Entrar segunda-feira, 21 de Maio de 2012
 Uma História... de Quando em Quando!

*NOTA DO SITIO www.camacupa.com

 

António Serrano escreveu este contundente artigo de opinião já há algum tempo e às pessoas menos atentas poderá parecer que o mesmo está desactualizado ou completamente fora de questão.

Perfeito e rotundo engano!

Vejamos porquê: Angola começou a senda do dito “progresso” há cerca de três anos atrás, exactamente quando foram marcadas as eleições legislativas que se realizaram há dias.

Esse progresso não ultrapassou o asfalto e o betão.

Poucos Angolanos puderam estar efectivamente embrenhados no processo que foi entregue especialmente a empresas chinesas e também a algumas portuguesas.

O nosso grande desejo é que esse enorme e fabuloso País, que é Angola, possa efectivamente trilhar os caminhos do progresso, da modernidade, da cultura, da compreensão, da interculturalidade e da tolerância.

Mas convenhamos que, enquanto na capital do País e até na mais humilde das suas cidades (Camacupa como exemplo), não existir energia eléctrica, água potável canalizada, lugares onde dormir e comer e as crianças e jovens continuarem na rua, o progresso está muito longe de existir.

Por todas estas razões www.camacupa.com resolveu partilhar todas as inquietações de António Serrano.

 

5 - SANGUE, SUOR e… lágrimas!

 

Camacupa situa-se no Centro geodésico de Angola, assim foi estudado por alguém conhecedor da matéria (talvez um geodesista), que ali assinalou o CENTRO da PROVÍNCIA tendo sido erigido um belíssimo monumento. Um CRISTO REI que o Padre Armando Amaral dos Santos, posteriormente Bispo de Benguela, mandou executar, tendo sido seu autor o excelente escultor José Thedim. A estátua foi ali colocada depois de ter sido construída de corpo inteiro em S. Mamede do Coronado, na Trofa. A imagem foi decepada, durante a última guerra de Angola, por alguém a quem o Cristo Rei não quis atender um pedido que o seu decepador Lhe fizera.

Camacupa foi crescendo e o esforço da maioria dos seus habitantes, era bem visível, na construção de suas casas, lojas e em tudo o que desse ou pudesse dar desenvolvimento à tão conhecida vila situada no planalto do Bié

A juventude dava-lhe uma vida invulgar, principalmente ao anoitecer. Grupos de rapazes e de raparigas, juntavam-se, passeavam pelas ruas, conversando ou até namorando. Os festejos, organizados pelos dois Clubes da terra, eram o ponto de atracção de muitos forasteiros, que convergiam para ali, com o fim de passarem um fim de semana mais divertido que os habituais.

Havia também os caixeiros-viajantes, (de uma maneira geral jovens) que visitavam os mais diversos comerciantes, onde por meio de um mostruário davam a conhecer as novidades recebidas, com o fim de uma possível transacção. Estes aproveitavam a altura para se divertirem participando nas festas, tal como faziam os residentes e os vindos dos arredores.

O inverso também existia naquela pacata terra. Comerciantes que não tinham um único dia de descanso. Quase sempre havia uma porta nas traseiras da loja que dava para o quintal e encontrava-se, quase sempre, meia aberta. O dono do estabelecimento aguardava que o cliente chegasse e lhe comprasse qualquer mercadoria. A maior parte das vezes era o vinho e a cerveja que mais vendia. A dona de casa também recorria a esses comerciantes na falta de algum produto que, por esquecimento, não comprara no dia normal de expediente. A maior parte do comércio era feito com base na confiança.

O cliente só pagava no fim do mês. Aí se juntavam os amigos. Amigos…! não será o termo apropriado, mas poderá dizer-se amigos dos copos. Aquelas bocas sequiosas ingeriam os primeiros copitos. Por fim, toda a zurrapa corria por aquelas goelas abaixo, sem reclamações. Cambaleando pelas ruas, dizendo palavrões ou apenas falando, lá iam com o seu destino marcado que por vezes era interrompido por uma soneca, a um canto do passeio ou até mesmo na estrada.

O comerciante do mato, o aviado, como era conhecido, também não tinha qualquer dia de descanso. Por vezes chegava a abrir as portas da loja como se de um dia normal se tratasse. Trocavam mercadoria por cereais e pelos mais variados produtos que a terra lhes dava. Por animais que o nativo lhe oferecia. Dia após dia, lá iam passando os anos.  Seus filhos que até ali não passavam de uns bebés, confrontavam-se com a realidade.

Estudar, era a prioridade. Muitos dos miúdos ficavam instalados em casa de parentes ou amigos. Nem sempre o sacrifício dos pais era recompensado.

A falta de convivência, o meio em que estavam integrados, o isolamento no que concerne a comunicabilidade com europeus, tornava-os extremamente gentis, comunicativos, prontos a receberem qualquer pessoa com a maior amabilidade que lhes era possível, compartilhando com o visitante as iguarias de que dispunham em suas isoladas casas, onde a passagem de uma viatura era como se fosse quase um acontecimento histórico.

Gostavam de saber o que se ia passando em Camacupa, perguntando por amigos e conhecidos. Falavam de futebol, trocavam impressões sobre as notícias que iam ouvindo através das emissoras. O aparelho de rádio (telefonia) era o único contacto com o mundo civilizado.

De um modo geral a população angolana estabelecia entre si uma relação amigável, bastante cordial.

O clima do litoral, quente e húmido, provocava nas pessoas uma maior convivência social e humana. No entanto, para quem chegasse de novo a uma cidade, as relações e os contactos eram um pouco mais difícil e complicados. O clima do interior (do planalto) contribuía para que o relacionamento social das pessoas fosse algo mais reservado, dado que o frio das noites, não proporcionava tanto os encontros nocturnos nem a saída de casa. Através dos serviços, onde o «forasteiro» estava inserido é que poderia começar a contactar com as pessoas ali nascidas ou residentes (esta referência é apenas para as cidades do interior).

Aquela bela terra que nos viu crescer, não poderia fugir à regra. Todos se conheciam, todos se cumprimentavam mas havia sempre simpatias maiores por uns do que por outros. Assim se estabeleceram grandes amizades que ainda hoje perduram.

Com a vinda em massa de grande parte das pessoas, de origem europeia ou não, essas amizades não deixaram de existir mas perderam-se imensos contactos. Porém, durante muitos anos, os reencontros são feitos em diversas cidades Portuguesas sempre com o intuito de se reverem os amigos do coração.

Com a alternativa dos computadores tornam-se mais fáceis os contactos e através de uns, lá vamos descobrindo o paradeiro dos outros que, com os anos, foram desaparecendo da circulação. É realmente um prazer localizar amigos de infância que, jamais seria possível, se não fosse este meio de comunicação que é a Net.

Faço um apelo a todos os Camacupenses: os que puderem comprar um computador, mesmo velhinho mas a trabalhar, que o façam. Não há a desculpa de que estão velhos para utilizar a máquina. A custo de explicações dos mais novos, vamos tendo o prazer de, dia a dia, descobrir novos mundos, como fizeram os nossos velhos marinheiros, que descobriram o Brasil, atravessaram o Cabo das Tormentas e chegaram ao grande continente que é a Ásia. Partam também na aventura que é a Internet. Jamais se arrependerão. Aprende-se a navegar sem que haja o problema do barco naufragar, do avião se despenhar ou de embater com o seu Mercedes, B.M.W., ou outro de alta cilindrada, na árvore secular, plantada por um desconhecido. Desconhecido que teve a feliz ideia, de plantar uma árvore, da qual seus netos ou até bisnetos usufruem do oxigénio produzido, dos frutos ou da sombra. Da parte que me toca vão os meus agradecimentos para o tal desconhecido.

Os forasteiros, na minha pacata e emblemática segunda TERRA, eram, regra geral, sempre bem recebidos pela população. Com a visita de tais pessoas geravam-se mais empregos, tanto no tocante à hotelaria como no comércio em geral. O futebol, o caminho de ferro, e as rodovias, movimentavam um número bastante significativo de pessoal.

Raro era o casal que tinha um só filho. Pelo menos tinham dois ou três filhos. Cresciam e faziam na terra a admissão ao liceu. A partir daí iam estudar para as mais distantes cidades. Filhos da terra, ou jovens que ali cresceram, há alguns médicos, mais médicas, engenheiros, professoras, formaturas em germânicas, história, matemática, agronomia e tantas outras. Com canudo ou sem ele, os jovens partiam à procura de uma vida mais desafogada.

Regressavam à terra para matarem saudades da família e amigos. Ali permaneciam uns dias e ao fim do tempo estipulado, recomeçavam a labuta do dia a dia na nova terra de acolhimento.

Os mais velhos, os chamados de SECÚLOS, pelos nativos, permaneciam pela força das circunstâncias no local de trabalho até que a morte os levasse. A maior parte não abandonaria o resultado de uma vida de trabalho para acompanhar o filho ou os filhos.

Assim era a vida e cada um conformava-se com a parte que lhe cabia, pois nascemos aqui passamos por ali e morreremos acolá.

Sendo Camacupa o Centro de Angola, podia irradiar-se para qualquer ponto do país com relativa facilidade.

Assim sendo, partiremos para a fronteira do Congo, para posteriormente se alcançarem as grandes minas de cobre, situadas na Província do Catanga de onde transitavam toneladas do metal extraído, originando um rendimento fabuloso ao Caminho de Ferro de Benguela e ao porto do Lobito. Nova Lisboa (Huambo) bem perto de Camacupa depois Caála, Ganda e Lobito. Havia uma estrada directa, com passagem pelo Andulo, Quibala, Calulo, Dondo e por fim a capital LUANDA.

A Quibala é terra dos grandes trovões, penso que muito mais que em Camacupa, nos dias chuvosos em que o céu fica todo iluminado. Raios (faíscas como se dizia) caem subdividindo-se.

Esta estrada de que falo, hoje em dia é uma autêntica picada. A degradação foi total nestes últimos anos porque os buracos nunca foram tapados e as valetas nunca foram desobstruídas.

Qual a razão para se ter tanto trabalho se por ali não passavam carros? E mesmo que passassem não seria necessário pois as viaturas desviar-se-iam para a valeta e assim se ia abrindo um desvio com os rodados. Esta é a realidade dos factos.

Na época colonial muitos governantes tentaram impor aos nativos os hábitos portugueses, a sua cultura contrariando tudo aquilo a que o nativo estava familiarizado. No Lubango, (Sá da Bandeira) a mulher não podia entrar na cidade, sem estar vestida, pois apenas usa uma tanga. - Resultado: ela cobria-se com um pano sujo, embebido no produto que usavam salvo erro à base de leite, bosta de vaca e algum barro e lá iam com os seios à mostra para o lugar pretendido. O pano era retirado dos ombros logo que ultrapassasse a última casa da cidade.

As crianças do sexo feminino e de raça negra, não poderiam frequentar a escola se usassem os carrapitos no cabelo e missangas como era vulgar ver-se.

Normas e leis aprovadas pelos políticos portugueses.

Até nestas pequenas coisas se pode verificar a formação política, pequenas coisas em relação ao cidadão vulgar. Quase que passava despercebido mas, no campo político, o caso mudava de figura. Atendendo a que são nomeados para certos cargos governativos homens ligados à mesma cor politica e sem que tenham conhecimento da identidade, da cultura, dos costumes dos povos que governavam, impondo à força os seus hábitos, os seus costumes isto trouxe dissabores aos que lá nasceram e contentamento, orgulho para os politiqueiros após o 25 de Abril.

Ainda hoje se nota uma grande falta de preparação política entre membros dos partidos políticos.

O POVO cá está para os julgar no fim de cada mandato. O mesmo não sucedia em tempos áureos.

Depois dos cubanos em Angola, dos americanos e europeus chegam os chineses que a pouco e pouco se espalham por todo o mundo.

É enfadonho estar a ler-se um artigo e o mesmo degenerar para a política. Certo é que os factos estão interligados e nós, sem querermos, descambamos para o prato da balança que a contém, narrando factos passados. Factos esses desconhecidos pela maioria da juventude, bem como o 25 de Abril. Hoje a maioria da juventude desconhece o que significa para Portugal o tão glorioso dia da revolução. Para uns glorioso e malfadado para outros.

Natural que a política acompanha o cidadão e quando esse cidadão escreve com o bater dos dedos no teclado a política está na ponta dos dedos e é transmitida à máquina que reproduz o nosso pensamento. Procurarei escrever mais sobre aquelas terras distantes onde nasci, cresci, estudei, casei e aí me nasceu o único herdeiro.

Hoje, casualmente estando sentado numa clínica médica, deparei com uma revista editada pelo Correio da Manhã, chamada «DOMINGO» de 10 a 16-06-2007, que continha uma capa muito interessante com uma fotografia de uma sanzala entre Malange e Pungo Andongo. O título é: REGRESSO A ANGOLA!

Quatro mil quilómetros de Luanda ao Calulo, do Kuito a Porto Aboim, uma volta entre o passado e o presente.

Claro que a minha curiosidade concentrou-se naquele artigo em que seu autor RUI FARIA descreve a bela e tumultuosa viagem, que foi ilustrada com fotografias.

Olho para as mesmas e o que me parece, ou tenho a certeza, é que Angola está destruída pela guerra, pela negligência dos seus habitantes e o pior pela corrupção que grassa entre os seus dirigentes.

Deste artigo aproveito para transcrever certas passagens escritas pelo autor como: …surgiu a imagem das belezas naturais, dos grandes espaços e de uma terra que “tem cheiro” e uma luminosidade diferente. Não tenham dúvidas. É tudo verdade.

Agora sou eu que pergunto: Quem poderá duvidar de si, caro autor? Se o fizer é porque não conhece minimamente Angola. Esse nunca saiu do Aeroporto ou talvez nunca tenha pisado terra africana. África é a sedução de grande parte dos cidadãos europeus. É diferente de tudo o que se possa imaginar chegando por vezes a extasiar o turista com a sua grandiosidade ou com a beleza de suas paisagens inigualáveis.

Continua escrevendo: …A savana tem um verde intenso. As distâncias medem-se pelo relógio e não pelos quilómetros, tanto mais que a maior parte das estradas foram destruídas pela guerra e as picadas esquecidas por trinta anos de conflito. E mais à frente diz: …É certo que hoje ainda é uma verdadeira aventura viajar em Angola… Limito-me a transcrever o que foi escrito pelo autor RUI FARIA.

Fala da grande invasão chinesa e vou transcrever na íntegra: …Ao longo da estrada que liga Luanda a Malange são evidentes os sinais da invasão chinesa. Os acordos para a recuperação de estradas e o caminho de ferro levaram para Angola um número incrível de trabalhadores chineses, um pouco a exemplo do que acontece em todo o continente africano. Os estaleiros sucedem-se, e até muitas tabuletas que vimos na estrada estavam com caracteres chineses, para já não falar nas lojas”…

Aqui faço as perguntas aos Senhores Dirigentes: - Qual o preço que o povo Angolano vai pagar por essa INVASÃO? Nesse campo, não haveria trabalhadores, filhos da terra, que trabalhassem com técnicos «importados» de outros países? O que fazem milhares de indivíduos que vagueiam pelas ruas de Luanda sem emprego e que a maioria vive na mega favela, Roque Santeiro como é conhecida? - Jamais obterei qualquer resposta a estas minhas ingénuas perguntas aos governantes daquele belo e devastado país.

Como nunca obterei resposta resolvi continuar a ler na revista o artigo escrito e deparei com o seguinte:

DE LUANDA A MALANGE POR ASFALTO

Eis pois um título que entusiasma qualquer leitor. Este verifica que nem tudo é ruim. A certa altura e ainda sobre a capital escreve:

…a caravana partiu às cinco da manhã, cruzando uma cidade ainda a dormir, pelo que nem sequer encontrámos os candongueiros com as suas Hiace que servem de táxi e onde a lotação depende de quantos consigam entrar. Seguindo para Norte ao longo da baía, vimos o grande número de barcos que esperam (às vezes meses) para descarregar… O Dondo parece perdido no tempo, com os seus belos edifícios do século XIX muito degradados.

O título do que se segue não é tão sugestivo como o anterior. Fala das magníficas quedas, tão divulgadas que foram, (na época colonial). As mesmas estavam estampadas numa nota de banco emitida pelo Banco de Angola: as quedas do Duque de Bragança. Hoje são conhecidas pelo nome gentílico, por quedas de Kalandula. Plenamente de acordo com a alteração dos nomes das terras, de tudo que, durante a ocupação portuguesa foi alterado dos nomes gentílicos para nomes portugueses. No meu entender foi um erro crasso dos governantes portugueses em quererem modificar o que estava enraizado há anos na mentalidade dos naturais e dos que ali se estabeleceram.

 

Ah! Agora me lembro que ainda está por esclarecer o título menos sugestivo: 

MALANGE ATÉ AO CALULO NO MEIO DE MARES DE LAMA.

Prossegue escrevendo: …A picada era uma papa de lama e os grandes buracos criados ao longo dos anos, pareciam mais lagos.

 

O seguinte título:

KUÍTO FOI UMA CIDADE MARTIRIZADA

Por cima há três fotografias. Se a memória não me atraiçoa, são fotografias tiradas aos prédios, que se situavam na Avenida Principal à entrada de Silva Porto perto das salas de aulas dos Maristas.

Um deles até parece estar enfeitado com plantas que caem pelas paredes abaixo. O que parece ser as tais ditas plantas não passam de buracos (ilusão óptica).

A certa altura do texto deparo com umas tantas frases que, como não podia deixar de ser, mostram bem o desenvolvimento grandioso dos últimos trinta e poucos anos: …«Ainda não tínhamos andado muito quando um a um, quase todos os Nissan da caravana foram ficando atascados.

E continua: …«Em muitos locais, o capim invadiu a picada, noutros os troncos que servem de ponte tiveram que ser recolocados e mesmo em pista aberta era necessário fazer trial. Parámos numa sanzala perdida, assustando algumas crianças que começaram a chorar. A explicação foi surpreendente: …«nunca tinham visto brancos.»

No meu entender a caravana teve muita sorte em ainda encontrar os troncos de que fala. Naturalmente por estarem longe dos Kimbos ou nos arredores haver árvores para as fogueiras. Desta maneira pouparam energias e os Senhores puderam utilizá-los.

O nome WAKU KUNGO não me era familiar. Dei uma olhada para o mapa, mas nunca me veio à mente o colonato da Cela.

Santa Comba como realmente era conhecida foi uma homenagem ao grande estadista, até ao final dos anos quarenta, mas depois descambou para um dos maiores ditadores do século passado.

Agarrado ao poder deixou as colónias em maus lençóis. Nunca lhe passou pela cabeça, uma possível independência das colónias, que formaram o seu império e o país (Portugal), atrasado da restante Europa umas dezenas de anos, mas com os cofres cheios de barras de ouro. A história narrará mais tarde estes factos.

Rui Faria escreve quase no final da sua grande viagem, por aquelas terras, em que poderemos num só dia, apanhar as quatro estações o título:

 

O CAMINHO DA GUERRA E A PAZ EM WAKU

No dia anterior tínhamos levado 15 horas para percorrer 500 km, antes de partir para Waku Kungo que já se chamou Santa Comba.

Chamo a atenção à expedição de que é normalíssimo esse tempo. Não seria normal em tempos áureos, mesmo com estradas de terra batida. Foi a maneira de ficar a conhecer um pouco melhor a região.

No mesmo artigo diz que a produção de leite atingiu mais de 100.000 litros de leite por dia (antes de 1975). Posso afirmar que nessa altura o colonato da Cela produzia toneladas de produtos hortícolas, que eram consumidas nas mais diversas terras. Penso que será demagógico querer inspirar-se nos Kibutz israelitas para refazer a Aldeia Nova na Zona de Waku ou em outra qualquer. Poderão tentar fazê-lo, mas parece-me que nenhum africano tem espírito para fazer funcionar um Kibutz tal como os israelitas. Até eles já reconverteram os Kibutz por unidades produtoras diferentes e modernas. Mas aqui estamos para ver e eventualmente crer como São Tomé.

Duas belas fotografias ilustram a folha, uma focando a bela igreja de WAKU, réplica da de Santa Comba Dão e a segunda mostrando o antigo palácio colonial. Este está na fase de recuperação e a igreja, o seu interior e telhado estão degradados mas em breve irão ser recuperados, se até lá o telhado não desabar. Numa legenda sob uma das fotos publicadas escreve: Waku Kungo como a maioria das grandes cidades, está a recuperar todos os antigos palácios do governo colonial. Sabe-se lá porquê… O resto ainda continua à espera.

Dir-lhe-ei a razão já que o senhor se acanhou de explicar aos seus leitores, talvez até para não ferir susceptibilidades. Não tenho esses preconceitos e vou directo ao assunto: Poderá, por exemplo, um governador civil estar a trabalhar numa repartição, que outrora era considerado um edifício dos mais importantes das sedes do concelho, parecido com uma casa abandonada cheia de buracos, com as paredes sem tinta, os vidros partidos, as janelas podres e o telhado a cair?

Em Camacupa existem uns tantos prédios pintados. Na sua maioria, prédios do governo como por exemplo: Escola primária, Hospital, Câmara, Finanças (chamada em Angola de Fazenda) e duas casas particulares: a casa do fotógrafo, que foi pertença de Manuel Côrtes, habitada, ultimamente por um Oriental e outra de estilo colonial com varandas, a toda a volta e que foi pertença de duas idosas tias da família Désirat.

Quem a habita? Desconheço mas penso que não será um qualquer.

Perco-me quando estou a escrever. Caro leitor (as minhas desculpas). A verdade é que a Terra de que falo, está sempre presente no pensamento, quando penso, falo ou escrevo do território angolano.

A quinta etapa: página ilustrada com duas belas fotos. Uma referente à colheita do café e a outra do Instituto do Café de Angola.

O título desta etapa é desolador para os seus componentes.

 

MAIS ATASCANÇOS

Continua a contar as peripécias e escreve:

…Quando a caravana tentou chegar ao rio para ver os hipopótamos que costumam surgir por ali, voltam os atascanços. Mais à frente a picada tinha tanta lama que parecia mousse de chocolate.

 

A etapa seguinte é a 6ª tendo o seguinte título:

BOA ENTRADA NA ROTA DAS PLANTAÇÕES DE CAFÉ

Muito embora tenha passado diversas vezes por aquela zona não conheci a fazenda a que o autor faz referência. Desde muito novo ouvi falar da mesma. Tenho conhecimento que a CADA (Companhia Agrícola de Angola) produzia 80% do café e era sua proprietária. Depois das privatizações passou a pertencer ao cidadão José Eduardo dos Santos, conforme descreve.

 

Etapa 7 Sumbe-Luanda:

REGRESSO A LUANDA COM PRAIA E ANIMAIS

Praia fantástica, a do Cabo Ledo como classifica o repórter ilustrando por baixo do artigo com uma bela foto onde se vê o vasto areal.

É de lamentar saber que o parque da Quiçama se encontra desapropriado da sua tão vasta fauna de outrora (hoje já a ser recuperado) e que a caravana não teve o prazer de se encontrar ao menos com um pequeno antílope como um bambi, nestes quatro milhares de quilómetros percorridos.

Com os títulos PARA PASSEAR EM LUANDA ESQUEÇA O AUTOMÓVEL e REFORMAS A UM RITMO DECEPCIONANTE de Isabel Ramos, o autor termina assim o seu belíssimo artigo dando a conhecer ao mundo, através de fotos, uma décima milionésima parte das belezas naturais que o europeu poderá desfrutar numas férias ali passadas, desde que as condições o permitam.

Quanto a mim, o seu artigo é muitíssimo bom, pois descreve a realidade no que concerne a estradas, casas, praias etc, etc, mas apenas no que diz respeito a esses temas. O certo e compreensível é que o Senhor não foi a Luanda para escrever sobre política e corrupção existente em todo o território, limitando-se a dar umas pequenas dicas. Bem haja pois Rui Faria por me facultar tema para poder redigir, já que me encontrava a escrever e tinha uma parte do meu artigo no computador. Desta forma obtive um pouco mais de matéria.

Luanda, uma das cidades que em tempos, era das principais da África subsaariana.

A economia do território posicionava-se em terceiro lugar; é a última das 125 consideradas das mais competitivas pelo Fórum Económico e Mundial (escreve Isabel Faria no artigo acima mencionado). A cidade degrada-se dia a dia. Vão-se formando bairros a que eu chamo, nada mais do que bairros de lata ou melhor e mais pomposo favelas ou bidon-ville.

Angola estipulou para sua moeda o KWANZA. Para que serve tal moeda se o que predomina é o dólar?

Há uma economia paralela em que a sede é no Roque Santeiro? Ali encontra-se de tudo. Contrabando de roupas e outras mercadorias que o angolano vai buscar ao Rio de Janeiro e naturalmente a outras cidades para ali serem vendidas. Isso era insignificante em comparação com os contentores que são desviados e seguem rumo, para o já célebre mercado. Um visitante aí poderá comprar o que quiser, mas atenção que poderá não chegar a casa ou ao hotel com as compras. Isto é o mínimo que lhe poderá acontecer.

Na capital, Luanda, a luz quase não existe. A que existe é à base de geradores comprados por particulares.

Será que a minha terra está a regredir (nestas três décadas) em vez de avançar? Para que servem as barragens das Mabubas e do maravilhoso rio Kuanza, a uma dezena de km do abandonado Dondo, na qual tive o prazer de ver aquele imenso lago armazenando água para produzir electricidade e fazer funcionar CAMBAMBE.

Esta barragem, na minha opinião mereceu sempre ser escrita com maiúsculas. Bela obra de engenharia!

Não haverá engenheiros de máquinas, mecânicos e outros tantos especialistas para que as barragens possam fornecer a electricidade às cidades carenciadas? Já me recordo: aguardam que os bondosos (salva tudo) chineses façam o trabalho, a custo zero. Abençoados Chinas que estão a dar a maior ajuda a Angola, simplesmente pela amizade que une os dois povos há séculos.

Desde tenra idade que me recordo da bela estátua da MARIA DA FONTE.

Derrubada, jaz por terra, com tantas outras para não se sentir só, no pátio da Fortaleza. Essas estátuas fazem lembrar a época colonial. Não fazem parte da História de Angola. A pobre MARIA foi substituída por outra “maria”, a Rainha Ginga.

Esse sim! Esse já faz parte da história do país. Bem perto está o Mercado de Quinaxixe, onde se vendiam os produtos hortícolas em abundância, peixe e carne (infelizmente foi mandado derrubar por alguém “muito inteligente”).

A linda baía de Luanda, alberga uma série de navios cargueiros fundeados, a aguardar vez para carregar ou descarregar.

Essa vez chegará um dia. Saber aguardar ao largo também é uma grande virtude. As Companhias de Navegação aguardam impacientes a atracagem dos seus cargueiros ao porto de Luanda. No que toca aos aviões da TAAG foram proibidos de voar dentro do espaço aéreo europeu.

Até gosto de ver o símbolo que os aviões usam, já se usavam noutros tempos. A cabeça de uma palanca preta. Este animal, que foi protegido, é natural que se encontre em vias de se extinguir sendo o símbolo de Angola.

Animal lindíssimo, com uns cornos arqueados, atingindo o metro e oitenta centímetros. Exemplares desses animais poderão ser vistos no Jardim Zoológico de Lisboa e no Museu de Taxidermia de Luanda. Este museu estava muito bem organizado, tendo sido seu Director ou Conservador (em tempos) o Dr. Carlos Dias Coimbra, o qual contribuiu grandemente para o seu desenvolvimento.

A Fortaleza, nos anos cinquenta, foi em parte aproveitada como oficinas de restauro dos museus. Por ter convivido muito de perto com o referido Dr. Coimbra, talvez tenha herdado a paixão pelas velharias.

O belo, grandioso e saudoso Liceu Salvador Correia por onde passaram milhares de alunos, desempenhou papel importante na educação e instrução da juventude da antiga colónia. Hoje está a necessitar urgentemente de obras.

O Governo deve olhar atempadamente para tal edifício e não deixar que o mesmo se deteriore cada vez mais. De certeza que muitos dos que ocupam cargos públicos e que tantas vezes, pisaram o chão dos corredores, cujas paredes eram revestidas com belos azulejos, frequentaram as salas no mesmo. Aquelas bocas de peixe aproveitadas na sua maior parte por casais de periquitos para ali nidificarem chamavam a atenção de qualquer um.

Tudo precisa de arranjo mas, mais uma vez, os chineses irão tratar de tudo. O lixo que se vai amontoando pela cidade e que provoca doenças, será também fruto da guerra aos opositores? Eu diria que é, apenas e só, falta de higiene.

Ia-me esquecendo de quanto eram interessantes as QUITANDEIRAS de Luanda que apregoavam pelas ruas a castanha de caju, as maçãs da Índia, (fruto pequeno por vezes farináceo com um sabor agradabilíssimo) e tantos outros produtos que eram vendidos de porta em porta.

As peixeiras também apregoavam o seu peixe pelas ruas daquela linda cidade.

Quem se desse ao trabalho de estar a aprecia-las era um espectáculo bastante interessante. Jamais ouvi ou tive qualquer conversa sobre tais mulheres.

Deixemos Luanda e rumemos até ao território encravado entre os dois Congos e o Atlântico.

O Enclave de Cabinda, de clima quente e húmido, é possuidor de parte de  uma das maiores florestas Tropicais.

Milhares de barris de petróleo são embarcados para o estrangeiro arrancados ao fundo do mar.

Milhares de troncos eram exportados. Madeira em bruto. Árvores seculares abatidas, pelos madeireiros. Fiscalização quase inexistente. Rios abaixo iam descendo os enormes troncos até locais de acesso fácil e transportados em camionetas até Lândana, onde eram embarcados no alto mar. Infelizmente ao longo da Costa encontravam-se inúmeros troncos abandonados a apodrecerem. Troncos que eram atrelados uns aos outros e que devido à ondulação forte no mar, antes do embarque, partia-se a jangada e alguns iam ter ao imenso areal ao longo da costa. Outros eram levados pela corrente. Não havia grande preocupação uma vez que os seguros cobriam os prejuízos. Era um autêntico crime que as pessoas envolvidas praticavam.

Aí encontrei plantas que no interior de Angola eram cultivadas em estufas e depois negociadas. Frutos silvestres não faltavam. Mariscos diversos havia em quantidades fabulosas. Os caranguejos do mangal invadiam em certas épocas as poucas ruas da terra. Por vezes serviam de bola de futebol

Cabinda, no meu entender, nunca fez parte integrante do território de Angola. Foi doada a administração da mesma, pelo rei, à coroa portuguesa e assinado o Tratado de Simulambuco em l885, entre as partes. Até nisso os Governantes Portugueses da época, não se preocuparam com essa questão primordial. O problema aqui estava em Angola entregar o território de Cabinda, o mais rapidamente possível, aos seus legítimos proprietários de raça negra.

Há na minha garganta uma espinha atravessada e por isso quando escrevo sobre Angola, lembro-me sempre da “perfeita” descolonização. Ela sai-me do lugar, onde esteve guardada durante estas três décadas e automaticamente desce até às teclas do aparelho que se encontra à minha frente.

Falar sobre Angola daria para escrever um livro. A minha intenção não é essa. Só pretendo passar um pouco do meu tempo, mexendo e brincando com as modernices. Para nós são modernices, pois há certos países em que toda a gente nas escolas, mexeu na informática, há quase meio século. Neste aspecto, Portugal está a dar os primeiros passos no que respeita ao ensino. Muito há ainda a fazer neste campo. Os jovens são os mais desinibidos a mexerem em computadores. Usam-nos a cada instante, uma vez que a maioria deles é possuidor de um telemóvel.

Neste momento ocorreu-me um evento que por toda a Angola tinha um impacto colossal. Milhares de pessoas se deslocavam, dos mais distantes pontos para poderem assistir às SEIS HORAS DE NOVA LISBOA.

Falando nas corridas automobilísticas, daquela cidade planáltica porque não escrever umas poucas linhas sobre a mesma, onde passei parte da minha juventude.

Cidade encantadora apesar de não se encontrar situada no litoral, talvez a segunda cidade mais importante de ANGOLA. Bastante industrializada. Suas fábricas e derivados empregavam um número considerável de pessoas. Os Institutos como o I.I.A.A. (Instituto Investigação Agronómica de Angola), o I.I.V.A. (Instituto Investigação Veterinária de Angola) e o I.I.M.A. (Instituto Investigação Médica de Angola) empregando um número elevado de funcionários, contribuíam grandemente para as investigações nas áreas para que foram fundados. A investigação tornava-se prioritária. Seus técnicos, alguns dos quais aí formados, contribuíam incessantemente nas pesquisas, nos tratamento de doenças, na agricultura, veterinária e na humanidade. Derivado aos seus trabalhos já eram reconhecidos tanto a nível nacional como mundial. Fabricavam-se além de muitos outros produtos, vacinas para combater as maleitas do gado bovino, caprino, suíno e não só. No campo veterinário e que me lembre, há a destacar a imunidade de animais à peste suína. O I.I.M.A. dedicava-se à investigação de doenças endémicas tropicais.

Ruas largas, bem delineadas, espaços verdes junto à linha do caminho de ferro, ladeando uma das avenidas principais, em frente ao Palácio do Governador, frente e lateral ao edifício da Câmara, campos de jogos nas traseiras deste e outros contribuíam para o bem estar e lazer da população; cursos comerciais e industriais funcionavam na Escola Comercial e Industrial Sarmento Rodrigues, da qual todos os anos eram formados uma série de técnicos, que iriam ocupar os mais diversos lugares no comércio e indústria. Havia também um liceu e diversos colégios particulares, assim como escolas do Ensino Básico (Ensino Primário).

O seu hospital, que foi grande, estava a tornar-se pequeno, mediante o aumento demográfico da população. Os serviços de urgência funcionava muitíssimo bem, quase não havia tempo de espera. Casos mais graves davam entrada imediatamente, sem haver a burocracia da papelada: eram tratados e só posteriormente se resolvia o restante.

Entre organismos públicos e particulares formavam-se equipas de futebol de salão, hoje futsal, e quase todas as noites os adeptos assistiam e torciam pelas suas equipas. As bancadas geralmente, encontravam-se repletas, o que dava ao Atlético uma receita bastante significativa. No mesmo pavilhão também havia combates de box, os quais eram muito apreciados pela população masculina e alguma feminina.

Apesar do frio, na estação do “cacimbo”, um passeio pela baixa na zona do cinema Ruacaná e tomar um café na pastelaria Diana ou na pastelaria e esplanada do Hotel Ruacaná, era quase obrigatório diariamente, depois do jantar. As melhores casas comerciais situavam-se na zona. Boas piscinas pertencentes ao Ferrovia e ao Sporting não faltavam.

Eis pois o que foi Nova Lisboa (Huambo). Parece-me que de certo modo foquei os pontos principais. O que resta daquela maravilhosa terra bem perto do Alto Hama com aqueles morros graníticos lá no fundo, a dar ao horizonte uma vista espectacular? Sei bem o que resta. DESTRUIÇÃO… destruição e nada mais…

Acabo de receber um email. Mais ou menos já sabia o que continha. Deixei a escrita e fui saber mais novidades sobre a tão falada terra no centro de Angola. Quem o escreveu? (já não ia lá há 15 anos). É filho da terra. Ali nasceu, cresceu e continua a viver em Angola.

Perante o que escreveu, resolvi não fazer qualquer comentário, De princípio ao fim fala de destruição. A certa altura escreve: CAMACUPA MAIS PARECE UMA TERRA FANTASMA. Acho que a frase é bem expressiva e nada há a dizer. Penso que tal artigo será muito em breve publicado.

Há muito racismo entre as diversas etnias. A maneira de falarem de uma etnia diferente dá a conhecer por vezes, o ódio que corre naquelas cabeças. O racismo não é só entre o homem branco e o homem negro. Poderá ser entre a mesma cor de pele. Em Angola estava muito difundido o racismo, embora camuflado. Como as mentalidades não se alteram em curto espaço de tempo deve-se manter a mesma situação, era mais evidenciada quando havia qualquer maka e estavam envolvidas etnias diferentes.

Temos o exemplo nas terras do Norte de Angola em que os Bailundos foram chacinados como se animais se tratassem. No Ruanda e em tantos outros países sucede o mesmo. Na Europa também existe. Penso no parisiense, para não falar na Bósnia ou outros locais da Europa. Acho o parisiense um pouco racista perante o estrangeiro. Pelas três ou quatro vezes que lá estive, tive essa sensação e numa das vezes respondi a alguém por terem sido proferidas expressões menos agradáveis. Essas as impressões com que fiquei do habitante daquela maravilhosa cidade atravessada pelo Sena.

Sei perfeitamente distinguir o racismo do não gostar de alguém ou desse alguém não ser desejado no meio, por qualquer motivo. Julgo que, no ser humano, por vezes muito tolerante, no fundo há sempre qualquer acção rácica.

Bailundo, terra bem perto da sede do Distrito do Huambo, sede do concelho do mesmo nome, foi durante alguns meses o local onde trabalhei. Bastante acolhedora fazia parte daquela Angola tão promissora. Para não fugir á regra encontra-se escavacada e se não forem os amarelos não serão certamente os africanos a reconstruí-la. Triste sorte.

Benguela, cidade já bastante industrializada, com clima quente e húmido no verão. Sente-se menos calor a partir de Maio até meados de Agosto, passando nessa altura a subir a temperatura e as águas do Atlântico a aquecer lentamente, chegando a parecer que tinham acendido uma fogueira por baixo da água, pois esta encontrava-se morna.

A secagem de peixe, a indústria do peixe e tudo que com ela se relacionasse ocupava grande parte da mão de obra. A agricultura era a área para onde muitos trabalhadores do interior convergiam. Bananeiras e produtos hortícolas eram os mais cultivados. Mais indústria foi naquela terra instalada. Segundo se consta, muitas dessas indústrias foram conhecer paisagens exóticas, além mar, onde é cantada a cada passo que se dá a tão conhecida música latino-americana Guantanamera. Aí estão a funcionar.

Belas e extensas praias eram o lazer da maioria da população, onde cada um passava o fim de semana. Existiam bonitas casas de lazer na Baía Azul, Baía Farta, Caota, Caotinha e outras. Havia casas geralmente fresquinhas devido à brisa do Oceano. Muitos escorpiões se encontravam debaixo das pedras que rodeavam as casas, ou mesmo dentro das garagens que estivessem ao nível da terra. Os matrindindes (espécie de gafanhoto) também invadiam o asfalto da estrada, em certas épocas e eram esmagados pelos rodados dos veículos; frondosas árvores (acácias rubras) cobriam as ruas de um lado ao outro, fornecendo a sua sombra a quem por ali passasse. A pérgula, na praia de Benguela coberta com as trepadeiras, as buganvílias de diversas cores, também fornecia sombra aos mirones e banhistas que ali se dirigissem e se quisessem refrescar com uma Cuca ou Nocal ou só com uma água bem geladinha. Para sossego dos leitores, informo que também existiam vários refrigerantes e não só as cervejas acima citadas.

A uma ou duas dezenas de quilómetros estavam as pontes do Rio Catumbela do estilo Eiffel e a fábrica de açúcar e álcool da Cassequel, sendo estes dois produtos consumidos no território e os excedentes exportados. A estrada de Benguela-Lobito e que passava bem junto a Catumbela era ladeada por uma grande plantação de cana de açúcar para fornecimento de matéria prima à fábrica, bem como palmeiras de dendém em que os tecelões (pássaros) aproveitavam as folhas para fazerem os ninhos.

Ultrapassando o rio e a plantação de cana sacarina, está-se praticamente no Lobito. Do lado esquerdo e lá ao fundo o Aeroporto. Vem a seguir a Caponte, onde a terra parece fugir-nos dos pés, quando um machimbombo ou outro qualquer veículo passa. Tudo estremece. Parte da cidade está construída em cima do pântano e outra no areal. Técnicas especiais, quanto aos alicerces tinham que ser postas em prática, pelos engenheiros civis na construção das moradias ou prédios. Depois da Caponte, uma ponte que mais parecia a continuação da estrada liga uma outra parte (península) do Lobito, que se estende desde o cinema Flamingo (onde se podia ver cinema ao ar livre e até grandes artistas como AMÁLIA e CARLOS DO CARMO, que ali actuaram) até á Restinga. Entretanto essa parte deixou de ser península com a abertura da nova estrada a passar pelos edifícios de ensino e um bairro tudo construído por cima do pântano, onde os flamingos e outras aves se alimentam. Foi chamada a Pérola do Atlântico. Melhor nome não poderia ser posto! Junto ao miradouro, bem no cimo do morro, a cidade estendia-se naquele sentido. Por ali passava a estrada que dá acesso a Luanda, Serra do Pundo e Nova Lisboa (Huambo). 

O Restaurante - Café Tamariz com a sua grande esplanada, era um dos pontos de encontro, para uma mera cavaqueira, ou para dar ao serrote (comer).

Boas lagostas e santolas estavam em exposição nos dois ou três aquários ali existentes. A paisagem era lindíssima vendo-se do outro lado da baía, além dos navios que se encontravam ao largo, fundeados e outros atracados ao porto, a Sorefame e o morro. Quando dos confrontos entre os partidos podiam-se ver os projécteis tracejantes sobre a baía, de noite,  fazendo lembrar fogo de artifício.

A fauna marítima na baía é muito diversificada, aparecendo por vezes cardumes de atuns barracudas, roncadores e outros, além dos sempre existentes mariquitas ou sargos, baiacus, pargos e pargo mulato, peixe espada branco, carapaus e tantos outros pelo que contribuíam, para o aglomerado de pescadores desportivos, nas Portas do Mar, Capitania e Restinga, principalmente ao cair do sol até às tantas da noite ou da madrugada.

As noites eram animadas com o som das músicas nas diversas BOITES, existentes e muito frequentadas por marinheiros e habitantes, onde se podiam apreciar todas as noites sessões de streep.

Escrever sobre Angola é relembrar o passado, um passado, cada vez mais distante, como a distância que separa Portugal da sua antiga colónia. Faz lembrar velhos amigos, muitos dos quais já não pisam a terra que nós pisamos. Esses partiram para sempre, pois a vida é uma curta passagem. Tudo tem um começo e um fim.

Estou no fim deste artigo que dá a conhecer por alto, o que foi e o que é aquele território onde houve a fase das guerras entre tribos, entre colonizadores e colonizados, escravatura, independência e novamente a colonização disfarçada. Voltarei apenas para contar episódios vividos por mim e por outros naquela grande TERRA.

 

António Serrano

 

 

4 - As minhas recordações

 

Toda a criança tem uma tara. Há quem admire perus (com eu), carros, motos, as mais vulgares em rapazes. Ainda bebé, tinha aquela tara por essas aves de capoeira e chorava se não me levassem a vê-las. Meus pais moravam na Av.ª Serpa Pinto em Loanda (mais tarde Luanda) e bem perto de casa havia um quintal onde as aves andavam a depenicar capim, apanhavam gafanhotos e outros insectos. A minha atracção principal era ver os machos a arrastarem as asas pelo chão, com o monco caído, o leque formado pelas penas do rabo todo aberto e as penas do corpo todas eriçadas. Essa grande paixão foi-me acompanhando pela vida fora, muito embora hoje olhe para tais aves como olho para os patos, galinhas ou outra qualquer. Gosto de as ver, por gostar de toda a bicharada. Minha Mãe pegava numa folha de papel dobrava-a em umas tantas partes e das suas habilidosas mãos, com a ajuda de uma tesoura ia recortando o papel até saírem meia dúzia de perus. Ficava satisfeito com aquela ideia e estava-lhe sempre a pedir os glus, como lhes chamava.

Fui crescendo e fomos para Camacupa. Quando residíamos na casa do Samitondo, onde hoje é ou deveria ser o Novo Mundo, meu pai possuía galinhas e patos. Nunca me deixou arranjar perus. Como tinha sempre patas no choco, certo dia comprei ovos de perua e pu-los a chocar juntamente com os ovos da pata. Havia um local próprio para as patas chocarem e por sinal ficavam bem escondidas para que nenhum animal da noite as incomodasse. Ao fim de um certo tempo nasceram os patos e os perus. Não me disse nada e aceitou a minha proeza, muito embora contrariado. Os perus tornaram-se adultos e foram-se multiplicando. Já possuía mais de uma dúzia deles, adultos. Antes de abrir a farmácia, meu Pai dava de comer à criação e punha-a à solta defronte da casa e as aves vagueavam até ao Grémio do milho, até à Estação do CFB e recolhiam ao entardecer.

Quando alguma perua faltava era sinal que se encontrava a chocar enfiada no capim, geralmente na divisória dos terrenos do Estado e do CFB, ou ainda debaixo de um capinzal, cujas sementes picam. Ali nasciam mais perus. Com a minha partida para Luanda a fim de estudar, o caso mudava de figura. Meu pai detestava aquelas aves, porque mordiam nas aves diferentes. Havia que arranjar uma solução. Falei com o meu amigo e companheiro Vítor de Almeida, também conhecido por Vítor Lisboa e ele tomaria conta dos perus. Este vivia nos arredores de Camacupa, a cerca de dois a três quilómetros. Metade dos perus seriam meus e a outra metade para ele. Tudo bateu certo. O Vítor, pela força das circunstâncias, foi viver para os lados do campo de aviação, local onde apareciam muitos lomoínhos e alguns loengos que ia apanhando e comendo pelo caminho. Nesse local esconde-se uma mina de pirite de ferro de elevada percentagem em minério. Será que só existe ferro ou também outro metal misturado? A incógnita perdurará até um dia…

Dividimos os perus por este ir para mais longe, como realmente foi, com o fim de se estabelecer comercialmente. Este o fim trágico dos meus perus!

Lembro-me que com os meus cinco anitos partimos de Luanda, a caminho de Camacupa. Aí só havia três saparalos. Era a casa do A. Luís, ao lado e o prédio da Administração do Concelho. As restantes casas eram rés-do-chão. Isso entristecia-me por não ver prédios altos. Na altura daria tudo para poder viver num prédio com alguns andares.

Ainda em Luanda e nas proximidades de casa havia um candeeiro eléctrico, o qual dava pequenos choques. A inconsciência da tenra idade levou aquela garotada, que diariamente brincava connosco, a formar um cordão e o último da fila apanhava o choque. De cada vez era um que ficava na extremidade, até voltar ao princípio. Minhas duas irmãs faziam parte da fila.

Estávamos os três no quintal e o meu pai tinha plantado um mamoeiro. Minha irmã Regina, que era Maria rapaz, resolveu subir pela tenra árvore acima. A mesma partiu-se e ela, para que meu Pai quando chegasse da farmácia, acompanhado de minha Mãe não lhe ralhasse, resolveu enfiar um pau no tronco, que é oco por dentro e espetar o cocuruto da árvore. Assim ficavam as duas partes ligadas e ninguém daria pelo acontecimento. Quando meus pais chegaram viram as folhas caídas e acabaram por se rir em vez de ralhar. Meus pais nunca foram pessoas de ralhar muito ou bater. Uma vez ou outra minha Mãe dava-me uma palmada pelas diabruras que lhe fazia. Raras vezes aconteceu. Reconheço que deveria ter sido castigado vezes sem conta. Tudo não passava de pura criancice.

Enquanto criança e conhecedor do meio, diversificava muito as companhias. Tudo dependia de quem estivesse livre para a brincadeira, ou para uma caçada aos pássaros com a minha arma favorita: uma fisga, um bolso com pedras escolhidas a que lhes chamavam burgau e estava pronto para mais um dia nos arredores da vila. Tinha que estar ao meio dia em casa, pois meu pai, assim que fechava a farmácia, dirigia-se ao canil, verificava o estado de saúde dos cães de caça, das aves de capoeira e da passarada, sentando-se à mesa em seguida. Falava dos mais diversos assuntos, mas nunca deixando de recomendar que me queria às duas horas na farmácia. Realmente, a essa hora encontrava-me ao pé dele, mas era sol de pouca dura. Passado algum tempo fugia sem deixar rasto, uma vez que já tinha combinado o encontro com outros miúdos.

Um servente, de raça negra, que durante anos trabalhou com ele e que se chamava Satengo, procurava-me quando necessário. Corria com ele e recomendava-o para dizer que não me tinha visto. Só retornava a casa para comer qualquer coisa. Assim que o meu pai me via perguntava-me por onde tinha andado. Retorquia que tinha ido à caça de pássaros e tudo se normalizava. Ele era um viciado pelas caçadas à noite na estrada do Quanza, ou simplesmente no campo de aviação, onde caçava um ou dois bambis, mas também na caça às perdizes e galinhas do mato. Saía por volta das 16 horas e regressava a casa à tardinha. Oferecia muita carne de caça (perdizes, galinhas do mato, tuas, patos bravos, e pombos verdes) a pessoas amigas. Em tempo de aulas os deveres escolares eram feitos à luz de candeeiro a petróleo ou a Petromax, quando não eram feitos na pedra, pelo caminho. A cópia, as palavras difíceis e problemas é que tinham que ser feitos nos cadernos. Os poucos electrodomésticos existentes trabalhavam a petróleo. Os ferros de engomar eram todos aquecidos a carvão vegetal, em virtude de ser o combustível mais vulgar. Os chuveiros não passavam de um balde de zinco com um ralo e que se abria ou fechava conforme as necessidades, com uma capacidade para 20 ou 30 litros, onde se misturava água previamente a ferver com a fria para o banho ser tomado em água tépida. O chuveiro era içado através de uma corda, a qual passava por uma roldana, que se encontrava presa ao tecto e à força de braços. Mais tarde apareceram as bailarinas e actualmente a electricidade e o gás natural ou butano.

Com os meus dez para onze anos deixava Camacupa, uma vez que o Liceu Salvador Correia chamava por mim, com o fim de fazer parte daquelas centenas ou até milhares de alunos, que frequentavam diariamente os corredores (com azulejos da época da construção), as salas de aulas e os diversos campos desportivos daquele estabelecimento de ensino. Nos anos anteriores à minha chegada havia a ala feminina e a masculina, mas se a memória não me atraiçoa, no ano da minha entrada isso deixou de existir e as salas de aula passaram a ser preenchidas por rapazes e raparigas.

Dia de abertura de aulas. Inexperiente na matéria, meu primo Dr. Carlos Dias Coimbra, director dos museus em Luanda, deixa-me frente ao grande portão do Liceu. Os alunos mais velhos aguardavam a chegada dos iniciados: os CALOIROS. Carregado de livros e de cadernos fui apanhado por um que suponho seria finalista. Fez-me a tão cobiçada careca e deu-me as boas vindas com uma cachaporrada na cabeça. Seguiram-se os restantes. O pior foi a 1ª semana, depois a vida liceal normalizou com o decorrer das aulas.

Sessenta anos se passaram.

Dificilmente recordarei as caras de colegas e seus nomes, mas lembro-me muito bem do Dr. Crespo que tanto era capaz de dar o 20 como o zero a um aluno. Bom explicador de matemática, mas também possuía o espírito de bater aos menos estudiosos. Era o terror! Além desse professor, o “Brilhantinas”, a Emília, o Olívio. o padre de Religião e Moral, a professora de Canto Coral, que nos obrigava a estudar as notas musicais e a solfejá-las. Os nomes dos restantes professores, o vento levou-os.

De todos os estabelecimentos de ensino que frequentei, foi sem dúvida o Liceu Salvador Correia o que me marcou mais.

 

Toninho Serrano

 

 

3 - ADEUS ANGOLA

 

Estávamos no final de Março de 1975. Meu primo, Manuel Coelho da Cunha, despachante oficial, vai ao LUBANGO e faz-me o convite para gerente de duas plantações de bananeiras. Cada chitaca tinha uma área, já a produzir, de 75 hectares. Resolvi ir ao LOBITO e falar com os outros dois sócios. Acertámos agulhas mas havia o problema de minha mulher, professora no LUBANGO.

Um dos sócios da AGRIFRUTAS, LDA, para onde fui trabalhar, desloca-se a LUANDA e poucos dias depois a Maria Teresa foi transferida para a "pérola do Atlântico". Pedi férias a seguir licença sem vencimentos por um ano. Mais uma vez tive de embalar as poucas "bicuatas", poucas, que resolvera desempacotar por me encontrar a habitar uma residência enorme, com dois pisos independentes, destinada ao Conservador no Bairro de Santo António, na linda cidade de Sá da Bandeira.

A primeira chitaca situava-se no sopé da Serra do Penedo. Possuía valas abundantes de água para a irrigação das plantas, uma casa belíssima toda mobilada, com rádio para comunicação com a sede, dois armazéns, uma loja para abastecimento do pessoal das redondezas, galinheiros e currais.

Estávamos em pleno desenvolvimento. Exportávamos no mínimo 14.500 caixas de banana por não termos mais metros cúbicos em cada navio. Negociámos muitas vezes com outros agricultores e, desta maneira, exportávamos quase sempre o dobro das caixas, chegando por vezes ao triplo.

A segunda chitaca estava implantada na área da CHICALA. Aí só existia um pequeno armazém, com 50 m/2 e um guarda. Quase todos os dias me deslocava a ambas para ver como decorriam os trabalhos. Nesta última toda a irrigação era feita através de inúmeras valas de água, enquanto na primeira, devido a algumas elevações do terreno, muita da água era captada do rio e transportada através de potentes motores para um tanque dividido em 2 partes, irrigando-se assim a área necessária. Em dias de navio, o dia começava pela "matina" e terminava geralmente às 3 ou 4 horas da manhã do dia seguinte. Era hábito os barcos permanecerem no porto do LOBITO 3 dias seguidos. Tínhamos o pessoal efectivo mas, nos dias de carregamento, todo o pessoal dos arredores que pretendesse, trabalhava na apanha dos cachos de banana, na lavagem, empacotamento e carga no transporte que era conduzido pelo motorista da plantação e numa carrinha de 3.500 quilos que eu dirigia.

O embarque era geralmente feito durante a noite pois o dia era aproveitado para os trabalhos que o antecediam. Eram dias trabalhosos mas muito compensadores.

A AGRIFRUTAS, LDA progredia.

O filho do patrão pediu ao pai um cavalo. O bicho apareceu poucos dias depois na chitaca. O miúdo, Zé Manel, como se chama, ia comigo todos os dias durante a semana pois estava em férias. Passeava pela chitaca montado no animal, ao qual, diariamente, eu dava um cacho de bananas de que ele comia as que desejava. Fazia-lhe festas mas nunca o montei. O Zé, fartou-se do cavalo pouco tempo depois o motorista Mário passou a montá-lo todos os dias. Uma vez, ao levar-lhe o cacho, reparei que o bicho queria dar-me um coice e já não lhe fiz festas, afastando-me. No dia seguinte lá voltei com as bananas mas a reacção foi a mesma, o que me levou a não me aproximar mais do animal. Nunca lhe fizera mal, ficando assim sem saber o que lhe provocara tal comportamento.

Poucos eram os produtos que comprava para casa porque a maior parte deles era distribuída pelos sócios e por mim. Todos os meses matavam um porco, cabritos, galinhas, patos, borrachos. Legumes também não faltavam, assim como as mais diversificadas frutas. Havia um canteiro com uns 50 m/2 plantados com rosas de porcelana que os patrões ofereciam aos seus clientes, todos despachantes oficiais e aos seus colaboradores. Quase todos os dias levava para a Escola um ramo com 50 rosas.

O capataz vivia com duas mulheres, residindo uma no LOBITO e outra na chitaca. Por vezes juntavam-se na casa que lhe era destinada pela firma. Comi por diversas vezes muamba confeccionada por uma das mulheres.

Em Outubro de 1975 tive o último carregamento de bananas para PORTUGAL.

Quatro ou cinco dias antes tinha havido um recontro entre o MPLA e os kuachas (UNITA). Existiam mortos ao longo da estrada e um cheiro nauseabundo empestava o ar. Nesse dia só compareci pelas 9 horas da manhã na chitaca, mas os trabalhos tinham começado à hora habitual, uma vez que a distância à estrada era de 5 kms. Fizemos os possíveis por nos despacharmos, mandando as caixas à medida que iam ficando prontas para serem transportadas durante o dia. Foi impossível fazermos o trabalho todo nesse período, no entanto, atingimos o recorde das exportações (73 mil caixas), demorando 3 dias e, já, sem os patrões. Os agricultores, na sua maioria, já tinham abandonado ANGOLA. No primeiro dia desse carregamento saímos da chitaca por volta das 21 horas. Pelo caminho os 3 homens que iam na cabine nem falaram, sendo a tensão enorme e, constatámos que as luzes da cidade já estavam todas apagadas. Nos dias que se seguiram ia até ao escritório, mas a maior parte do tempo era preenchida a passear de carro com um amigo que era o meu mecânico.

No dia 27,quando passeávamos pela Restinga, ele voltou-se para mim e disse-me: - ..."Vamos embora para PORTUGAL"... As nossas mulheres já lá se encontravam. As pessoas apanhavam os mais diversos transportes para LUANDA e desapareciam de um dia para o outro.

Estava um grande barco, que era um arrastão de pesca, ancorado no porto do LOBITO. Levava dois mil escudos, por pessoa, no transporte até LUANDA. Fui falar com um amigo que trabalhava nas plantações e disse-lhe para olhar pelo meu carro. Este levou-me a casa onde arrumei a minha roupa e uma grande floreira em prata e fui para o arrastão. O Manuel, que desde muito novo fora o nosso cozinheiro em diversas localidades onde eu estivera colocado, pedira-me que o trouxesse. Fiz-lhe ver que não lhe poderia pagar os 1.500 escudos que lhe dava de salário mensal, uma vez que vinha sem garantia de emprego e não teria onde o acomodar. Resolveu não vir.

Navegámos toda a tarde e noite, dormindo no porão, em cima das redes de pesca, chegando a LUANDA apenas às 21 horas do dia seguinte. Aguardavam-nos uns camiões do exército português que nos encaminharam para o Aeroporto Militar. Aí foi-nos servido um jantar à base de sopa e sandes de carne por uma Organização que era, salvo erro, a Cruz Vermelha. Carregámos as nossas malas e nessa mesma noite partimos no avião da TAP, via PORTO, onde chegámos às 9 ou 10 horas. Aí trocaram-me 5 mil escudos por dinheiro de cá. Deram-me de almoçar e a seguir levaram-me para a Estação da C.P. onde parti para LISBOA, visto ter a minha mulher em MEM MARTINS.

Assim me despedi, sem querer, daquela terra que se encontrava em pleno desenvolvimento e em que as exportações de petróleo, diamantes, sisal, bananas, cereais, suplantavam em muito as importações, conforme consta no 5º Volume da obra "ANGOLA - Datas e Factos - 1961/1975", de Roberto Correia.                  

A página foi voltada. Confesso que não mais pensei na terra africana. Havia que começar nova vida.

Hospedei-me em casa de meus sogros, professores conhecidos em CAMACUPA, João Mendes Baptista e Delfina Baptista.

Dei as voltas necessárias para me inscrever no IARN. Ao fim de algum tempo, recebi dois mil escudos porque, sem saber, calhei na mesa de uma antiga colega formada em direito que me arranjou a melhor maneira de receber aquele subsídio e mais a alimentação, salvo erro, mensal. Não a reconheci, mas ela, por causa do nome, lembrou-se de mim.

Sem dinheiro, resolvi no dia 23 de Dezembro de l975, ir junto à Estação do Rossio, vender selos e moedas. Nessa meia tarde arranjei dinheiro para comprar uma lembrança de Natal para meu filho, minha mulher e ainda ficaram umas sobras. No dia 24, véspera de Natal, logo de manhã, fiz o mesmo, mas como chovia fui aconselhado por uma vendedora de castanhas para ir para o túnel do Metro, onde outra vendedora simpática me arranjou um espaço onde, diariamente, passei a vender selos de ANGOLA, moedas e bijutarias, indicando-me os locais onde as poderia adquirir mas, como existiam ali muitos vendedores, mudei para o túnel do Metro do Marquês. Aí, tinha um espaço grande onde vendia objectos de marfim que ia comprando e vendendo, diversas peles que tinham vindo de África, sem nunca deixar as bijutarias. Encontrei as mais diversas pessoas que me propuseram os mais variados negócios e até um, que dizia ser médico, pediu para que lhe arranjasse armas. Estávamos nos tempos acesos após a revolução. Depois de algumas passagens durante vários dias pela minha banca resolvi pôr termo ao assunto e disse-lhe abertamente que não me "chateasse" com armas nem com drogas. Nesse tempo só a liamba era vendida por ter sido trazida de África.

Já era casado, quando experimentei fumar um bocado dum "charro", e foi o suficiente para nunca mais meter nada desses produtos à boca.

Fui corrido do túnel do Metro e passei a frequentar a estrada de Benfica, perto da Igreja, vendendo apenas a bijutaria. Alguns dias depois, apareceu-me um retornado que me disse ir trabalhar para a Suíça. Falámos sobre o assunto e ele deu-me a direcção. Escrevi para UNION SUISSE DES PAYSANS, com sede em BRUGG. Recebi o contrato uma semana depois, tendo apenas 3 dias para poder embarcar. Havia que tirar uma licença militar, passaporte, micro radiografia e uma certidão de nascimento de meu pai, provando que este era português, uma vez que tinha o bilhete de identidade de ANGOLA. A troco de cem escudos, o sargento, que me tinha dito para lá voltar 8 dias depois, entregou-me a licença assinada, ao fim da manhã. Em posse desta dirigi-me ao Ministério do Trabalho onde me pediram a certidão e, na hora do embarque, dar-me-iam o passaporte. Fui fazer a micro perto do Campo Grande. Assim consegui toda a documentação.

Na véspera do embarque meti-me na fila, onde servi de intérprete entre os Suíços e o pessoal. Viajei numa cabine acompanhado dum amigo a quem convidara para ir também trabalhar para aquele país, ao lado da destinada ao director dos Serviços atrás mencionados, havendo ainda, junto desta, outra com mais dois suíços que, por vezes, me transmitiam as ordens recebidas a fim de avisar os duzentos e tal homens que seguiam no comboio. Atravessámos a Espanha, França e chegámos a GENÉVE. Nessa Estação do Caminho-de-Ferro fomos convidados a deixar as malas a um canto, sem guardas, partindo de autocarros para os Serviços de Saúde onde fomos examinados um a um. Foram-nos dados a conhecer os locais para onde cada um iria trabalhar. Acabadas as formalidades legais (rapidíssimas) convidaram-nos a dar uma volta pela cidade e a comparecermos por volta das 17 horas, donde partiríamos para os respectivos locais de trabalho. A mim, foi-me atribuído um local (BEINWILL AM SEE), Cantão de AARGAU, perto da casa desse director pois tinha estudado o alemão e queria aperfeiçoar aquilo que aprendi.

Fui por diversas vezes convidado pelo director para ir almoçar a sua casa com a sua família (geralmente aos fins de semana). Em duas ou três ocasiões o almoço consistiu numa sopa com um óleo a nadar por cima da água e umas tantas verduras. O prato principal era composto de um pouco de bacon, um ovo estrelado, esparregado e batatas fritas. Finalmente vinha o gelado, à escolha.

Um dia, disse ao filho do casal que ia fazer-lhes o almoço. Dito e feito. Confeccionei-lhes um caldo verde, salada de atum e leite-creme, tendo comprado os produtos num supermercado onde existia de tudo. O chouriço para o caldo verde foi substituído por enchidos da região por não ter encontrado do nosso. Tanto o caldo verde como a salada de atum foram tão badalados que, passadas duas semanas, fui a casa de uns amigos do casal que faziam 40 anos de casados, para lhes confeccionar os ditos pratos. Nessa altura ainda lhes fiz mais uma feijoada. Eram cerca de 20 pessoas. Para isso arranjei rabos, chispes e orelhas de porco, diversos enchidos e lá lhes dei aquela mistura toda a comer. Cozera arroz para acompanhamento e eu próprio é que tirava a "feijoada" do panelão e servia as pessoas. Ficaram maravilhadas e pouco restou. No final puseram no bolso do meu casaco um envelope com 250 francos que, a princípio não quis aceitar mas, perante a insistência, lá me convenceram a recebê-los. Assim entrei na sociedade suíça que é muito fechada. E a última vez que lá fui (1987) muitos me chamavam, por vezes já nem me recordando deles por não terem feito parte da minha convivência diária.

Trabalhava de manhã à noite, dando de comer às 18 vacas leiteiras e ao touro, limpava-as com uma escova própria e fazia-lhes a cama de novo. Passava para a secção dos vitelos aos quais dava uns baldes de leite para beberem. Findo esse serviço ia tomar o pequeno-almoço que era a minha melhor refeição, alimentando-me como devia ser e o mesmo acontecia ao lanche por volta das 16 horas. O almoço e o jantar deixavam muito a desejar. Os patrões tomavam conta de 10 pessoas, todas com idades superiores aos 65 anos e, em troca, tinham a quinta com diversos hectares para explorarem. Ainda lhes pagavam, das suas reformas, 12 francos por mês. Uma insignificância! Viviam com todas as comodidades: o asilo todo limpinho. O saudoso HANS, figura caricata, conhecido por todos, ao Domingo corria todas as capelinhas onde lhe ofereciam uma cerveja, chegando a casa, geralmente, a cair de bêbado. No primeiro Domingo passado naquela vila encontrei-o, casualmente, num bar onde fui comer. Tive que o acompanhar aos restantes restaurantes e fiquei, desde logo, a conhecer a maioria dos seus frequentadores. No final teve que ir agarrado a mim, uma vez, que quase nem podia andar. O asilo BURGGERHEIM situava-se num alto com uma vista lindíssima, tanto para a povoação como para o lago HAULLWIL com umas duas dezenas de quilómetros de comprimento por 2 a 3 de largura. Lago esse bem aproveitado para turismo, praticando-se aí diversos desportos náuticos.

Por toda a SUÍÇA não se via um papel pelo chão, ruas sempre limpas, vendo muitos moradores com vassouras nas mãos a limpá-las. Desde finais de Maio até finais de Julho ia passeando, comendo cerejas que apanhava nas árvores dos diversos agricultores pois todas as pessoas faziam o mesmo. Nunca ninguém nos ralhava ou chamava a atenção, sendo algumas vezes os próprios que as ofereciam.

Terminado o pequeno-almoço ia mais o patrão cortar a erva para os animais com máquinas próprias, tendo um tractor que a recolhia com um atrelado especial e era então transportada para o estábulo, servindo de alimentação para o gado durante todo o dia. Por volta das 10 horas ia juntar-me às senhoras vizinhas que já se encontravam na recolha das cerejas, peras, etc. O almoço era às 12,15 horas. Essa era sagrada e todos estavam à mesa àquela hora. Voltávamos novamente ao trabalho às 14 horas e só o largávamos quando este estivesse terminado. No final do dia ia levar as vasilhas de leite à Cooperativa. Regressava a casa, tomava o meu banho, jantava e saía, encontrando nos bares pessoas já conhecidas.

Acabou-se o contrato e regressei a PORTUGAL através da ALEMANHA, HOLANDA, BÉLGICA, FRANÇA e ESPANHA.

Sobre aquele país havia muito mais para dizer. Um amigo que para ali me acompanhara, já conhecido do HUAMBO, ainda hoje ali vive. Seus filhos casaram com suíças e todos falam português, incluindo os netos.

Para aqui vim sempre com vontade de voltar mas minha mulher não concordou. Em Abril do ano seguinte fui convidado para tornar a ir mas aguardei para a segunda leva, tendo em Abril, já em LISBOA, apenas servido de intérprete entre suíços e portugueses que para lá foram trabalhar. Em Maio regressaram para recrutarem mais pessoal, mas nessa altura, apesar de grande insistência da parte deles, já não me aventurei a seguir porque estava na eminência de ser chamado para o Estado.

Assim foi: uns tempos depois chamaram-me para a Conservatória de Vila Franca de Xira, tendo aceitado. Os transportes para aquela terra eram de hora a hora, pelo que me levantava de manhã cedo, por volta das 5,30 horas, só lá chegando às 8,20 horas. Uns meses mais tarde, a convite da notária, passei a apanhar a sua viatura em LISBOA e, geralmente, era eu que conduzia até àquela pacífica terra banhada pelo TEJO, terra dos aficionados pelas corridas de touros e bela como só ela. Gente diferente da de LISBOA, simples, simpática e prestável. Não fui bem recebido pelos colegas pois fazia parte daqueles que poderiam roubar o lugar aos funcionários de cá. Chamavam-nos de "retornados". Tive problemas diversos nos Serviços por ser "retornado". Houve uma inspecção e expus esses problemas, passando a assinar aquilo que me competia. Nunca me calei e fiz chorar algumas funcionárias que se opunham à minha colocação e à de 2 escriturários naquela Conservatória. Com o tempo tudo se foi amenizando, curando as feridas existentes e não mais tive problemas. Quando fui para MAFRA, por transferência, para subir na hierarquia do funcionalismo público, fizeram-me uma grande despedida e houve alguns que me pediram para não os abandonar.

A minha carreira no funcionalismo estava acima de tudo e assim, resolvi ir tomar conta da Conservatória do Registo Civil de MAFRA, onde permaneci durante 9 anos.

Certo dia fui prestar declarações em Tribunal devido a um assalto à Conservatória em que o interesse dos assaltantes fora roubar impressos para bilhetes de identidade e duas ou três centenas de escudos que se encontravam na gaveta juntamente com os mesmos. Foram apanhados, julgados e presos. Após o interrogatório, quando regressava à Conservatória, interpolou-me um indivíduo de etnia cigana, montado na sua carroça puxada por uma mula, que me disse: ..."Você registou o meu filho com a paternidade do meu primo"...

O cigano era bastante conhecido em MAFRA, residindo numa barraca, onde se situa hoje o edifício do Tribunal e as Conservatórias. Ele desejava receber o que a Previdência Social passara a atribuir aos cidadãos pelo agregado familiar. Aquela criança não estava registada como seu filho mas sim do primo, na altura já falecido. Resumo da história: - Porque não tinha bilhete de identidade, na ocasião, mandara a companheira com o primo para o registarem como se fosse filho deste. Disse-lhe que fosse à Conservatórias para ser feita a impugnação da paternidade e resolver-lhe o assunto, o que ficou tratado depois de ter telefonado a um escrivão de Direito do Tribunal. A criança passou a ter novo registo depois de terem sido acrescentados ao anterior os averbamentos e a impugnação da verdadeira paternidade.  

Gente muito simpática, por vezes de uma simplicidade extrema, a condizer com o meio rural em que vive. Numas férias de minha Mãe, passadas em minha casa, convidei-a para assistir aos casamentos que ia realizar fora da Conservatória. Praticamente iria percorrer a maior parte das freguesias, começando em PERO PINHEIRO (arredores) e terminando na ERICEIRA. O primeiro casamento era numa habitação próximo de PERO PINHEIRO, num local ermo e apenas se encontravam os dois interessados, apesar de lhes ter dado, por escrito, informações do que necessitavam apresentar para a celebração do mesmo. Na altura eram necessárias duas testemunhas que soubessem assinar, mas estas não existiam. Assim que deparei com essa falta disse-lhes que não poderia realizar o casamento sem as necessárias testemunhas. Foram buscá-las, demorando algum tempo, pelo que fui realizar o segundo casamento, por sinal, relativamente perto. Voltando ao local encontrei já mais 3 pessoas, das quais 2 não sabiam ler nem escrever. Dizia-me o noivo: ..."Não faz mal, arranja-se tinta e assina com o dedo"... E foi desta maneira que minha Mãe teve de servir de testemunha!     

Pedi a transferência para LISBOA e, por concurso, fui colocado na 7ª Conservatória, onde gostei de trabalhar. Ao fim de um ano e meio concorri para Ajudante Principal da Conservatória do Registo Civil de OEIRAS, onde me mantive o tempo necessário para poder concorrer novamente para LISBOA, onde fui colocado algum tempo depois numa outra Conservatória.

Aí encontrei uma Conservadora que não devia fazer parte do nosso mundo. Fará parte de um outro satélite, talvez uma lua de Júpiter. Sabedora, inteligente mas a inteligência só lhe dava para o mal. Sádica!... Só quem a conheceu e trabalhou com essa senhora poderá imaginar o que era capaz de fazer. Com ela, sempre fiz teatro, o que a levava a dizer para uma colega que eu não compreendia nada do que me dizia. Em reuniões muito frequentem falava durante uma hora ou mais e eu limitando-me apenas a ouvia-la, sem nunca falar. Aturei-a 3 anos sem problemas, por vezes revoltado com o tratamento que dava a certas colegas.

Havia na porta do seu gabinete, que se encontrava sempre fechada, 3 luzes. Luz encarnada: ninguém podia entrar; luz amarela: só entravam umas tantas pessoas, depois de autorizadas; luz verde: qualquer funcionário, com a devida autorização prévia, poderia entrar para lhe falar. Certo dia, quando me preparava para sair com um colega, a Conservadora acercou-se de nós e disse: ..."Vou-me embora ! Adeus"... Respondi-lhe então, "...Até amanhã, senhora doutora"... enquanto o colega lhe respondeu: ..."Adeus"...Indignada, voltando-se para mim, perguntou-me : "...Ouviu o que o seu colega disse à drª?"... Este, furioso, avançou para ela dizendo-lhe que não lhe admitia tal reparo. Ela trancou-se no seu gabinete e deixou-nos sair. Procurei sempre não permanecer muito tempo na mesma Conservatória, procurando locais onde ganhasse mais tendo em vista uma futura reforma. Ainda passei por mais duas Conservatórias e, por fim, a Conservatória dos Registos Centrais, encontrando-me colocado em destacamento na "Loja do Cidadão", na qual permaneci mais de cinco anos. Em fins de 2005 pedi a minha aposentação, que me foi concedida em 4 de Maio de 2006. Eis, pois, o que me faltava para terminar a minha longa biografia em que apenas conto as passagens de maior relevo da vida profissional, não entrando na vida privada.

 

Toninho Serrano

 

 

2 - A GRANDE VIAGEM!

 

Contava apenas cinco anitos quando meus pais resolveram deixar definitivamente de trabalhar na terra que me viu nascer, terra que nunca foi esquecida, pois aí passei bons e maus momentos. Luanda é uma bela cidade: a sua ilha, o morro da Fortaleza, a sua Maianga, o seu Liceu, onde passei momentos agradabilíssimos e tantos outros locais sempre recordados em viagens. Rio de Janeiro nada tem a ver com Luanda mas, há sempre qualquer coisa que me traz a recordação da cidade de Luanda. Por vezes frutos silvestres como caju, cajaja, sape-sape, etc., etc.. O arvoredo também me chama a atenção, principalmente as acácias rubras que se encontravam junto ao palácio do Governo. No Rio há uma série dessas árvores espalhadas pela cidade e quando estão em flor são árvores lindíssimas. São pormenores que recordo, muito embora não me classifique de saudosista.

Estamos no ano de 1944, Luanda era uma folha do livro da vida voltada, uma vez que a mesma teria que seguir o rumo traçado.

Num belo carro dos anos 30, acompanhados por uma prima, Maria Regina Coimbra, rumamos até Nova Lisboa (Huambo), onde permanecemos cerca de um mês. Depois seguimos para o planalto do Bié. Estávamos em plena II Guerra Mundial.

A falta de pneumáticos foi-nos atrasando a viagem. Furos atrás de furos originaram uma demora suplementar de 15 dias ou mais, para sulcar aqueles 800 quilómetros que nos separavam de Nova Lisboa.

A primeira etapa terminou no Dondo.

Depois de atravessarmos em jangada o majestoso Quanza chegamos a terra arborizada com imensas árvores seculares, onde passamos a noite. Tínhamos percorrido quase duas centenas de quilómetros. A cidade do Dondo, mais tarde ficou conhecida pela excelência da sua gastronomia: o “Cacusso” célebre e saborosíssimo peixe do Rio Quanza. Aí também comi pela primeira vez as conhecidas laranjas do Loge, com a sua casca sempre verde e escura (quase negra) mas de uma doçura excepcional. Sempre que ali passava, a caminho de Luanda, tinha que as comprar.

A segunda etapa era até à Quibala, onde devíamos pernoitar em casa do Chefe de Posto José Maria Pereira, amigos de meus pais de longa data. O destino assim não quis e tivemos que pernoitar no Hotel da povoação do Calulo. O Ford 4 cilindros portou-se sempre bem, os pneus é que eram uma verdadeira desgraça. Com três adultos e três crianças lá foi sulcando aquela estrada de terra batida, que só era arranjada quando algum governante por ali passava. Nessas ocasiões até os troncos das árvores eram caiados de branco.

O mesmo sucede actualmente quando há conhecimento da ida de um ministro a alguma repartição. A pessoa que se encontra a chefiar diz: Vem aí o Senhor Ministro. As pastas que estão nas janelas deverão sair daí temporariamente. Não havia espaço para as guardar. A minha resposta era sempre a mesma: quando vier eu já tenho “X” horas de trabalho e o que não tem solução está solucionado.

De novo na viagem e em Calulo meu pai tentou junto dos comerciantes comprar pneus usados. Em vão!... Ninguém os cedia. Mas tínhamos de prosseguir…

Naquele belo carro cheio de bicuatas só uma porta se abria, a do lado do condutor, pois as outras tinham os estribos cheios de malas amarradas. O estribo junto à porta do condutor era destinado ao cão de caça.

Com mais ou menos furos lá chegamos à Quibala. Aí permanecemos quase uma semana até que nos arranjassem os tão desejados pneus e câmaras de ar, por influência do Chefe do Posto. Passamos por locais onde abundava a mosca Tsé-tsé, mais conhecida por “mosca do sono” e houve muitas cautelas para que ninguém fosso picado por aqueles insectos. Animais selvagens apareciam a cada instante.

Mais uma etapa e Nova Lisboa estava à vista.

Instalamo-nos no casarão de um primo, mas meus pais acompanhados de uns outros primos foram a Novo Redondo, onde compraram o espólio de uma farmácia, que viria a ser parte do conteúdo da Farmácia Silveirinha, em Camacupa.

As horas das notícias eram sagradas. Todos, em silêncio, escutavam atentamente a telefonia para estarem a par da evolução da guerra. As comunicações faziam-se utilizando o Morse.

O Planalto do Bié bem como o Hotel Oliveira estavam a pouco mais de duas centenas de quilómetros.
Na devida altura deixámos Nova Lisboa e instalamo-nos durante dois meses no já citado hotel, administrado pelo casal Oliveira. A simplicidade e amabilidade deles bem como dos seus filhos fizeram com que nos tornássemos quase da família. Fomos muito bem recebidos por todos mas lembramos principalmente a bondosa e saudosa Sr.ª D. Luz Oliveira.

Estávamos, portanto, na terra prometida. A terra mais central do território Angolano com gente laboriosa e simpática. Todos se conheciam. A nossa integração no meio foi bastante fácil, muito embora cada um escolhesse as pessoas para as suas relações sociais.

As vastas áreas que a nossa vista abrange demonstram bem a planura da região, muitas vezes apenas quebrada pelo arvoredo ao longe. Todo o horizonte está desprovido de montanhas, tudo plano… muito plano.

O solo e subsolo são de uma riqueza extraordinária. A maior parte das pessoas não se apercebeu da riqueza mineral que rodeia Camacupa. Dos minerais mais vulgares como as pirites de ferro até aos metais mais nobres como o ouro e a platina, para não falar nas pedras preciosas como rubis e diamantes, estão lá para serem explorados.

Cito, por exemplo: pirite de ferro com alto valor em metal, a poucos quilómetros do campo de aviação; ouro para os lados do Cuanza; a mais ou menos três km de Camacupa há uma jazida de gesso que se encontra a uma profundidade de 20 cm; para os lados da casa do senhor Ernesto rubis e quartzo; no Colongo, como é do conhecimento geral, até porque uma companhia de diamantífera mandou vedar a área, há diamantes; para o mesmo lado do Colongo há uma rocha da qual brota água, mas durante um temporal que se abateu sobre a região, uma faísca (raio) caiu sobre a rocha deixando à vista umas partículas de metal que depois de analisado deu a conhecer que era platina; a 5 km, antes de atingirmos o Cuanza, e com a abertura de uma nova “picada” com um jeep, apareceu uma rocha branca, que se trata de uma jazida de talco. Tudo foi analisado. Isto tudo do meu conhecimento.

Angolanos está nas vossas mãos a exploração destes minerais ricos!

Meu pai conhecedor destes sítios nunca teve qualquer interesse em se meter no assunto apesar de alguns amigos lhe terem feito diversas propostas. Recolhia amostras para analisar e nunca deixou de me dar conhecimento dos locais.

O solo produz cereais, leguminosas, oleaginosas e fibras que na maioria das vezes eram exportadas através do porto do Lobito. Nos mais diversos armazéns, que eram ladeados por passeios com cerca de dois metros de largura, armazenavam-se grandes pilhas de sacos de juta contendo cada um cerca de 100 kg de mercadoria. Os grandes armazéns já não tinham capacidade para guardar mais cereais e era a única forma de os ter temporariamente guardados. O contributo do pequeno comerciante que vivia isolado no meio do mato, os chamados “aviados” contribuíram essencialmente para que isso sucedesse. Iam comprando, trocando os produtos produzidos na área e enviavam-nos posteriormente para o comerciante com quem mantinham relações comerciais. Os aviados, por falta de convívio, a não ser com os nativos com quem conversavam no dialecto local, eram afáveis, simpáticos, quase que exigindo a nossa presença no local, assim que um carro ali chegasse. Passados instantes da nossa chegada, mandavam matar frangos e eram servidas as mais diversas iguarias guardadas para o efeito acompanhadas sempre de vinho e café.

A sacaria armazenada nos passeios era guardada, durante o período nocturno, por homens contratados expressamente para isso. Assim que o sol se punha acendiam grandes fogueiras, que crepitavam aquecendo e iluminando pela noite fora e só pela madrugada é que abandonavam o seu posto.

Uma vez que Camacupa não tinha electricidade essas mesmas fogueiras serviam para que qualquer utilizador das ruas não metesse a “pata na poça”, causadas pelas chuvas caídas e davam à terra um aspecto romântico sempre muito bonito.

A povoação era rica em artesãos que, com as suas mãos, construíam muita arte indígena (artesanato). Chamo-lhe “arte indígena” por ser a verdadeira arte Africana. A mais primitiva e não a industrializada como vulgarmente aparece. Comprei cachimbos, sendo a maioria de utilidade diária, máscaras de “vinganges” ou “tchinganges”, bonecos primitivos. Durante anos fui armazenando aquilo que para mim tinha muito interesse.

Quando fui viver para Nova Lisboa, depois de casado, não tinha o mesmo espaço de arrumações que em Camacupa. Resolvi então dirigir-me ao museu e oferecer as duas centenas de peças, entre elas um cachimbo e uma cadeira de soba que me foram oferecidos pelo próprio soba.

Uma certa tarde fui à caça de pombos verdes para um local onde predominavam enormes mulembas em grande quantidade. Tínhamos que deixar a estrada que seguia para Catabola (Nova Sintra) e antes da plantação (de eucaliptos) do Bianchi apanhava-se uma picada que dava acesso à sanzala onde as ditas mulembas predominavam. Era o sobado do Bingondo ou Tchingondo. Aí chegado distribuía sempre rebuçados pela miudagem e cigarros “caricocos” pelos mais velhos. Na maioria das ocasiões mantinha uma conversa agradável com o soba e muitas vezes este acompanhava-me na caçada aos pombos.

Nessa tarde encontrei-o com paludismo, cheio de febre. Levava comigo uma dose de comprimidos de atebrina para combate à doença, pois na véspera tinha encontrado outro caso com a mesma doença. Dividi a dose ao meio e dei ao soba 6 comprimidos, para serem tomados em dois dias seguidos e ao outro a mesma quantidade. Voltei no dia seguinte com mais uma dose que foi distribuída equitativamente pelos doentes, para que o tratamento fosse completo. Os agradecimentos foram concretizados, dias mais tarde, através da oferta de um porco. Disse-lhe que não me agradava mas sim aquela cadeira, uma vez que ele tinha possibilidades de arranjar outra. Concordou oferecendo-me ainda uma chibata e um dos seus cachimbos grandes.

Essas peças deveriam encontrar-se no Museu do Huambo (se ainda existe) que era propriedade da Câmara Municipal.

Na região (e em toda a Angola) são vulgares as queimadas. Em hectares e hectares de terrenos a sua vegetação é reduzida a cinzas. Dias depois, tanto o capim como as árvores rejuvenescem dando origem a um tapete totalmente verde. Os animais selvagens raramente entram em pânico com as referidas queimadas. Eles têm o instinto de que é um mal necessário, pois em breve terão capim fresco e tenro.

Bem perto de Camacupa o Quanza e o Cuiva espraiam-se por aquelas terras baixas (anharas) formando autênticos lagos, dando origem a grandes extensões de capim verdejante onde, por vezes, pastam hipopótamos e os mais diversos antílopes. A bela palanca aí tem o seu habitat natural.

Será que um dia essa zona não será aproveitada para o turismo como na vizinha Namíbia com o EtochaPark?

As magníficas quedas de água do Cuemba e do Luando são lindíssimas mas pouco ou nada conhecidas a nível Angolano e mundial.

As quedas do Luando são de difícil acesso mas ambas são dignas de serem visitadas não só pelo volume de água que se precipita por dezenas de metros de altura, mas também pelo espectáculo impar quando se tem a sorte de vislumbrar o sempre maravilhoso arco-íris.

Para que não me torne enfadonho vou terminar e faço-o como um cliente da Farmácia Silveirinha que terminava sempre os seus bilhetes, pedindo medicamentos, desta forma:

 

 Teu para sempre

 Toninho Serrano

1 - DE CABINDA AO CUNENE COM ATERRAGEM EM CAMACUPA 

 

 A sul do Equador, na Costa Ocidental de África entre os dois Congos com os quais faz fronteira e banhada pelo Oceano Atlântico fica encravada uma faixa de terra. Nada haveria a dizer se fosse uma terra estéril e improdutiva. Com um sol abrasador, uma temperatura elevada e bastante humidade é riquíssima em madeira. Ali se encontram as mais preciosas madeiras. Riquíssima em recursos naturais, praticamente inexplorados, como ouro e pedras preciosas. As mesmas são exploradas por garimpeiros em riachos no interior da grande floresta tropical a que deram o nome de Maiombe. Árvores seculares e frondosas com dezenas de metros erguem-se do solo, não deixando que se faça a penetração dos raios solares. É riquíssima, além da flora, a fauna; destacam-se os chimpanzés, gorilas, diversas espécies de macacos e aves não faltando ainda os elefantes que comem os frutos e vão espalhando sementes assim como ananazes que se encontram em grande parte da floresta. Os papagaios cinzentos são em bandos com 50 a 100 aves. As borboletas, em certas épocas do ano, são aos milhões e enchem as poucas estradas, ou melhor, as picadas. É um espectáculo lindíssimo e digno de ser visto. No mar há jazidas de petróleo.

 

EIS O ENCLAVE DE CABINDA (Ngoyo)

 

As terras de Ngoyo ou Cabinda que se estendiam de Massabi e Miconje até ao Zaire eram governadas pelo Rei. Foram assinados os tratados de Moanda, Chimbola e Soca entre Portugueses e os governantes de “Ngoyo” para administração e posse daquelas terras. Por falecimento do Rei e na regência de Ngoyo em 1 de Fevereiro de 1885 e em representação do Reino de Portugal por Guilherme Augusto de Brito Capello e por Cabinda os seus príncipes e nobres João Puna, João Barros Franque, Vicente Puna, Guilherme Franque é assinado o tratado de SIMULAMBUCO.

A sul de Cabinda foi cedida ao Congo Belga uma pequena faixa de terra para que este tivesse acesso ao mar. Era necessária a evacuação dos seus produtos através do rio Zaire (isto por questões comerciais) sendo cedida a Portugal uma faixa de terra na zona leste, (salvo erro Lunda-sul).

Nas margens do magnífico Rio Zaire encontra-se Santo António do Zaire. Aí começa a verdadeira e magnífica Angola, que se estende até ao diamantífero Rio Cunene. Este Rio perde-se e desaparece nas areias do deserto e por tal facto durante mais de 200 anos foi conhecido por rio misterioso. Durante o tempo chuvoso o seu caudal aumenta e as areias do deserto da Namíbia não absorvem toda a água. Assim o rio arrasta cascalho e tudo o que se encontra no seu caminho para o mar. Com o cascalho são arrastados também os diamantes que são explorados por uma companhia diamantífera, já em pleno Atlântico.

Paisagisticamente Angola é uma grande potência mundial ainda inexplorada. Praias exóticas abundam por todo o país.

Depois da barra do Cuanza, caminhando para sul, encontramos aquela que já foi a terceira cidade mais importante a sul do Sahara: a magnífica cidade de Loanda com a sua fortaleza no cimo do morro, onde se vislumbra quase toda a cidade nomeadamente a Ilha, o Porto e a Baía. Tem paisagens lindíssimas.

Após a segunda guerra mundial há o desenvolvimento empolgante de todo o território derivado à habituação à bebida oriunda de uma planta chamada cafeeiro. O café passou a ser consumido em chávenas pequenas ou em copos (conforme os países). A expansão deste produto foi tão grande que o Brasil, sendo o maior produtor na época, chega a queimá-lo para que o seu preço não baixe no mercado mundial.

A zona norte de Angola é grande produtora de café com plantações com centenas ou milhares de hectares.

A mão-de-obra é necessária para fazer face à produção e ao preço que dia a dia aumentam.

Milhares de homens são contratados no interior de Angola para trabalharem nas referidas plantações. Isso traz riqueza ao interior. As cidades começam a desenvolver-se.

A cidade de Loanda cresce. Para tratarem dos seus assuntos e negócios a maior parte das pessoas desloca-se à capital que é a cidade de Loanda.

Aí nasci em 30 de Outubro de 1938.

Nos anos 40 a ortografia mudou e a palavra Loanda passou a ser escrita Luanda.

A EVA (Empresa de Viação de Angola) é a maior rodoviária de Angola com os seus machimbombos (autocarros) velhinhos, transportando anualmente milhares de pessoas para todas as cidades de Angola. Mais tarde já possuía autocarros com uma certa comodidade.

Possuía também uma rede ferroviária, sendo de destacar o Caminho de Ferro de Benguela que atravessa toda a Angola desde o Lobito até Dilolo. Os seus comboios possuíam boas carruagens para passageiros que quase sempre iam repletas e que se deslocavam de cidades, vilas ou aldeias para outras terras.

Meus pais, António e Rosalina Serrano, resolveram em 1944 deixar Luanda e estabeleceram-se por conta própria com a Farmácia Silveirinha em Camacupa.

Tenho duas irmãs, Maria Raquel, que leccionou na Escola Primária de Camacupa e Maria Regina que apenas leccionou na Escola do Cuanza.

Os cinco, por diversos factores, permanecemos no Hotel Oliveira, por algum tempo. Fomos recebidos pelos seus donos e filhos, não como hóspedes, mas sim como familiares.

A família Oliveira era constituída pelo senhor Oliveira, senhora D. Maria da Luz, filhos Zeca, António Benjamim (Mim) e Maria Teresa (esta só mais tarde é que a conheci). A D. Luz Oliveira era uma pessoa que confeccionava os melhores enchidos que comi até hoje. Sua filha seguiu-lhe as pisadas.

- Maria Teresa, peço-te desculpa, mas tua saudosa mãe, neste caso foi sem dúvida muito superior a ti!

Também a destacar os enchidos confeccionados pela senhora D. Glória Marques “Camacapa”.

Em Camacupa estudei até à admissão ao liceu, aí arranjei grandes amigos. Não os vou enumerar, pois poderia esquecer-me de algum. Lamento a perda de alguns, por falecimento, mas temos que nos resignar. Por vezes penso nos vivos e nos falecidos.

Após a minha admissão ao liceu fui estudar para Luanda, Silva Porto e Nova Lisboa. Regressava nas férias a Camacupa.

Aí casei com Maria Teresa da Costa e Silva Baptista em 1962. Minha mulher leccionou com a Maria Helena Marques na escola de Camacupa. Mais tarde fomos viver para Nova Lisboa regressando sempre àquela bela Camacupa. Posteriormente arranjei trabalho no Lobito, na Conservatória dos Registos e para lá fui, sempre acompanhado pela minha cara metade.

 

CAMACUPA…

 

Camacupa terra que me viu crescer, situada no centro de Angola, foi uma Vila/Cidade próspera cheia de juventude.

De uma maneira geral a população vivia desafogadamente.

Conheci-a em 1944, quando meus pais resolveram deixar Luanda e estabeleceram-se aí com a FARMÁCIA SILVEIRINHA.

Num Ford de 4 cilindros meu Pai e eu resolvemos deslocarmo-nos ao Huambo (Nova Lisboa). Aí estivemos 3 dias para tratar de assuntos relacionados com a farmácia. No segundo dia meu pai recebeu um telegrama de minha mãe que dizia ter feito 250 angolares. Era uma pequena fortuna para a época.

Não havia luz nem água canalizada. Cada casa tinha geralmente um petromax e alguns candeeiros a petróleo, que acendiam ao pôr do sol. A água ia buscar-se a uma fonte perto do Rio Júlio, para os lados da oficina dos Senhores Pinho e Américo. Para isso eram utilizadas as barricas de madeira que iam cheias de vinho que Portugal escoava para Angola.

Em frente a muitas casas havia os bancos da má língua, como eram conhecidos e onde se reuniam uns tantos homens que falavam e discutiam os mais diversos assuntos. São de destacar os bancos em frente ao Cameia, Cunha Cambuta, Quental, Cariço, Camacapa e outros.

Havia outros indivíduos que preferiam a Associação Beneficente e Recreativa, onde jogavam cartas; os mais jovens tinham uma mesa de bilhar e pingue-pongue. O Luís Morto Sangue Puro Sem Medo era o contínuo que estava encarregado de anotar as horas do início dos jogos e dava as bolas do bilhar. Além da sala de dança havia um ringue de patinagem, voley, basquet e por vezes festas de aniversário onde toda a gente se divertia e dançava. Estas festas eram feitas num recinto interior do clube que era enfeitado por todos aqueles que desejavam colaborar.

De vez em quando era dia de são cinema: cinema ambulante. Também, por vezes, apareciam artistas vindos ou de Luanda ou de Lisboa que davam espectáculos muito apreciados por toda a gente onde me lembro de ver o declamador João Villaret. Era muito novo mas fiquei extasiado com este artista e nunca mais me saiu da memória, já lá vão cinquenta e muitos anos.

Carroceis, carrinhos de choque, poço da morte e diversas companhias de circo também apareciam para alegria da miudagem.

Geralmente, ao domingo, depois das 16h30 havia matinés dançantes. Os caixeiros viajantes chegavam quase sempre às sextas feiras para passarem o fim de semana e aí se divertirem dançando com as belas moças (e tantas eram) que havia em Camacupa. Alguns casamentos foram realizados entre raparigas de Camacupa e os tais caixeiros viajantes.

Só existia a padaria do Quental, um hotel que tinha uma cacimba no quintal para abastecimento de água ao mesmo e muito comércio geral.

O Caminho de Ferro de Benguela que começava no Lobito e terminava em Dilolo (Congo Belga) dava movimento à Vila com a chegada e partida de passageiros. Havia um comboio diário que tinha uma carruagem com bancos de suma-pau que transportava passageiros e às terças, sextas e sábados os comboios que faziam o percurso na totalidade da linha além dos comboios Belgas.

Os comboios vindos do Lobito a caminho da fronteira passavam por Camacupa por volta das 17h30 e só partiam mais ou menos às 18 horas. Quase toda a juventude ia ver o comboio passar.

Entretanto, anos mais tarde, inaugura-se a energia eléctrica, fornecida através de motores. A Vila passou a ter luz do meio dia até ás duas da tarde e das 18 às 23 horas.

Mais tarde aproveitaram-se os rápidos do Rio Cunje para construir uma barragem que forneceria a energia eléctrica a todo o Distrito do Bié. Portanto, Camacupa, passou a ser uma Vila electrificada as 24 horas do dia. Para o abastecimento de água foi construído um tanque elevado.

Camacupa foi sempre uma vila pacata onde a criminalidade não existia. Que me lembre só tinha existido a uns trinta quilómetros, no Caluimbi, o assassínio de José Vieira Mendes pelo vizinho Saraiva em 12 de Março de 1948, tendo-o morto a tiro e incendiado a casa que tinha parte do tecto em capim.

Mais tarde a pacata terra de Camacupa foi alvo de uma onda de criminalidade tendo sido praticado furtos em lojas e casas e também cortes de orelhas e dedos à população negra pelos criminosos Chitari e Chivango. Foram tempos em que a população andou alvoroçada com tais criminosos.

O Chitari foi abatido em determinada altura e o Chivango foi preso. Este, já na cadeia, conseguiu fugir tendo morrido um tempo depois.

Havia um campo de ténis entre as casas do Marques Camacapa e da Maria Santos, que se foi deteriorando com o passar dos anos.

Quase toda a população ia assistir aos desafios de futebol. Com a fundação do Delta Clube houve a divisão dos residentes e consequentemente a rivalidade clubística.

As festas, tanto do Desportivo como do Delta, atraíam bastantes forasteiros, que ali se divertiam.

Com o desenvolvimento construiu-se uma nova escola primária. A Fazenda Pública passou para o centro da Vila e mais tarde foi construído um imóvel para os lados da casa do Maneco. Havia três fábricas de descasque de arroz, uma fábrica de sabão, um complexo para curtimento de peles para calçado, uma fábrica de massas alimentícias, dois fornos de cal e uma fábrica de blocos de cimento.

A chitaca do Oliveira produzia café arábica, muita fruta, pois tinha alguns quilómetros de comprimento. Aí existiam perdizes, rolas e grande quantidade de passarada. Na altura das mangas os miúdos resolviam ir roubá-las. Aparecia o “Chipuaca” que era o homem que tomava conta da horta e corria com a miudagem. Estes por sua vez, já a salvo agrupavam-se chamando-lhe Chipuaca.

A vila de Camacupa passa a cidade e a Comissão a Câmara Municipal que é instalada na Escola velha e mais tarde no antigo Hospital.

Com a construção da nova Igreja foram arrancadas muitas das nespereiras e amoreiras que ali existiam, ficando apenas as do lado do senhor Paula e do senhor Quental.

Um certo dia o Chico Figueiredo matou um hipopótamo e conseguiu trazê-lo inteiro para casa; foi uma romaria para ver o animal.

A terra, por vezes, era surpreendida pelo aparecimento de manadas de bois que passavam por lá em direcção à Diamang acompanhadas por Cuanhamas ou Mamuilas. Era hábito passarem também os boers em galeras com produtos que transaccionavam na zona do Moxico como cera e tuqueia.

Bandos de pássaros poisavam junto aos armazéns do Grémio do Milho, onde havia uma ou duas tararas do Samitondo para limpeza do grão. E eles lá iam aproveitando aqueles restos dos cereais.

Raro era o comerciante mais antigo que não tivesse alcunha implantada pelos nativos. Muitas já foram enumeradas, mas havia além dessas o Chimbanda, Samutopa e outras que de momento não me ocorrem.

Para finalizar só tenho a lamentar aquela terra estar a viver na miséria apesar dos diamantes, petróleo, ferro e tantos outros minerais, o povo viver como vive e as infra-estruturas que havia estarem tão degradadas. Pelas fotografias e filmes pode-se ver o tanque da água derrubado, as casas destruídas e as ruas esburacadas.

Antes de vir para Portugal tive conhecimento da matança de gado suino e de um cavalo simplesmente por prazer. Nesse mesmo dia resolvi abandonar a terra que me viu nascer e vir para o desconhecido Portugal onde vivo.

 

Toninho Serrano                             


    
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