros produtos, vacinas para combater as maleitas do gado bovino, caprino, suíno e não só. No campo veterinário e que me lembre, há a destacar a imunidade de animais à peste suína. O I.I.M.A. dedicava-se à investigação de doenças endémicas tropicais.
Ruas largas, bem delineadas, espaços verdes junto à linha do caminho de ferro, ladeando uma das avenidas principais, em frente ao Palácio do Governador, frente e lateral ao edifício da Câmara, campos de jogos nas traseiras deste e outros contribuíam para o bem estar e lazer da população; cursos comerciais e industriais funcionavam na Escola Comercial e Industrial Sarmento Rodrigues, da qual todos os anos eram formados uma série de técnicos, que iriam ocupar os mais diversos lugares no comércio e indústria. Havia também um liceu e diversos colégios particulares, assim como escolas do Ensino Básico (Ensino Primário).
O seu hospital, que foi grande, estava a tornar-se pequeno, mediante o aumento demográfico da população. Os serviços de urgência funcionava muitíssimo bem, quase não havia tempo de espera. Casos mais graves davam entrada imediatamente, sem haver a burocracia da papelada: eram tratados e só posteriormente se resolvia o restante.
Entre organismos públicos e particulares formavam-se equipas de futebol de salão, hoje futsal, e quase todas as noites os adeptos assistiam e torciam pelas suas equipas. As bancadas geralmente, encontravam-se repletas, o que dava ao Atlético uma receita bastante significativa. No mesmo pavilhão também havia combates de box, os quais eram muito apreciados pela população masculina e alguma feminina.
Apesar do frio, na estação do “cacimbo”, um passeio pela baixa na zona do cinema Ruacaná e tomar um café na pastelaria Diana ou na pastelaria e esplanada do Hotel Ruacaná, era quase obrigatório diariamente, depois do jantar. As melhores casas comerciais situavam-se na zona. Boas piscinas pertencentes ao Ferrovia e ao Sporting não faltavam.
Eis pois o que foi Nova Lisboa (Huambo). Parece-me que de certo modo foquei os pontos principais. O que resta daquela maravilhosa terra bem perto do Alto Hama com aqueles morros graníticos lá no fundo, a dar ao horizonte uma vista espectacular? Sei bem o que resta. DESTRUIÇÃO… destruição e nada mais…
Acabo de receber um email. Mais ou menos já sabia o que continha. Deixei a escrita e fui saber mais novidades sobre a tão falada terra no centro de Angola. Quem o escreveu? (já não ia lá há 15 anos). É filho da terra. Ali nasceu, cresceu e continua a viver em Angola.
Perante o que escreveu, resolvi não fazer qualquer comentário, De princípio ao fim fala de destruição. A certa altura escreve: CAMACUPA MAIS PARECE UMA TERRA FANTASMA. Acho que a frase é bem expressiva e nada há a dizer. Penso que tal artigo será muito em breve publicado.
Há muito racismo entre as diversas etnias. A maneira de falarem de uma etnia diferente dá a conhecer por vezes, o ódio que corre naquelas cabeças. O racismo não é só entre o homem branco e o homem negro. Poderá ser entre a mesma cor de pele. Em Angola estava muito difundido o racismo, embora camuflado. Como as mentalidades não se alteram em curto espaço de tempo deve-se manter a mesma situação, era mais evidenciada quando havia qualquer maka e estavam envolvidas etnias diferentes.
Temos o exemplo nas terras do Norte de Angola em que os Bailundos foram chacinados como se animais se tratassem. No Ruanda e em tantos outros países sucede o mesmo. Na Europa também existe. Penso no parisiense, para não falar na Bósnia ou outros locais da Europa. Acho o parisiense um pouco racista perante o estrangeiro. Pelas três ou quatro vezes que lá estive, tive essa sensação e numa das vezes respondi a alguém por terem sido proferidas expressões menos agradáveis. Essas as impressões com que fiquei do habitante daquela maravilhosa cidade atravessada pelo Sena.
Sei perfeitamente distinguir o racismo do não gostar de alguém ou desse alguém não ser desejado no meio, por qualquer motivo. Julgo que, no ser humano, por vezes muito tolerante, no fundo há sempre qualquer acção rácica.
Bailundo, terra bem perto da sede do Distrito do Huambo, sede do concelho do mesmo nome, foi durante alguns meses o local onde trabalhei. Bastante acolhedora fazia parte daquela Angola tão promissora. Para não fugir á regra encontra-se escavacada e se não forem os amarelos não serão certamente os africanos a reconstruí-la. Triste sorte.
Benguela, cidade já bastante industrializada, com clima quente e húmido no verão. Sente-se menos calor a partir de Maio até meados de Agosto, passando nessa altura a subir a temperatura e as águas do Atlântico a aquecer lentamente, chegando a parecer que tinham acendido uma fogueira por baixo da água, pois esta encontrava-se morna.
A secagem de peixe, a indústria do peixe e tudo que com ela se relacionasse ocupava grande parte da mão de obra. A agricultura era a área para onde muitos trabalhadores do interior convergiam. Bananeiras e produtos hortícolas eram os mais cultivados. Mais indústria foi naquela terra instalada. Segundo se consta, muitas dessas indústrias foram conhecer paisagens exóticas, além mar, onde é cantada a cada passo que se dá a tão conhecida música latino-americana Guantanamera. Aí estão a funcionar.
Belas e extensas praias eram o lazer da maioria da população, onde cada um passava o fim de semana. Existiam bonitas casas de lazer na Baía Azul, Baía Farta, Caota, Caotinha e outras. Havia casas geralmente fresquinhas devido à brisa do Oceano. Muitos escorpiões se encontravam debaixo das pedras que rodeavam as casas, ou mesmo dentro das garagens que estivessem ao nível da terra. Os matrindindes (espécie de gafanhoto) também invadiam o asfalto da estrada, em certas épocas e eram esmagados pelos rodados dos veículos; frondosas árvores (acácias rubras) cobriam as ruas de um lado ao outro, fornecendo a sua sombra a quem por ali passasse. A pérgula, na praia de Benguela coberta com as trepadeiras, as buganvílias de diversas cores, também fornecia sombra aos mirones e banhistas que ali se dirigissem e se quisessem refrescar com uma Cuca ou Nocal ou só com uma água bem geladinha. Para sossego dos leitores, informo que também existiam vários refrigerantes e não só as cervejas acima citadas.
A uma ou duas dezenas de quilómetros estavam as pontes do Rio Catumbela do estilo Eiffel e a fábrica de açúcar e álcool da Cassequel, sendo estes dois produtos consumidos no território e os excedentes exportados. A estrada de Benguela-Lobito e que passava bem junto a Catumbela era ladeada por uma grande plantação de cana de açúcar para fornecimento de matéria prima à fábrica, bem como palmeiras de dendém em que os tecelões (pássaros) aproveitavam as folhas para fazerem os ninhos.
Ultrapassando o rio e a plantação de cana sacarina, está-se praticamente no Lobito. Do lado esquerdo e lá ao fundo o Aeroporto. Vem a seguir a Caponte, onde a terra parece fugir-nos dos pés, quando um machimbombo ou outro qualquer veículo passa. Tudo estremece. Parte da cidade está construída em cima do pântano e outra no areal. Técnicas especiais, quanto aos alicerces tinham que ser postas em prática, pelos engenheiros civis na construção das moradias ou prédios. Depois da Caponte, uma ponte que mais parecia a continuação da estrada liga uma outra parte (península) do Lobito, que se estende desde o cinema Flamingo (onde se podia ver cinema ao ar livre e até grandes artistas como AMÁLIA e CARLOS DO CARMO, que ali actuaram) até á Restinga. Entretanto essa parte deixou de ser península com a abertura da nova estrada a passar pelos edifícios de ensino e um bairro tudo construído por cima do pântano, onde os flamingos e outras aves se alimentam. Foi chamada a Pérola do Atlântico. Melhor nome não poderia ser posto! Junto ao miradouro, bem no cimo do morro, a cidade estendia-se naquele sentido. Por ali passava a estrada que dá acesso a Luanda, Serra do Pundo e Nova Lisboa (Huambo).
O Restaurante - Café Tamariz com a sua grande esplanada, era um dos pontos de encontro, para uma mera cavaqueira, ou para dar ao serrote (comer).
Boas lagostas e santolas estavam em exposição nos dois ou três aquários ali existentes. A paisagem era lindíssima vendo-se do outro lado da baía, além dos navios que se encontravam ao largo, fundeados e outros atracados ao porto, a Sorefame e o morro. Quando dos confrontos entre os partidos podiam-se ver os projécteis tracejantes sobre a baía, de noite, fazendo lembrar fogo de artifício.
A fauna marítima na baía é muito diversificada, aparecendo por vezes cardumes de atuns barracudas, roncadores e outros, além dos sempre existentes mariquitas ou sargos, baiacus, pargos e pargo mulato, peixe espada branco, carapaus e tantos outros pelo que contribuíam, para o aglomerado de pescadores desportivos, nas Portas do Mar, Capitania e Restinga, principalmente ao cair do sol até às tantas da noite ou da madrugada.
As noites eram animadas com o som das músicas nas diversas BOITES, existentes e muito frequentadas por marinheiros e habitantes, onde se podiam apreciar todas as noites sessões de streep.
Escrever sobre Angola é relembrar o passado, um passado, cada vez mais distante, como a distância que separa Portugal da sua antiga colónia. Faz lembrar velhos amigos, muitos dos quais já não pisam a terra que nós pisamos. Esses partiram para sempre, pois a vida é uma curta passagem. Tudo tem um começo e um fim.
Estou no fim deste artigo que dá a conhecer por alto, o que foi e o que é aquele território onde houve a fase das guerras entre tribos, entre colonizadores e colonizados, escravatura, independência e novamente a colonização disfarçada. Voltarei apenas para contar episódios vividos por mim e por outros naquela grande TERRA.
António Serrano